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Fiscal pode limitar queda da Selic a 13,25%, avalia economista

BM&C ConteúdosPor BM&C Conteúdos
31/08/2026

VanDyck Silveira avalia que a situação fiscal brasileira pode limitar o espaço para cortes mais intensos da Selic, mesmo diante de sinais de desaceleração da atividade econômica e de inflação mais comportada. Para o economista, a trajetória da dívida pública e o custo de financiamento do governo continuam exercendo pressão sobre os juros no Brasil.

Em análise na BM&C News, VanDyck classificou o quadro fiscal brasileiro como “cataclísmico” e afirmou considerar “duvidável” uma redução mais expressiva dos juros. Ao comentar a possibilidade de a Selic chegar a 13,25% ao ano, afirmou que esse movimento exigiria um “passo hercúleo”.

Atualmente, a taxa básica de juros está em 14% ao ano. O Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a Selic de 14,25% para 14% em sua reunião de 5 de agosto. Na ocasião, o Banco Central destacou a moderação gradual da atividade econômica e a desaceleração da inflação, mas indicou que as expectativas inflacionárias permaneciam acima da meta.

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Para VanDyck, porém, a inflação não é a única variável capaz de determinar até onde o Banco Central poderá levar o ciclo de redução dos juros.

“14 é duvidável”, afirmou durante a análise. Na avaliação do economista, as condições fiscais ganharam peso na formação das taxas de juros, principalmente nos vencimentos mais longos.

Dívida bruta chega a 82,5% do PIB

O debate ocorre em um momento de aumento do endividamento público.

A Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) alcançou 82,5% do Produto Interno Bruto em julho, ante 81,9% em junho. Em valores nominais, o estoque chegou a aproximadamente R$ 10,9 trilhões. O percentual é o maior desde abril de 2021.

A trajetória da dívida é um dos pontos centrais da análise de VanDyck. Quanto maior a percepção de risco em relação à capacidade do governo de estabilizar o endividamento, maior tende a ser o prêmio exigido pelos investidores para financiar o setor público.

Essa dinâmica aparece especialmente na parte mais longa da curva de juros. Mesmo quando o Banco Central reduz a Selic, as taxas de títulos com vencimentos mais distantes podem permanecer elevadas caso investidores enxerguem riscos fiscais relevantes no horizonte.

O próprio Banco Central apontou, no Relatório de Política Monetária de junho, que a dívida pública deve permanecer em trajetória ascendente nos próximos anos. Naquele documento, a mediana das projeções do mercado indicava uma DBGG equivalente a 83,3% do PIB em 2026, 93,9% em 2030 e 99,8% em 2035.

Perfil da dívida aumenta sensibilidade aos juros

Além do tamanho da dívida, VanDyck chama atenção para a forma como o governo brasileiro se financia.

A Dívida Pública Federal atingiu R$ 9,298 trilhões em julho. Desse total, aproximadamente R$ 8,9 trilhões correspondiam à dívida mobiliária interna, enquanto a Dívida Pública Federal externa somava R$ 340,06 bilhões.

Os números mostram que o financiamento do Tesouro permanece fortemente concentrado no mercado doméstico.

O Tesouro Nacional também revisou em agosto os parâmetros do Plano Anual de Financiamento de 2026 e passou a prever que os títulos com remuneração flutuante, principalmente aqueles ligados à Selic, representem entre 49% e 53% do estoque da dívida ao fim do ano.

Esse perfil aumenta a sensibilidade das contas públicas à taxa básica de juros. Quanto maior a parcela da dívida vinculada à Selic, mais rapidamente juros elevados podem ser transmitidos ao custo de financiamento do governo.

Ao mesmo tempo, dificuldades para ampliar a participação de títulos prefixados ou de vencimentos mais longos podem exigir taxas maiores nas novas emissões.

Brasil também emite dívida no exterior

VanDyck também argumentou que o Brasil possui menos flexibilidade de financiamento do que economias desenvolvidas.

Nesse ponto, é necessário fazer uma distinção. O Brasil realiza emissões no mercado internacional e possui dívida denominada em moeda estrangeira. O estoque da Dívida Pública Federal externa estava em R$ 340,06 bilhões em julho.

A parcela, no entanto, é pequena diante do tamanho da dívida doméstica.

Assim, quando VanDyck afirma que o Brasil “não emite em euro, não emite em dólar”, a declaração deve ser entendida dentro de seu argumento sobre a predominância do financiamento em reais, e não como ausência completa de emissões internacionais.

O Tesouro realizou, inclusive, emissões no mercado internacional em fevereiro e abril deste ano.

Juros dos EUA ainda entram na equação

O cenário internacional também influencia o espaço para redução dos juros brasileiros.

Nos Estados Unidos, o Federal Reserve mantém atualmente a taxa dos Fed Funds no intervalo entre 3,50% e 3,75% ao ano. O patamar está abaixo dos 5,25% a 5,50% observados entre julho de 2023 e setembro de 2024, mas continua oferecendo retorno relevante em uma economia considerada de menor risco.

Para países emergentes, a taxa americana funciona como uma das referências na decisão de alocação global de capital. Quando os títulos dos Estados Unidos oferecem retornos maiores, outros países precisam oferecer prêmio suficiente para compensar riscos cambiais, fiscais e políticos.

VanDyck acrescenta a esse cenário a valorização das grandes empresas americanas de tecnologia. Na interpretação dele, ativos como ações de grandes companhias de tecnologia também disputam recursos disponíveis no mercado global.

A ideia central é que o Brasil não compete apenas com outros emergentes pelo capital internacional, mas também com títulos públicos americanos e ativos de renda variável negociados nos Estados Unidos.

Fiscal pode determinar até onde vai o ciclo de cortes

A avaliação de VanDyck coloca o fiscal no centro da discussão sobre os próximos movimentos da Selic.

Inflação mais baixa e desaceleração da atividade podem criar condições para novas reduções da taxa básica. Mas a trajetória da dívida, a composição do financiamento público e o comportamento das taxas de longo prazo podem limitar a velocidade e a extensão desse movimento.

Esse é o ponto por trás da resistência do economista à projeção de Selic em 13,25% ainda neste ciclo.

O risco é que uma redução da taxa básica sem melhora simultânea das expectativas fiscais seja compensada por aumento dos juros de longo prazo, depreciação cambial ou elevação dos prêmios exigidos pelos investidores.

Para o mercado, portanto, a discussão vai além da próxima decisão do Copom. A capacidade de o Brasil consolidar juros estruturalmente mais baixos dependerá também da percepção sobre a sustentabilidade da dívida pública e sobre a trajetória das contas do governo nos próximos anos.

Assista ao vídeo abaixo:

Notas de reais e uma calculadora azul no canto esquerdo da imagem

Notas reais. (Foto: Canva)

Tags: BMC3fiscaljurosSelicVanDyck Silveira

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