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ECONOMIA

Braskem dava sinais de crise em 2023: por que a reestruturação só veio três anos depois?

O pedido de recuperação extrajudicial apresentado pela Braskem em agosto de 2026 é recente. Os sinais de deterioração financeira da companhia, não.

Em pouco mais de quatro anos, a petroquímica saiu de uma alavancagem inferior a uma vez para indicadores de dois dígitos, contratou assessores para revisar sua estrutura de capital, utilizou integralmente uma linha de crédito de US$ 1 bilhão, enfrentou inadimplência na subsidiária mexicana e sofreu uma sequência de rebaixamentos de rating.

A cronologia mostra que a crise não surgiu de um único evento.

Como a alavancagem da Braskem mudou

PeríodoAlavancagem
Dezembro de 20210,94x
Dezembro de 20222,42x
Setembro de 202312,21x
Dezembro de 20238,12x
Dezembro de 20247,42x
Dezembro de 202514,74x
Março de 202618,18x
Junho de 20266,74x

A comparação revela também uma particularidade importante.

A queda de 18,18 vezes em março para 6,74 vezes em junho de 2026 não veio de uma redução expressiva da dívida. A dívida líquida ajustada aumentou de US$ 9,18 bilhões para US$ 9,43 bilhões. O que derrubou a relação dívida/Ebitda foi principalmente a forte melhora do resultado operacional no segundo trimestre.

Ou seja: o indicador melhorou, mas o estoque de dívida continuou elevado.

2021: Braskem chegava à menor alavancagem

O ponto de partida é muito diferente do cenário atual.

No fechamento de 2021, a Braskem registrou alavancagem corporativa de 0,94 vez e forte geração de caixa. A companhia também recuperou o grau de investimento naquele ciclo.

O ambiente favorável, porém, começou a mudar.

2022 e 2023: ciclo petroquímico vira

Em 2022, a empresa já relatava efeitos do ciclo de baixa da indústria petroquímica, com compressão dos spreads internacionais diante da dinâmica de oferta e demanda global.

Em setembro de 2023, a relação entre dívida líquida ajustada e Ebitda recorrente chegou a 12,21 vezes.

A própria Braskem descrevia naquele momento um cenário de menor crescimento da demanda global, juros elevados, inflação e desaceleração industrial em mercados relevantes, além da entrada de nova capacidade de produção de resinas nos Estados Unidos e na China.

No fim do ano, a alavancagem recuou para 8,12 vezes, ainda muito acima das 2,42 vezes registradas em dezembro de 2022.

A recuperação esperada do setor demorou mais do que inicialmente projetado.

2024 e 2025: dívida continua pressionando

A Braskem terminou 2024 com alavancagem de 7,42 vezes.

Em 2025, o cenário voltou a se deteriorar com força. A geração operacional foi pressionada pelo prolongamento do ciclo negativo da indústria, pelo consumo de capital de giro e por outras necessidades de caixa.

Em setembro daquele ano ocorreu um marco: a Braskem contratou Lazard, Cleary Gottlieb Steen & Hamilton e E. Munhoz Advogados para avaliar alternativas econômicas e financeiras para sua estrutura de capital.

A contratação de assessores não representa, isoladamente, insolvência. Mas sinalizava que a estrutura financeira havia entrado formalmente no centro da agenda da administração.

Outubro de 2025: Braskem saca US$ 1 bilhão

No mês seguinte, a companhia utilizou integralmente sua linha de crédito stand-by de US$ 1 bilhão.

Com o saque e o caixa disponível em setembro, a posição de liquidez chegou a aproximadamente US$ 2,3 bilhões. A empresa classificou a medida como parte de uma gestão conservadora de caixa diante do cenário setorial.

No fim de 2025, o caixa era de US$ 2,1 bilhões e a dívida líquida ajustada, sem considerar Braskem Idesa, atingia US$ 7,5 bilhões. A alavancagem encerrou o ano em 14,74 vezes.

E o investimento de R$ 4,2 bilhões no Rio?

É nesse período que surge uma decisão que merece atenção na cronologia.

Em 24 de outubro de 2025, o Conselho de Administração aprovou o investimento no projeto Transforma Rio, destinado à ampliação da capacidade da central petroquímica de Duque de Caxias.

O investimento foi estimado em aproximadamente R$ 4,2 bilhões, podendo variar até 30% em razão do estágio de maturidade do projeto.

O dado exige contexto.

A maior parte dos desembolsos não estava prevista imediatamente. A companhia estimava cerca de 80% dos recursos a partir de 2027 e condicionava a implementação à obtenção de financiamento adicional, além dos incentivos já aprovados no REIQ Investimentos.

Ainda assim, a aprovação ocorreu poucas semanas depois da contratação dos assessores para revisar a estrutura de capital e no mesmo mês em que a Braskem sacou US$ 1 bilhão da linha stand-by.

Isso torna relevante entender quais cenários de liquidez e testes de estresse foram submetidos ao Conselho de Administração quando o investimento foi aprovado.

Novembro de 2025: Braskem Idesa deixa de pagar juros

Outro sinal veio do México.

Em 18 de novembro, a Braskem Idesa deixou de realizar o pagamento programado de juros sobre bonds com vencimento em 2029. A inadimplência abriu a possibilidade contratual de aceleração da dívida pelos credores, dependendo dos quóruns previstos.

Em fevereiro de 2026, a subsidiária também deixou de pagar juros relacionados às notas com vencimento em 2032.

A situação do México tornou-se outro vetor de pressão sobre a estrutura financeira do grupo.

Em agosto de 2026, a Braskem Idesa entrou com pedido de Chapter 11 nos Estados Unidos dentro de um acordo de reestruturação que prevê redução de seu endividamento e aporte de US$ 476 milhões pela Braskem para preservar o controle majoritário da subsidiária.

Março de 2026: alavancagem chega a 18,18 vezes

No primeiro trimestre de 2026, a alavancagem corporativa atingiu 18,18 vezes.

O segundo trimestre trouxe uma melhora operacional fora da curva recente. O Ebitda recorrente alcançou US$ 1,043 bilhão, impulsionado principalmente pela alta pontual dos spreads internacionais durante o conflito no Oriente Médio.

Com isso, a alavancagem caiu para 6,74 vezes.

Mas a própria dinâmica mostra por que o problema não poderia ser avaliado apenas por esse indicador: a dívida líquida ajustada continuou aumentando.

Junho de 2026: proteção contra os credores

Em junho, a Braskem e determinadas subsidiárias recorreram à Justiça para obter tutela cautelar no contexto das negociações com seus credores financeiros.

A 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo suspendeu por 60 dias determinadas execuções e constrições de credores convidados para o processo de mediação.

A proteção funcionou como uma ponte para a negociação de uma solução mais ampla.

Agosto de 2026: recuperação extrajudicial

Em 24 de agosto, a Braskem apresentou o pedido de recuperação extrajudicial.

A companhia colocou aproximadamente US$ 10,9 bilhões em obrigações financeiras dentro da reestruturação e iniciou o processo com apoio equivalente a 39,6% dos créditos abrangidos.

A empresa terá 90 dias para ampliar a adesão dos credores.

A recuperação, portanto, é o capítulo mais recente da crise.

A cronologia mostra que a discussão sobre a saúde financeira da Braskem já havia mudado de patamar muito antes do pedido judicial.

A questão que permanece é em qual momento a deterioração deixou de ser tratada como efeito temporário do ciclo petroquímico e passou a exigir uma reestruturação estrutural da dívida.

Essa resposta depende não apenas dos balanços, mas das decisões tomadas pela administração e pelo Conselho de Administração ao longo desses três anos.

BRASKEM
Foto: Reprodução