Em uma conversa para o IMPACTO S.A., após ouvir André Farber, CEO da Riachuelo, e Graziella Di Battista, diretora de Pessoas e Sustentabilidade, sobre a fábrica, os projetos sociais e a relação do Grupo Guararapes com o Rio Grande do Norte, fiz a André uma pergunta direta: quanto da Riachuelo é vender roupa, quanto é gerar lucro e quanto é desenvolver o território onde a empresa está presente? A resposta veio sem hesitação: “Essas coisas não andam separadas.”
Talvez essa seja uma das melhores sínteses sobre o papel que uma empresa pode desempenhar na sociedade.
Não se trata de pedir ao setor privado que abandone sua natureza econômica. Uma empresa precisa vender, crescer, gerar valor e dar lucro. Sem resultado, não há continuidade, investimento ou emprego sustentável. Mas uma empresa também não existe fora de um território. Suas decisões sobre onde produzir, comprar, contratar e investir afetam diretamente a vida ao seu redor.
Manter uma indústria de grande porte no Brasil é uma decisão longe de ser trivial. O desafio não está apenas na complexidade do sistema tributário, mas também na elevada carga de impostos, nos juros e no crédito caro, nos custos de energia e logística, na insegurança regulatória e na concorrência internacional.
Em um momento no qual fábricas, lojas, concessionárias e operações de alimentação anunciam fechamentos, reduções ou reestruturações, essa pressão precisa ser reconhecida. Em 2025, 2.466 empresas entraram em recuperação judicial no Brasil, o maior número da série histórica da Serasa Experian. Desse total, 449 eram indústrias e 535 pertenciam ao comércio. No mesmo ano, empresários de 22 setores industriais encerraram o período sem confiança, segundo a CNI.
Os dados não permitem atribuir toda dificuldade empresarial à tributação, mas mostram a dureza do ambiente de negócios brasileiro.
É nesse contexto que a permanência da fábrica da Guararapes em Natal ganha ainda mais significado. Em 2025, a unidade produziu aproximadamente 37 milhões de peças e respondeu por cerca de 40% do vestuário vendido pela Riachuelo. São mais de cinco mil profissionais diretamente envolvidos na produção. A fábrica foi reposicionada como parte central da estratégia de eficiência, agilidade e recuperação de margens do grupo.
Essa permanência vem sendo sustentada por resultados concretos. Depois de encerrar 2025 com lucro líquido recorde de R$ 512 milhões, mais do que o dobro do registrado no ano anterior, a companhia alcançou R$ 168 milhões de lucro no segundo trimestre de 2026, crescimento de 36,2% em relação ao mesmo período de 2025 e o maior resultado de sua história para um segundo trimestre. No primeiro semestre, o lucro avançou 123,5%, chegando a R$ 173 milhões.
O desempenho também aparece diretamente no vestuário: as vendas em mesmas lojas cresceram pelo 12º trimestre consecutivo, a margem bruta avançou pelo 11º e a companhia registrou ganhos de participação de mercado pelo 13º trimestre seguido, com desempenho superior ao indicador de vestuário do IBGE. Em um setor pressionado, a Riachuelo não está apenas preservando sua operação industrial: está transformando eficiência, integração e permanência em competitividade e lucro.
Escolher permanecer, portanto, não significa aceitar prejuízo em nome de um propósito. Isso seria insustentável. Permanecer exige escala, produtividade, tecnologia, governança e disciplina financeira. A operação precisa ser competitiva para que a decisão de produzir no Brasil seja capaz de atravessar diferentes ciclos econômicos.
A história ajuda a explicar essa escolha.
A origem do Grupo Guararapes remonta a 1947, quando os irmãos Nevaldo e Newton Rocha abriram a loja de tecidos A Capital, em Natal. A fundação, portanto, pertence aos dois. A condução que marcou as décadas seguintes, porém, ficou especialmente associada a Nevaldo e ao legado que hoje prossegue com Flávio Rocha na presidência do conselho.
Nevaldo conheceu de perto um Rio Grande do Norte pobre, no qual muitas pessoas precisavam migrar não por desejo, mas pela falta de alternativas. Como ficou claro durante a entrevista, seu sonho era criar oportunidades para que essas pessoas também pudessem escolher permanecer.
Desenvolvimento territorial começa justamente aí: quando ficar deixa de significar falta de opção e passa a ser uma escolha possível.
Mas esse impacto não se resume à geração de empregos ou à circulação de dinheiro na economia local.
Criado em 2021, o Instituto Riachuelo informa já ter beneficiado diretamente mais de quatro mil pessoas em 46 municípios do Rio Grande do Norte, com mais de R$ 10 milhões investidos em projetos socioambientais, capacitação e desenvolvimento da cadeia da moda.
O trabalho com as bordadeiras do Seridó é um exemplo concreto. O Seridó é a região potiguar da qual fazem parte municípios como Timbaúba dos Batistas e Caicó. Entre os grupos apoiados estão a Casa das Bordadeiras, em Timbaúba, e a Casa do Artesão Seridó, em Caicó. Em parceria com organizações como o Sebrae-RN e a Rede Asta, as artesãs recebem capacitação para fortalecer sua autonomia, sua profissionalização e seu acesso ao mercado.
Esse saber ancestral ganhou projeção internacional em 2025. Um sobretudo criado por Airon Martin, diretor criativo da Misci, e bordado por Jailma Diniz, da Casa das Bordadeiras de Timbaúba, em parceria com o Instituto Riachuelo, foi usado por Camila Pitanga no Festival de Cannes.
Em outra frente, a colaboração com Helô Rocha levou o trabalho manual das bordadeiras para uma coleção nacional da Riachuelo. São iniciativas diferentes, mas conectadas pela mesma lógica: preservar uma tradição não apenas como memória, mas incorporá-la à cadeia produtiva, gerar renda e colocá-la em diálogo com a moda contemporânea.
A mesma integração aparece na agenda ambiental. Por meio do Agro-Sertão, o Instituto apoia o cultivo de algodão agroecológico no interior do Rio Grande do Norte e garante a compra integral do algodão em pluma produzido pelo programa. Desde 2021, mais de 247 agricultores foram beneficiados em 17 municípios. A matéria-prima sai do campo, chega à fábrica em forma de fio e depois às lojas como produto.
Não é apenas um projeto ambiental ou uma iniciativa social. É produção agrícola, recuperação do solo, adaptação climática, geração de renda, segurança de matéria-prima e desenvolvimento de produto dentro de uma mesma cadeia.
É isso que dá conteúdo ao posicionamento “Incrivelmente Brasil”: a construção de uma Riachuelo cada vez mais brasileira, conectada às suas raízes no Rio Grande do Norte e aos talentos, às matérias-primas e aos saberes do país.
Quando essa brasilidade entra no produto, na fábrica, nas parcerias e na estratégia, deixa de ser apenas comunicação. Torna-se diferenciação, inovação e valor econômico.
O setor privado não substitui o Estado. Políticas públicas, infraestrutura, educação e garantia de direitos continuam sendo responsabilidades fundamentais do poder público. Mas nenhuma empresa é neutra em relação ao lugar onde opera. Ela pode apenas extrair valor de um território ou construir uma cadeia na qual seu crescimento também amplie as possibilidades das pessoas que vivem nele.
Não há contradição entre lucro e transformação social. O lucro é o que permite à empresa continuar existindo, investir, inovar e assumir compromissos de longo prazo. E o impacto, quando incorporado ao negócio, fortalece a cadeia, cria vínculos, preserva conhecimentos e abre novos caminhos de crescimento.
Voltando à pergunta que deu início a este artigo, a resposta do CEO da Riachuelo, André Farber, amplia o seu alcance: quando o impacto está incorporado à estratégia, vender, gerar lucro e desenvolver o território deixam de ser agendas concorrentes e passam a sustentar umas às outras.
Uma empresa pode transformar profundamente o lugar onde escolhe permanecer. Não porque deixe de buscar resultados, mas porque entende que seus resultados também dependem da força da cadeia, das pessoas, dos conhecimentos e das oportunidades construídas ao seu redor.
No próximo domingo, às 19h, você poderá acompanhar essa conversa com André Farber e Graziella Di Battista no IMPACTO S.A. Um episódio sobre indústria, brasilidade, responsabilidade empresarial e o poder que um negócio bem estruturado tem de ampliar as possibilidades de todo um território.
Espero você.
*Coluna escrita por Daniela Kallas, advogada humanitária e empreendedora social, com mais de 20 anos de experiência em missões humanitárias e projetos de impacto social. É sócia investidora e co-CEO da VV Inteligência Humanitária, diretora de sustentabilidade da Câmara de Comércio dos Emirados Árabes Unidos e apresentadora do programa Impacto S.A., na BM&C News.
*As opiniões transmitidas pela colunista são de responsabilidade da autora e não refletem, necessariamente, a opinião da BM&C News.

















