Há, entre o empresariado, muitos que não cogitam votar no presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas também têm reservas em relação ao principal oponente, Flávio Bolsonaro. Esses empresários tinham se concentrado nos nomes de Ronaldo Caiado e Renan Santos para o primeiro turno. A temporada de debates e sabatinas, porém, embaralhou um pouco este quadro. Alguns se assustaram com a agressividade de Renan e outros se frustraram com a superficialidade extrema de Caiado.
Os principais candidatos perceberam a formação de um vácuo político e se mexeram para tentar capturar esse eleitor, que tem uma grande capacidade de influenciar o voto alheio. Lula, por exemplo, abriu as portas do Palácio da Alvorada para banqueiros e empresários com os quais tem diálogo para ampliar sua base de apoio entre as elites. Já Flávio compareceu a um jantar organizado pelo ex-presidente do Credit Suisse no Brasil, Marcelo Kayath, que apoiou Lula em 2018 e 2022.
Os principais candidatos querem se aproximar daqueles que rejeitam seus nomes, mas podem repelir ainda mais o outro lado. Neste jogo de sedução, vale até conversar com quem era chamado de “comunista” por seus correligionários, como é o caso de Kayath.
Falando em correligionários, aqui está o principal problema de Lula e de Flávio: fazer a militância entender que falta pouco mais de um mês para o primeiro turno e que é preciso ampliar o número de apoios políticos. No entanto, essa flexibilidade ideológica, que precisa ser exercida para atrair o eleitor de centro, é rejeitada pelos militantes mais radicais dos do petismo e do bolsonarismo.
Pureza ideológica, porém, nunca venceu uma eleição. Tome-se o caso de Jair Bolsonaro em 2018. Foi eleito por conta dos efeitos da Operação Lava Jato, que desgastou o PT e encarcerou Lula. Seu eleitorado, assim, não tinha apenas extremistas de direita e defensores do governo militar. Boa parte de seus votos veio do centro e da “direita limpinha”, como Bolsonaro costumava chamar os eleitores moderados.
Um efeito semelhante ocorreu em 2022, com o sinal trocado. Lula venceu por uma margem ínfima, contando com votos de centristas e independentes, gente que se frustrou com a agressividade diária de Bolsonaro durante os quatro anos de mandato.
Estabelecer pontes, neste cenário, é importante. Por isso, os acenos feitos pelos dois candidatos ao eleitor que pode definir o pleito de outubro. Lula manda o ministro da Fazenda, Dario Durigan, explicar com frequência que, em um novo mandato, iria reduzir gastos públicos. Já Flávio percebeu que poderia afastar eleitores que enxergam o bolsonarismo como um bloco antivacina. Portanto, anunciou que, em caso de vitória, nomearia o médico Cláudio Lottenberg, ex-presidente do hospital Albert Einstein, como ministro da Saúde.
O caminho até outubro, dessa forma, passa menos pela pureza ideológica e mais pela capacidade de cada candidato transitar entre grupos que hoje se olham com desconfiança. Lula e Flávio disputam o mesmo eleitor pragmático, aquele que decide o voto observando nomes e sinalizações concretas, não plataformas partidárias fechadas. Os movimentos em direção ao empresariado e aos banqueiros mostram que ambas as campanhas já entenderam essa lição da história eleitoral recente. Falta saber se a militância mais radical de cada lado vai permitir que essa flexibilidade avance sem sabotá-la por dentro, porque foi exatamente esse pensamento independente, e não a fidelidade a um ideário rígido, que decidiu as duas últimas eleições presidenciais.
*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho, é jornalista, articulista e publisher do portal Money Report. Foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide
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