A eleição presidencial de 2026 começa a adquirir aquela aparência conhecida de grande decisão histórica. Todos apresentarão programas econômicos, sociais e estratégicos. Haverá promessas, slogans, marqueteiros, jingles e provavelmente algum novo nome para o velho PAC.
O problema é que nenhum deles parece disposto a mudar o jogo. Discutem quem dirigirá o automóvel, mas ninguém propõe trocar o motor. E o motor brasileiro, convenhamos, funciona com tecnologia política dos anos 1980, combustível tributário caríssimo e um manual de instruções redigido por 30 mil burocratas.
O Brasil cresceu 2,3% em 2025, resultado tratado quase como demonstração de vitalidade. Para 2026, a OCDE projeta apenas 1,6%. É a nossa especialidade: comemorar dois anos razoáveis e passar os dez seguintes explicando por que o voo ainda não decolou. Enquanto isso, a taxa de investimento caiu para 16,5% do PIB no primeiro trimestre deste ano. Países que realmente transformaram sua estrutura econômica investiram durante décadas mais de 25%. Nós queremos produzir um milagre econômico investindo como quem reforma a cozinha.
O Estado brasileiro arrecada mais de 32% do PIB em impostos, gasta o equivalente a quase 46% e, ainda assim, consegue oferecer serviços públicos que obrigam o cidadão a pagar novamente por saúde, educação, segurança e transporte. É um modelo admirável de eficiência reversa: cobra como país desenvolvido, entrega como emergente e se financia como se amanhã fosse problema de outro governo.
O próximo presidente verdadeiramente transformador deveria começar onde todos evitam: pelo próprio Estado.
Isso exigiria uma reforma administrativa real, válida também para os andares superiores do funcionalismo, eliminando progressões automáticas, privilégios, carreiras redundantes e remunerações incompatíveis com a realidade nacional. Exigiria ainda uma revisão completa dos incentivos fiscais e subsídios, que chegaram a representar cerca de 6,9% do PIB em 2024. Benefício sem prazo, meta e avaliação não é política pública. É mesada corporativa.
Seria necessário implantar um orçamento de base zero: em vez de presumir que toda despesa pública merece existir eternamente, cada programa teria de provar, periodicamente, sua utilidade. No Brasil, ministérios são criados em uma tarde, mas extinguir uma repartição desnecessária exige praticamente uma missão da ONU.
A ruptura também deveria alcançar o sistema tributário. A reforma do consumo é importante, mas insuficiente. O país precisa reduzir impostos sobre investimento, produção e emprego; simplificar radicalmente as obrigações acessórias; tributar melhor a renda sem transformar empresários e profissionais produtivos em suspeitos permanentes. Segurança jurídica não pode ser uma concessão temporária do governo. Precisa ser infraestrutura nacional.
Também precisamos abandonar a ideia conveniente de que o empresário é o vilão da história. Não é o Estado que cria riqueza, empregos e oportunidades em escala: são as empresas, os investidores e os empreendedores que arriscam capital, organizam recursos e transformam ideias em produção. Ao Estado cabe incentivar esse movimento, oferecer infraestrutura, crédito competitivo, educação, segurança jurídica e regras estáveis — não tratar quem produz como culpado até prova em contrário. Sem empresas fortes não há emprego sustentável, mobilidade social nem recursos para financiar políticas públicas. Pode haver distribuição por algum tempo, mas não haverá riqueza nova para distribuir.
Na educação, seria preciso abandonar a confortável obsessão com matrículas e medir aprendizado. Apenas 27% dos estudantes brasileiros alcançaram no PISA 2022 o nível mínimo de proficiência em matemática, diante de uma média de 69% na OCDE. Nenhuma nação entra na economia da inteligência artificial quando três de cada quatro adolescentes mal conseguem interpretar um problema matemático simples. O Brasil deveria estabelecer metas nacionais de alfabetização, matemática e ensino técnico, com avaliação independente, remuneração por desempenho institucional e intervenção imediata nas redes que fracassarem.
Finalmente, o país precisaria de um choque de abertura econômica, infraestrutura e produtividade: integração comercial, concessões, privatizações, licenciamento ambiental com prazo definido, digitalização integral do Estado e liberdade para empreender. Não se trata de copiar Milei nem de importar sua motosserra com manual argentino. O Brasil não precisa destruir o Estado, mas fazê-lo parar de destruir energia produtiva.
A verdadeira divisão eleitoral não deveria ser entre esquerda e direita, progressistas e conservadores. Deveria ser entre continuidade e transformação. O Brasil já possui território, população, energia, alimentos, água, minerais, tecnologia e empresários. Não lhe faltam recursos. Faltam coragem política e um projeto capaz de libertá-los. Os candidatos de 2026 prometem administrar o Brasil que existe. O país precisa de alguém disposto a construir o Brasil que ainda não deixaram existir.
*Coluna escrita por Fabio Ongaro, economista, empresário italiano no Brasil e CEO da Energy Group
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