O economista Paul Krugman, vencedor do Nobel de Economia de 2008, criticou a decisão do governo de Donald Trump de impor tarifas sobre produtos brasileiros com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos. Para Krugman, a inclusão dos serviços de pagamento eletrônico entre as justificativas da medida representa uma tentativa de punir o Brasil pelo desenvolvimento do Pix.
A avaliação foi publicada nesta segunda-feira (20) no boletim mantido pelo economista na plataforma Substack. O texto recebeu o título “Trump’s War on the Future, Monetary Edition”, ou “A guerra de Trump contra o futuro, edição monetária”, acompanhado do subtítulo “Tentando punir o Brasil por adotar um sistema de pagamentos melhor”.
A tarifa de 25% sobre determinados produtos brasileiros foi anunciada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR. Segundo o órgão, uma investigação identificou práticas consideradas prejudiciais ao comércio americano em áreas como pagamentos eletrônicos, comércio digital, propriedade intelectual, etanol, tarifas preferenciais e desmatamento. Portanto, o Pix integra um conjunto mais amplo de justificativas apresentadas pelo governo americano.
Krugman, entretanto, concentra sua análise no sistema brasileiro de pagamentos e questiona a lógica de enquadrá-lo como uma prática comercial desleal.
“Por que seria desleal um país oferecer aos próprios cidadãos uma forma melhor de fazer compras e pagar contas?”, escreveu o economista.
Pix no centro da crítica de Krugman
Na interpretação de Krugman, o Pix funciona como uma versão digital do real, permitindo transferências e pagamentos instantâneos em moeda oficial. Ele destaca que o sistema é gratuito para pessoas físicas em grande parte das operações e apresenta custos reduzidos para empresas.
O economista também contesta a crítica de que a obrigação de os bancos brasileiros disponibilizarem o Pix representa uma vantagem concedida pelo Estado. Para sustentar o argumento, ele compara essa regra à obrigação de instituições financeiras americanas aceitarem depósitos e saques em dólares.
Krugman reconhece que o crescimento do Pix afeta empresas privadas de meios de pagamento, entre elas Visa e Mastercard. Para ele, porém, a perda de mercado causada por um serviço mais barato e eficiente não deveria ser classificada como concorrência desleal.
A questão central da análise não é apenas tecnológica. Krugman entende que a disputa envolve interesses econômicos de empresas que podem perder receitas com a expansão de sistemas públicos de pagamento. Em sua avaliação, o governo Trump estaria utilizando instrumentos comerciais para proteger setores privados da concorrência representada por uma infraestrutura desenvolvida pelo Banco Central.
Dólar e sistemas digitais de pagamento
Outro ponto abordado pelo economista é o receio de que sistemas como o Pix possam reduzir a influência internacional do dólar. Krugman considera limitado o impacto direto do Brasil sobre o sistema financeiro global, mas avalia que iniciativas maiores, como o projeto de um euro digital, poderiam transferir parte das transações atualmente realizadas na moeda americana.
A análise sustenta que uma eventual perda de espaço do dólar não ocorreria apenas pelo avanço de moedas ou plataformas estrangeiras. Para Krugman, o problema também estaria na resistência política dos Estados Unidos à criação de uma alternativa pública de pagamento digital com alcance semelhante.
Nesse contexto, o economista associa a oposição a moedas digitais emitidas ou apoiadas por bancos centrais aos interesses do setor de criptoativos. O argumento é que uma infraestrutura pública eficiente reduziria parte da demanda por soluções privadas utilizadas para movimentar recursos digitalmente.
Krugman compara essa resistência ao posicionamento do governo Trump em relação às fontes renováveis de energia. Em sua leitura, grupos políticos defendem a inovação enquanto ela beneficia determinados setores, mas passam a combatê-la quando uma nova tecnologia ameaça interesses estabelecidos.
Impacto econômico das tarifas
Para Krugman, as tarifas não devem interromper o avanço do Pix nem obrigar o Brasil a abandonar o sistema. Ele também considera que a medida pode fortalecer politicamente o governo brasileiro, ao transformar a pressão comercial dos Estados Unidos em um tema de soberania nacional.
O economista avalia ainda que o alcance das tarifas é limitado pela dependência americana de produtos brasileiros. Uma cobrança ampla poderia elevar os preços pagos por consumidores e empresas nos Estados Unidos, especialmente em itens cuja oferta doméstica é insuficiente.
A economista Monica de Bolle, citada por Krugman, também argumenta que as exceções concedidas pelo governo americano demonstram os limites da estratégia. Segundo análise publicada pelo Peterson Institute for International Economics, parte relevante das exportações brasileiras ficou fora da nova tarifa para evitar impactos sobre preços e cadeias produtivas nos Estados Unidos. De Bolle também afirma que o redirecionamento do comércio provocado pelas tarifas americanas ampliou a participação brasileira em outros mercados.
Na conclusão do texto, Krugman classifica a política comercial de Trump como uma “guerra contra o futuro”. A expressão resume sua tese: em vez de estimular os Estados Unidos a desenvolverem sistemas mais competitivos, o governo estaria tentando limitar inovações adotadas por outros países.
Quem é Paul Krugman
Paul Krugman é professor pesquisador de economia no Graduate Center da City University of New York. Ao longo da carreira acadêmica, também lecionou em instituições como MIT, Stanford e Princeton. Durante quase 25 anos, manteve uma coluna de opinião no jornal americano The New York Times e, desde dezembro de 2024, publica análises em seu boletim no Substack.
Em 2008, Krugman recebeu sozinho o Prêmio Sveriges Riksbank em Ciências Econômicas em Memória de Alfred Nobel. A premiação reconheceu seus estudos sobre os padrões do comércio internacional e a localização da atividade econômica.
Uma de suas principais contribuições foi mostrar como economias de escala, custos de transporte e a preferência dos consumidores por diferentes produtos ajudam a explicar por que países com estruturas econômicas semelhantes negociam entre si e por que atividades produtivas tendem a se concentrar em determinadas regiões.














