O episódio #122 do Money Report, da BM&C News, revela como três negócios distintos – compartilhamento de jatos executivos, academias com mensalidades entre R$ 2.000 e R$ 5.000 e um restaurante ítalo-francês no Itaim – estão redefinindo o mercado de luxo ao colocar experiência, tempo e personalização no centro da oferta.
A conversa reúne Lucas Bittar (Aliar Jets), Eilson Studart (Six) e Leonardo Recalde (Cozí) para mostrar, na prática, como o mercado de luxo brasileiro em 2026 migra da posse para o uso inteligente, com foco em experiência e gestão.
Os três cases se complementam: compartilhamento de jatos executivos via cotas, academias de luxo com tíquete mensal entre R$ 2.000 e R$ 5.000 e um restaurante ítalo-francês que aposta em pratos autorais e ambiente pensado para eventos e redes sociais. Todos descrevem como a alta renda passou a valorizar tempo, serviço e personalização mais do que ostentação isolada.
Como funciona o compartilhamento de jatos executivos no Brasil?
Lucas Bittar explica que a Aliar Jets atua no modelo de compartilhamento de frota via cotas de aeronaves executivas, diferente do táxi aéreo tradicional. Em vez de um grupo de amigos dividir um único avião, o cotista compra uma fração de propriedade que dá acesso a toda a frota da empresa, hoje descrita por ele como composta por 10 aeronaves, com modelos como Cessna Citation CJ1, CJ2, XLS e um Falcon 2000.
O modelo relatado funciona assim, segundo o empresário:
1. A empresa compra a aeronave, em geral nos Estados Unidos, nacionaliza e faz eventuais retrofit antes de disponibilizá-la aos clientes.
2. O avião é dividido em cotas – tipicamente quatro, de 25% cada – e o comprador passa a ser coproprietário, constando em cartório.
3. O cotista paga um custo fixo proporcional (hangaragem, pilotos, seguro, treinamentos) e um custo variável por hora de voo, que inclui combustível, manutenção e a taxa de administração da Aliar, calculada por hora voada.
4. Um exemplo citado é o de um cotista com 1/4 de aeronave, com direito a 150 horas de voo por ano, e garantia contratual de atendimento se o pedido de voo for feito com 24 horas de antecedência, desde que dentro desse limite.
Bittar destaca que, pela lógica de frota, esse cotista muitas vezes tem mais disponibilidade prática que o dono de uma aeronave individual, que precisa lidar com paradas obrigatórias de manutenção e inspeções como o Certificado de Verificação de Aeronavegabilidade (CVA), previstas nas regras da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) (normas gerais em aviação civil).
Ele também frisa que o compartilhamento opera sob licença distinta do táxi aéreo. A ANAC regula operadores de táxi aéreo pelo RBAC 135 e aeronaves privadas pelo RBAC 91, e, segundo Bittar, o modelo de compartilhamento foi enquadrado pela agência em 2022 a partir desse arcabouço. Na prática, isso significa que:
– somente cotistas e seus convidados podem voar;
– não há autorização para venda de trechos avulsos como se fosse fretamento;
– se um cotista cobrar de um terceiro por um trecho, passa a se aproximar de uma operação de táxi aéreo sem a licença correspondente.
Além da disponibilidade de aeronaves, a Aliar aposta em um serviço de concierge que cuida de pré e pós-voo: reserva de hotel, compra de roupas e amenities adaptados ao perfil do cliente, usando o conhecimento acumulado sobre preferências individuais, conforme descrito por Bittar no programa.
O que torna uma academia de R$ 2.000 a R$ 5.000 diferente das demais?
Depois de 16 anos na operação de restaurantes como o Coco Bambu, Eilson Studart decidiu abrir a Six, em Brasília, ao perceber que o público de alta renda do bairro Noroeste não encontrava uma academia compatível com seu padrão de consumo.
Ele relata que o mercado de academias se dividia em três faixas:
– redes low cost, com mensalidades em torno de R$ 129,90;
– academias chamadas de “premium”, na casa de R$ 500;
– um espaço vazio na ponta de luxo, que ele passou a ocupar com tíquetes entre R$ 2.000 e R$ 5.000, dependendo da praça e do plano.
Segundo Studart, a Six se diferencia em três camadas principais:
1. Arquitetura e materiais
Uso de madeira nobre (como marupá ou carvalho), bancadas em mármore e vegetação natural. O objetivo é dialogar com um cliente que já está acostumado a materiais de alto padrão em casa, hotéis e restaurantes.
2. Serviços inclusos
– valet com serviço estruturado;
– passagem de roupa do cliente;
– mesa completa com insumos para pré e pós-treino;
– foco em limpeza e baixa densidade de alunos.
3. Tecnologia e saúde integral
Os equipamentos da marca italiana Technogym, com o sistema digital MyWellness, permitem avaliações de bioimpedância e monitoramento de parâmetros físicos e mentais. A partir disso, a Six estrutura um portfólio que vai além da musculação, incluindo yoga, pilates, aulas de relaxamento e socialização, com um espaço relevante dedicado a eventos.
Studart afirma que a primeira unidade, no Noroeste, lotou com fila de espera em cerca de quatro meses e que, em dois anos de expansão, a Six chegaria a sete operações, com previsão de inaugurar mais seis no ano seguinte. Ele menciona também um número aproximado de 3.500 membros na rede e faturamento médio mensal na casa de R$ 1,5 milhão por unidade madura, números que, segundo ele, equivaleriam ao faturamento de cinco ou seis academias low cost com 3.000 alunos cada. Esses dados são apresentados pelo empresário no programa e não constam em relatórios financeiros públicos.
Como o Cozí usa arquitetura e menu para vender experiência?
Na gastronomia, Leonardo Recalde conta que o Cozí nasceu em 2009, em Santa Cecília, em São Paulo, com cozinha italiana assinada pelo chef Renato Carioni, que traz na bagagem 10 anos de experiência em restaurantes na França, Inglaterra e Itália.
Com o tempo, o restaurante migrou para os Jardins e, mais recentemente, para o Itaim Bibi, em um espaço descrito como um “cubo de vidro” com pé-direito alto. O projeto é assinado pelo arquiteto José Roberto Moreira do Valle, com um briefing claro: criar um ambiente aconchegante e elegante, sem exageros.
Alguns pontos do novo Cozí, segundo Recalde:
– o salão tem forte entrada de luz natural durante o dia e iluminação cênica à noite, criando dois cenários distintos para o mesmo espaço;
– há uma sala privativa para cerca de 35 pessoas, com áudio e vídeo e elevador privativo, voltada a reuniões e eventos corporativos;
– o menu, antes percebido como mais italiano, hoje explicita mais a base francesa em pratos como suflês.
No cardápio, a experiência de serviço é central. Recalde destaca, por exemplo:
– o “pato em três atos”, com três preparações diferentes usando os mesmos insumos (pato, mandioquinha e cogumelo morille), servidas em sequência;
– o robalo na argila, em que o peixe é cozido envolto em argila, quebrada à mesa na frente do cliente, em uma mise en scène comparada por ele ao “papillote”;
– entradas como o Mio Caprese, pensadas para serem visualmente impactantes e “instagramáveis”.
Para o restaurateur, a máxima de que “se come com os olhos” ganhou nova dimensão com as redes sociais, que transformaram pratos e ambientes em ativos de comunicação.
O que esses três negócios de luxo têm em comum em 2026?
Apesar das diferenças de setor, o episódio do Money Report evidencia padrões que se repetem nos três negócios:
| Segmento | Modelo central | Público-alvo típico | Ticket ou valor citado | Principais diferenciais citados |
|---|---|---|---|---|
| Jatos executivos (Aliar) | Compartilhamento de frota por cotas | Alta renda que antes comprava aeronave própria | 1/4 ≈ 150 horas/ano (valor não divulgado) | Acesso a frota, concierge, disponibilidade e gestão técnica |
| Academias (Six) | Academia de luxo com sócio-operador | Classe A que já consome imóveis, hotéis e viagens premium | R$ 2.000 a R$ 5.000/mês | Arquitetura, serviços inclusos, tecnologia e eventos |
| Gastronomia (Cozí) | Restaurante ítalo-francês autoral | Público de alta renda em SP, região do Itaim | Valores não divulgados no programa | Pratos autorais, sala privativa, ambiente instagramável |
Os convidados convergem em alguns pontos:
– Tempo como luxo real: na aviação, o jato é descrito como ativo que “multiplica o tempo”; na Six, a ideia é aumentar longevidade e bem-estar; no Cozí, o jantar vira experiência social prolongada, não só refeição.
– Experiência e detalhe: tipo de shampoo e amenities na academia, acabamento dos móveis, talher e louça do restaurante, forma de servir o prato, atendimento do valet, serviço de concierge da aviação.
– Dados e personalização: a Six usa bioimpedância e histórico de treinos para montar rotinas; a Aliar mapeia preferências para antecipar necessidades de viagem; o Cozí trabalha com ambientes e menus que dialogam com o estilo de vida do cliente.
Quais são os limites e riscos desse mercado premium?
O episódio também deixa algumas questões incômodas para quem olha o mercado a partir de fora:
– Acesso extremamente restrito: mensalidades na casa de R$ 2.000 a R$ 5.000, cotas de jatos e jantares de alta gastronomia colocam esses serviços fora do alcance da maioria da população. O crescimento do segmento não significa ampliação de acesso, e sim maior sofisticação no topo.
– Dependência de execução impecável: Studart cita que um valet lento pode arruinar a experiência da academia; na aviação, falhas de gestão podem impactar segurança e reputação; na gastronomia, um prato ou serviço ruim é amplificado nas redes sociais.
– Risco regulatório e contratual: no modelo descrito por Bittar, o cotista não pode revender trechos, sob pena de aproximar-se de uma operação de táxi aéreo sem licença, sujeita à fiscalização da ANAC. A fronteira entre uso privado e serviço remunerado precisa ser gerida com rigor jurídico.
– Escalabilidade limitada: a Six afirma não adotar franquias, preferindo sócios-operadores selecionados e auditorias internas. Isso protege o padrão, mas limita a velocidade de expansão e pode concentrar ainda mais a oferta em poucos mercados.
O que o empreendedor pode aprender com esses cases de luxo?
Para quem empreende em qualquer faixa de preço, os três cases trazem lições práticas:
1. Defina com clareza o público-alvo e seu problema real
A Aliar endereça o custo e a ociosidade da aeronave própria; a Six responde à falta de espaços de treino à altura do padrão de vida da classe A; o Cozí oferece uma combinação de técnica francesa e ambiente de eventos em um eixo corporativo de São Paulo.
2. Construa processos para sustentar a experiência prometida
– na aviação, gestão de frota, pilotos e concierge dentro dos limites da regulação da ANAC;
– nas academias, arquitetura, limpeza, auditoria e governança via sócio-operador;
– na gastronomia, padronização de serviço de sala, mise en scène dos pratos e projeto arquitetônico.
3. Use dados e comunidade em vez de depender só de mídia paga
A Six, por exemplo, redirecionou orçamento de tráfego digital para eventos e embaixadores de bairro, apostando que experiências memoráveis geram comunicação orgânica.
Quem atua em segmentos mais acessíveis pode adaptar essa lógica em escala menor: mapear o que o cliente realmente valoriza, desenhar jornada coerente com essas expectativas e criar mecanismos de governança que garantam consistência da entrega, ainda que sem o tíquete de luxo descrito no programa.
Assista ao vídeo abaixo:















