O Federal Reserve mantém 8 reuniões de política monetária por ano em 2026, mas o debate sobre uma postura mais neutra na comunicação, a hipótese de menos encontros formais e o avanço de stablecoins lastreadas em títulos de curto prazo se cruza com o efeito, hoje considerado moderado, das tarifas comerciais na inflação americana.
O Federal Reserve (Fed) opera, até 2026, com 8 reuniões regulares do FOMC por ano, espaçadas em cerca de 6 a 8 semanas, para decidir juros e orientar a política monetária dos EUA, conforme o calendário oficial do comitê. Ao mesmo tempo, ganha força a discussão sobre um Fed menos preso ao chamado forward guidance, o possível espaçamento dos encontros e o impacto de novos instrumentos como stablecoins lastreadas em títulos do Tesouro de curto prazo (T‑Bills) na dinâmica de juros.
No comércio internacional, o balanço das tarifas impostas desde 2018 entre EUA, China e Canadá indica que o impacto inflacionário direto foi moderado quando comparado a choques de energia, ainda que setores específicos tenham sofrido com maior intensidade. O tema foi detalhado por Fabio Fares, especialista em análise macro, em entrevista à BM&C News, cruzando opiniões de mercado com dados oficiais.
O que muda com um Fed mais neutro na comunicação?
Pelos documentos oficiais, o Fed utiliza comunicados pós‑reunião, atas, projeções e discursos como ferramentas de sinalização futura de juros (forward guidance), mas não existe obrigação legal de oferecer projeções numéricas fechadas sobre a trajetória da taxa básica. O quanto o banco central guia o mercado é, em grande parte, uma escolha de comunicação.
Na entrevista, Fabio Fares defende que o Fed deixe de “alimentar” o mercado com promessas implícitas de caminho de juros e passe a “se alimentar dos sinais de preços” para ajustar sua visão, evitando ficar “engessado” por expectativas criadas em discursos anteriores.
Na prática, uma comunicação mais neutra pode significar:
1. Menos ênfase em prometer altas ou cortes futuros e mais foco nas condições atuais de inflação, emprego e crédito.
2. Mais liberdade para mudanças de direção rápidas, sem a crítica de que o Fed “quebrou a palavra” dada ao mercado.
Os documentos do Fed já sinalizam, de forma recorrente, que as decisões são “dependentes de dados” e podem mudar conforme o cenário, o que abre espaço técnico para esse tipo de ajuste.
Fed pode reduzir de 8 para 6 reuniões por ano?
Até outubro de 2024, e seguindo em 2026, não há qualquer decisão oficial do Fed para reduzir o número de reuniões ordinárias do FOMC de 8 para 6 por ano. A estrutura vigente permanece com oito encontros programados, com calendário divulgado publicamente.
A ideia citada por Fares no programa, de tornar os encontros bimestrais, aparece como discussão de mercado, não como proposta formal colocada pelo Fed em consulta pública ou mudança regulatória.
Do ponto de vista operacional, um eventual modelo alternativo poderia ser descrito assim:
| Modelo | Reuniões anuais | Intervalo típico |
|---|---|---|
| Vigente (oficial) | 8 | 6 a 8 semanas |
| Hipotético em debate (opinativo) | 6 | ~2 meses |
Mesmo sem alteração formal, o debate dialoga com movimentos em outras frentes. A SEC, por exemplo, abriu em 2018 um processo de estudo sobre a possibilidade de rever a frequência de divulgação de resultados corporativos, hoje trimestral, avaliando alternativas sem substituí‑la por um regime puramente semestral até 2024.
Para Fares, menos reuniões não reduziriam a importância da taxa de curto prazo, mas poderiam diminuir a dependência de cada encontro como “evento” de mercado, reforçando a ideia de que o Fed age em função da economia, não do fluxo de apostas financeiras.
Como stablecoins lastreadas em T‑Bills afetam a curva de juros?
Um ponto pouco explorado no debate público é o impacto do avanço das stablecoins de pagamento com lastro em títulos públicos de curto prazo, tema do projeto de lei “Clarity for Payment Stablecoins Act of 2023” (H.R. 4766) em tramitação no Congresso americano.
O texto busca criar um marco federal para essas moedas, exigindo reservas em ativos de altíssima liquidez e baixo risco, como T‑Bills e dinheiro. Os T‑Bills são títulos do Tesouro com vencimento de até 52 semanas, vendidos com desconto e resgatados ao valor de face.
Esse desenho tem efeitos diretos na ponta curta da curva de juros:
1. Demanda estrutural por T‑Bills: quanto mais crescem stablecoins reguladas e lastreadas em T‑Bills, maior tende a ser a demanda por papéis de curto prazo.
2. Reprecificação da liquidez de curto prazo: um estoque maior de T‑Bills em mãos de veículos de pagamento pode alterar o equilíbrio entre liquidez bancária, fundos de money market e instrumentos digitais.
Fares argumenta que isso tende a dar mais relevância à “ponta curta” mesmo fora da política monetária tradicional. A discussão ganha peso caso o projeto avance no Congresso, já que, até o fim de 2024, a proposta ainda não havia se tornado lei federal.
O que a experiência do Brasil mostra sobre guidance de juros?
O Banco Central do Brasil (BCB) também utiliza atas do Copom, Relatório de Inflação e comunicados como instrumentos de orientação para o mercado, mas, assim como o Fed, não está juridicamente preso a uma trajetória numérica predeterminada da Selic.
Na entrevista, Fares traça um paralelo com a responsabilidade de comunicação do BCB, citando o cuidado com declarações públicas para não provocar movimentos bruscos na curva de juros. Documentos oficiais do Banco Central reforçam que as decisões são tomadas à luz de projeções de inflação, expectativas e balanço de riscos, e que a comunicação busca apenas traduzir esse diagnóstico.
Essa comparação evidencia o ponto incômodo para investidores:
– Não existe “garantia contratual” de trajetória de juros, nem nos EUA nem no Brasil.
– O uso excessivo de guidance pode gerar a falsa impressão de compromisso rígido, quando, na prática, as autoridades podem – e às vezes precisam – mudar de rota rapidamente.
Para quem acompanha política monetária, a leitura cuidadosa de atas, relatórios e projeções oficiais passa a ser mais relevante do que frases isoladas em entrevistas.
Tarifas EUA, Canadá e China ainda pressionam a inflação?
Desde 2018, os EUA adotaram tarifas adicionais, sobretudo contra a China, com base na Seção 301 do Trade Act de 1974, aplicando sobretaxas entre 7,5% e 25% sobre uma ampla gama de bens, em rodadas ocorridas principalmente em 2018 e 2019. No mesmo período, tarifas sobre aço e alumínio foram impostas sob a Seção 232, afetando parceiros como o Canadá.
O Canadá respondeu em 2018 com medidas de retaliação tarifária sobre produtos americanos, com alíquotas adicionais de até 25% em itens de aço, alumínio e bens de consumo, formalizadas por regulamentos do Department of Finance.
No setor de laticínios, o regime canadense de supply management combina cotas internas com tarifas muito elevadas acima de certas quantidades. Tabelas oficiais da Tarifa Aduaneira e dados consolidados na OMC mostram alíquotas superiores a 200% e, em alguns códigos, próximas ou acima de 300% para produtos lácteos importados fora de quota.
Relatórios do Congressional Budget Office (CBO) e da U.S. International Trade Commission (USITC) indicam que:
– As tarifas elevaram custos para importadores e consumidores nos EUA e geraram desvio de comércio.
– O efeito direto na inflação agregada foi considerado moderado, quando comparado a outros choques, especialmente o de energia.
– Os impactos foram concentrados em setores e regiões específicas, com redistribuição de renda ao longo da cadeia.
Ou seja, para o índice de preços como um todo, tarifas não foram o principal motor do surto inflacionário pós‑pandemia, mas, para determinados segmentos, o aperto foi relevante.
Choque de energia foi mais pesado que as tarifas?
Os dados do índice de preços ao consumidor (CPI) do Bureau of Labor Statistics (BLS) mostram que, entre 2021 e 2022, a inflação de energia – gasolina, eletricidade e outros componentes – avançou bem acima da inflação geral dos EUA, contribuindo de forma desproporcional para o pico de preços no período.
Essa evidência é compatível com a avaliação, feita por Fares, de que o choque de energia foi mais grave do que o efeito direto das tarifas sobre a inflação. A diferença é que, enquanto tarifas recaem sobre cestas específicas de bens, oscilações em energia se espalham por praticamente toda a economia.
O ponto incômodo para o consumidor é que:
– Tarifas e energia atuam em frentes distintas, mas ambas podem pressionar o custo de vida.
– Mesmo quando o impacto médio das tarifas parece “administrável” nas estatísticas, há grupos que sentem alta mais forte, seja em produtos importados, seja em cadeias dependentes de insumos tarifados.
Relatórios oficiais destacam esse efeito distributivo, ainda que não o traduzam em termos políticos como no debate público.
Quem perde e quem ganha com as guerras comerciais?
A análise dos órgãos oficiais tende a ser técnica, mas uma leitura integrada dos dados aponta alguns resultados claros:
1. EUA, China e Canadá usaram tarifas e retaliações como instrumentos de pressão em disputas sobre aço, alumínio e renegociação de acordos comerciais, como a transição do NAFTA para o USMCA/CUSMA.
2. O custo imediato recaiu sobre importadores, exportadores e consumidores expostos aos setores atingidos.
3. O impacto agregado na inflação foi limitado, mas, em diversas indústrias, margens de lucro, emprego e preços foram diretamente afetados.
Na entrevista, Fares enfatiza que, no fim, quem tende a “pagar a conta” de tarifas e guerras comerciais é a população, enquanto governos utilizam esses instrumentos como parte de jogos de força políticos e estratégicos.
Para o investidor e para o empresário, a consequência prática é clara:
– Monitorar apenas a inflação agregada não basta. É preciso entender quais setores estão expostos a tarifas, energia e mudanças regulatórias como a das stablecoins.
– Acompanhar, em fontes oficiais, o calendário do FOMC, relatórios de política monetária do Fed e do Banco Central do Brasil, além de atualizações em projetos como o Clarity for Payment Stablecoins Act, ajuda a antecipar mudanças estruturais de liquidez e custo de capital.
Assista ao vídeo abaixo:















