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Marco Saravalle

Como os vieses comportamentais afetam as decisões financeiras — e por que os fundos de investimento podem funcionar como instrumentos de disciplina, diversificação e governança

Em mais de duas décadas acompanhando o mercado financeiro, atravessei ciclos de euforia, crises de crédito, choques políticos, mudanças abruptas na política monetária e transformações profundas na indústria de investimentos. Ao longo desse período, uma conclusão se repetiu com desconfortável frequência: os maiores erros de uma carteira raramente decorrem apenas da falta de informação. Em muitos casos, eles nascem da forma como o investidor interpreta a informação e reage a ela.

O mercado pode ser instável, mas o comportamento humano é surpreendentemente previsível.

Investidores sofisticados, empresários bem-sucedidos e profissionais altamente qualificados não estão imunes a decisões emocionais. Pelo contrário: conhecimento, experiência profissional e confiança acumulada podem, em determinadas circunstâncias, ampliar a convicção em análises equivocadas. A inteligência ajuda a construir teses; também pode ajudar a racionalizar erros.

É nesse ponto que as finanças comportamentais deixam de ser um tema acadêmico periférico e passam a ocupar o centro da construção de portfólios. Investir bem não depende somente de escolher ativos. Depende de criar um processo capaz de sobreviver à volatilidade, às narrativas dominantes e, sobretudo, aos impulsos do próprio investidor.

Um dos vieses mais recorrentes é o excesso de confiança. Depois de uma sequência de acertos, o investidor tende a atribuir o resultado à própria habilidade e a subestimar a influência do ciclo econômico, da liquidez ou simplesmente do acaso. Essa percepção frequentemente resulta em aumento do número de operações, concentração excessiva e redução das margens de segurança.

A literatura empírica é consistente ao relacionar negociação excessiva e pior desempenho líquido. O problema não se resume aos custos de transação. Quanto mais o investidor opera, maior é a probabilidade de substituir uma tese de longo prazo por respostas a ruídos de curto prazo.

No Brasil, esse comportamento costuma aparecer com força em ciclos temáticos: small caps, commodities, ações de crescimento, fundos imobiliários, crédito privado ou ativos digitais. O investidor acerta o tema inicial, amplia a exposição justamente após a valorização e passa a confundir familiaridade com controle de risco.

Um fundo bem gerido pode introduzir uma separação saudável entre o patrimônio e a decisão impulsiva. O gestor profissional trabalha com mandato, limites de exposição, métricas de risco, comitês e prestação de contas. Isso não elimina erros — nenhum gestor possui essa capacidade —, mas reduz a dependência de decisões improvisadas.

As perdas exercem um impacto psicológico desproporcional em relação aos ganhos equivalentes. Na prática, isso ajuda a explicar por que tantos investidores vendem ativos vencedores cedo demais para “garantir o lucro” e mantêm posições perdedoras por tempo excessivo, esperando voltar ao preço de entrada. É o chamado efeito disposição.

O preço de compra, entretanto, não altera o valor econômico de uma empresa. Ele é relevante para a contabilidade e para a experiência emocional do investidor, mas não deveria comandar a decisão. A pergunta correta não é “quanto eu perdi desde que comprei?”, e sim: “considerando preço, fundamentos, riscos e custo de oportunidade, este ativo ainda merece espaço na carteira?”.

Em uma estrutura profissional, a posição tende a ser reavaliada com base na tese, não no desconforto de reconhecer um prejuízo. Fundos contam, em diferentes graus, com acompanhamento sistemático, modelos de avaliação, discussão colegiada e regras de redução ou encerramento de exposição. Esse processo cria condições para separar perda temporária de deterioração estrutural — distinção que, em momentos de estresse, é muito difícil para quem está emocionalmente ligado à posição.

Depois de formar uma convicção, o investidor tende a buscar informações que a confirmem e a desqualificar evidências contrárias. Relatórios otimistas ganham importância; alertas passam a ser interpretados como exagero. Nas redes sociais, algoritmos e comunidades de investidores podem intensificar esse fenômeno ao criar ambientes nos quais as mesmas opiniões circulam continuamente.

No trabalho de análise, uma boa tese não é aquela que acumula argumentos favoráveis, mas aquela que resiste a perguntas hostis. O analista precisa saber quais fatos invalidariam sua conclusão, quais variáveis ainda não estão refletidas no preço e em que circunstâncias a relação risco-retorno deixaria de ser atrativa.

Gestoras com cultura robusta institucionalizam o contraditório. Reuniões de risco, analistas com visões independentes, limites de concentração e revisão periódica das premissas são mecanismos importantes. O valor de um fundo, portanto, não está apenas no acesso a um profissional que escolhe ativos, mas na existência de uma arquitetura decisória mais difícil de reproduzir individualmente.

*Coluna escrita por Marco Saravalle, mestre em Economia e Finanças pela FGV/EESP, CIO da MSX e diretor de Investimentos da Krivo Capital. Sócio e estrategista-chefe da MSX Invest, é analista certificado CNPI, empreendedor, comentarista, educador e palestrante, com mais de 25 anos de experiência no mercado financeiro e passagens por algumas das maiores instituições financeiras do país.

*As opiniões transmitidas pelo colunista são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da BM&C News.

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Foto: Canva Pro