Presidente do Federal Reserve diz que inflação ainda está acima da meta de 2%, avalia mercado de trabalho como estável e defende menor uso de indicações antecipadas sobre juros
O presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, afirmou nesta sexta-feira (28), em Jackson Hole, que a inflação continua acima da meta de 2% e deve permanecer como foco central da política monetária dos Estados Unidos. Ao mesmo tempo, o dirigente evitou antecipar qual será a decisão do banco central na reunião de setembro.
No discurso oficial divulgado pelo Federal Reserve, Warsh avaliou que a economia americana se fortaleceu e que o mercado de trabalho permanece consistente com uma situação de pleno emprego. O quadro da inflação, porém, foi apresentado de forma mais cautelosa.
Ao estabelecer o critério que pretende utilizar para avaliar os preços, Warsh afirmou que o Fed precisa estar convencido de que a inflação subjacente caminha de maneira clara e suficientemente rápida em direção à meta. Caso contrário, disse, “temos trabalho a fazer”.
A fala ocorreu no simpósio anual de política econômica organizado pelo Federal Reserve Bank de Kansas City em Jackson Hole, no Wyoming. O encontro de 2026 acontece entre 27 e 29 de agosto e tem como tema as implicações da inovação financeira para pagamentos e política econômica.
O que Kevin Warsh disse sobre a inflação em Jackson Hole?
A mensagem mais direta do discurso foi sobre o compromisso do Fed com a estabilidade de preços.
Warsh afirmou que a meta de inflação de 2%, medida pelo índice de preços de despesas de consumo pessoal (PCE), continua sendo um objetivo firme do banco central. Também ressaltou que a inflação não necessariamente retorna à meta por conta própria e que cabe ao Federal Reserve garantir a estabilidade dos preços.
Os dados mais recentes ajudam a explicar a preocupação.
O PCE avançou 0,2% em julho ante junho e acumulou alta de 3,7% em 12 meses, segundo o Bureau of Economic Analysis (BEA). O núcleo do indicador, que exclui alimentos e energia, também subiu 0,2% no mês e registrou alta de 3,3% em 12 meses.
Warsh observou que diferentes medidas de inflação recuaram significativamente em relação aos picos registrados em 2022, mas avaliou que o avanço dos últimos dois anos em direção à meta foi modesto.
O presidente do Fed também destacou que as leituras mais recentes de PCE e CPI foram melhores do que o esperado, mas disse que esses números ainda não são suficientes para demonstrar uma melhora relevante da tendência subjacente da inflação.
Outro ponto citado foi a disseminação dos aumentos de preços. De acordo com os números apresentados por Warsh, 54% dos 199 componentes do PCE registraram alta superior a 3% nos últimos 12 meses. Nos seis meses mais recentes, a proporção ficou em 49%.
Warsh indicou o que o Fed fará com os juros em setembro?
Não.
Warsh encerrou sua apresentação deixando claro que o discurso não representava uma indicação antecipada da próxima decisão do Federal Reserve.
O dirigente afirmou estar comprometido “com uma disciplina, não com uma decisão”, evitando estabelecer previamente o caminho dos juros.
Atualmente, a taxa dos Fed Funds está no intervalo de 3,50% a 3,75% ao ano. Na reunião realizada em 28 e 29 de julho, o FOMC decidiu manter a taxa nesse patamar por nove votos a três. Beth Hammack, Neel Kashkari e Lorie Logan preferiram elevar os juros em 0,25 ponto percentual.
A próxima reunião do FOMC está marcada para 15 e 16 de setembro.
Portanto, o discurso de Kevin Warsh em Jackson Hole não antecipou corte, manutenção ou alta dos juros. A mensagem foi de que as próximas decisões dependerão da evolução dos dados e, sobretudo, da trajetória da inflação.
Como Warsh avalia a economia dos Estados Unidos?
Warsh afirmou que o desempenho geral da economia americana parece ter se fortalecido.
Entre os fatores citados estão o avanço dos investimentos empresariais, o crescimento do consumo e condições de crédito que, na avaliação do dirigente, não apontam para uma restrição ampla da atividade.
Segundo os dados apresentados no discurso, os investimentos em equipamentos e ativos intangíveis cresceram aproximadamente 9% em quatro trimestres, maior ritmo desde 2021. Warsh atribuiu mais da metade do crescimento dos investimentos neste ano à expansão relacionada à inteligência artificial.
O consumo real das famílias também avançou mais de 2% nos quatro trimestres anteriores, enquanto as compras finais privadas domésticas cresceram a um ritmo próximo de 3% ao longo de 2026, conforme os números destacados pelo presidente do Fed.
Warsh reconheceu dificuldades específicas em setores como habitação e agricultura, mas afirmou que teria dificuldade em caracterizar as condições financeiras gerais como restritivas.
O mercado de trabalho preocupa o Fed?
A avaliação apresentada por Warsh foi mais favorável para o emprego do que para a inflação.
A taxa de desemprego dos Estados Unidos ficou em 4,1% em julho, praticamente estável tanto na comparação mensal quanto anual, segundo o Bureau of Labor Statistics (BLS). O emprego não agrícola registrou redução de 23 mil postos no mês.
Warsh avaliou que o mercado de trabalho permanece estável e, nas condições atuais, consistente com o pleno emprego. Também observou que o crescimento limitado da oferta de trabalhadores tende a reduzir naturalmente o número de vagas necessárias a cada mês para manter o mercado equilibrado.
O contraste foi importante no discurso: enquanto o lado do emprego do mandato do Fed foi descrito de forma relativamente confortável, a inflação recebeu maior atenção.
Warsh afirmou explicitamente que o foco predominante do Federal Reserve, neste momento, deve estar nos preços.
O que Warsh quer mudar na comunicação do Federal Reserve?
Uma parte relevante do discurso foi dedicada ao forward guidance, expressão utilizada para definir as indicações dadas pelo banco central sobre possíveis decisões futuras de política monetária.
Warsh defendeu que esse instrumento tenha papel mais limitado em períodos normais.
Na avaliação do presidente do Fed, fornecer orientações excessivamente detalhadas sobre futuras decisões pode levar investidores, empresas e famílias a tratar expectativas como compromissos, além de reduzir a flexibilidade da autoridade monetária caso o cenário econômico mude.
Warsh também alertou para uma relação circular entre Fed e mercados: investidores tentam antecipar decisões do banco central a partir da comunicação da instituição, enquanto o próprio Fed utiliza preços de mercado para avaliar as condições financeiras.
Por isso, o dirigente defendeu que o banco central continue acompanhando informações como taxas dos Treasuries, dólar, disponibilidade de crédito, preços de commodities e desempenho dos diferentes segmentos do mercado, mas sem incentivar investidores a depender excessivamente das sinalizações da autoridade monetária.
Qual será o principal instrumento da política monetária?
Warsh também definiu os juros de curto prazo como principal instrumento para cumprir o mandato do Federal Reserve.
Políticas monetárias não convencionais podem ser utilizadas em crises, segundo o dirigente, mas deveriam ter aplicação limitada fora de situações extraordinárias.
A posição faz parte de um conjunto de princípios apresentados no discurso. Além da prioridade à estabilidade de preços e ao máximo emprego, Warsh defendeu decisões baseadas em tendências recentes dos dados, atenção às condições monetárias e uma comunicação mais contida do banco central.
O que Warsh disse sobre inteligência artificial?
A inteligência artificial ocupou uma parte importante da apresentação.
Warsh classificou a tecnologia como uma nova variável que pode afetar tanto a economia quanto a própria condução da política monetária. Entre as questões que o Federal Reserve acompanha estão os possíveis efeitos da IA sobre produtividade, emprego, investimento e capacidade de oferta da economia.
O presidente do Fed afirmou que o avanço da inteligência artificial ocorreu mais rapidamente do que muitos defensores da tecnologia previam alguns anos atrás e destacou o forte volume de capital destinado à infraestrutura ligada ao setor.
O Fed criou um grupo de trabalho dedicado a produtividade e empregos para aprofundar essas questões. Warsh, no entanto, ressaltou que as conclusões desse trabalho serão utilizadas em discussões futuras e não interferem nas decisões monetárias do momento atual.
O que fica do discurso de Warsh em Jackson Hole?
O discurso de Kevin Warsh em Jackson Hole deixou quatro pontos principais para a política monetária americana.
A inflação continua acima da meta e permanece como principal preocupação do Fed. O mercado de trabalho é considerado estável. Os juros de curto prazo continuam sendo o principal instrumento da autoridade monetária. E Warsh pretende reduzir a dependência de indicações antecipadas sobre decisões futuras.
Para setembro, porém, não houve promessa.
Com a taxa atualmente entre 3,50% e 3,75%, o FOMC ainda receberá novos indicadores antes da reunião dos dias 15 e 16. Entre eles estará o relatório de emprego de agosto, cuja divulgação pelo BLS está prevista para 4 de setembro.
O discurso desta sexta-feira, portanto, manteve aberta a decisão sobre os juros, mas estabeleceu uma prioridade clara: enquanto a inflação subjacente não mostrar convergência suficientemente consistente para 2%, o Fed continuará concentrado no controle dos preços.
















