Pular para o conteúdo
Mercados
IBOV 186.503 +0.54% USD/BRL R$ 5,15 +0.08% EUR/BRL R$ 5,94 -0.03% BTC/BRL R$ 392.009 -2.63% PETR4 R$ 50,43 +3.09% VALE3 R$ 74,60 -1.17% WEGE3 R$ 50,88 +0.28% ITUB4 R$ 42,67 +0.76% BBDC4 R$ 18,20 -0.71% BBAS3 R$ 22,04 -0.36% BPAC11 R$ 60,20 -0.46% ABEV3 R$ 15,73 -0.88% CYRE3 R$ 25,90 +2.25%
EMPRESAS E NEGÓCIOS

Petrobras poderia ter evitado a crise da Braskem? Estatal tinha quatro cadeiras no conselho

A Petrobras não assumiu participação relevante na Braskem depois que a crise financeira já estava instalada. Durante os anos em que a alavancagem da petroquímica aumentou, a estatal já era uma das principais acionistas da companhia e participava formalmente de sua governança.

Pelo acordo de acionistas que vigorava entre Petrobras e Novonor, a antiga controladora tinha direito a indicar seis integrantes do Conselho de Administração da Braskem, enquanto a Petrobras podia indicar quatro membros e seus respectivos suplentes enquanto mantivesse ao menos 30% do capital votante. A estatal também tinha o direito de indicar o vice-presidente do conselho.

Isso não significa que a Petrobras tenha provocado a crise da Braskem nem que responda automaticamente pelas decisões tomadas pela administração da petroquímica. Mas coloca uma questão de governança no centro da atual reestruturação: o que os representantes indicados pela Petrobras sabiam sobre a deterioração financeira da Braskem e quais medidas defenderam enquanto a dívida e a alavancagem cresciam?

Qual era o poder da Petrobras dentro da Braskem?

Até a mudança do controle em 2026, a estrutura da Braskem concentrava a maior parte das ações com direito a voto nas mãos de Novonor e Petrobras.

A Petrobras detém 36,15% do capital total da Braskem e 47,03% do capital votante. Antes da entrada do Shine I, a Novonor possuía 50,1% das ações com direito a voto e tinha maioria no Conselho de Administração.

O acordo de acionistas estabelecia a seguinte divisão no conselho:

AcionistaIndicações previstas
Novonor6 conselheiros
Petrobras4 conselheiros
Vice-presidente do CAIndicação ligada à Petrobras

A Novonor mantinha a primazia do controle, inclusive com o direito de indicar o presidente do Conselho de Administração. Ainda assim, documentos societários da Braskem mostram que várias decisões submetidas aos acionistas ou ao conselho exigiam consenso entre Novonor e Petrobras, com exceções previstas no próprio acordo.

Portanto, a Petrobras não era uma acionista sem participação na governança.

Enquanto isso, a alavancagem disparava

A trajetória financeira da Braskem mudou rapidamente depois do pico favorável do ciclo petroquímico.

No fim de 2021, a companhia tinha alavancagem corporativa de 0,94 vez. Em setembro de 2023, o indicador chegou a 12,21 vezes. No encerramento daquele ano, havia recuado para 8,12 vezes.

A deterioração voltou a ganhar força posteriormente.

No fim de 2025, a Braskem reportou alavancagem de 14,74 vezes, com dívida líquida ajustada de US$ 7,5 bilhões. Em março de 2026, o indicador chegou a 18,18 vezes.

A escalada ocorreu em um período marcado pelo prolongado ciclo de baixa da indústria petroquímica, redução de spreads, consumo de caixa, gastos relacionados a Alagoas e dificuldades na subsidiária mexicana Braskem Idesa.

Quando a crise entrou formalmente na agenda financeira?

Em setembro de 2025, a própria Braskem contratou assessores financeiros e jurídicos para avaliar alternativas destinadas a reorganizar sua estrutura de capital.

No mês seguinte, a empresa sacou integralmente uma linha de crédito stand-by de US$ 1 bilhão, medida que afirmou estar alinhada à gestão conservadora de caixa.

Em novembro, a Braskem Idesa deixou de pagar juros previstos para bonds com vencimento em 2029.

Os ratings também passaram por sucessivos cortes. Atualmente, a página de Relações com Investidores da Braskem registra rating D pela S&P e RD pela Fitch, classificações associadas a default e restricted default.

A sequência amplia a relevância das decisões tomadas pelos órgãos de governança naquele período.

O que os conselheiros indicados pela Petrobras fizeram?

A participação da Petrobras no Conselho de Administração coloca a atuação de seus representantes no centro da análise sobre a deterioração financeira da Braskem. A estatal tinha acesso às discussões estratégicas da companhia justamente no período em que a alavancagem aumentava e os riscos financeiros ganhavam peso.

O ponto, portanto, não é atribuir à Petrobras responsabilidade direta pela crise, mas entender como seus representantes atuaram diante dos sinais que se acumulavam. Atas, votos e manifestações do conselho podem revelar quando a situação de liquidez passou a preocupar a administração, quais alternativas foram discutidas e se houve divergências sobre decisões relevantes.

Entre os pontos que precisam ser esclarecidos estão os alertas apresentados sobre o aumento da dívida, os riscos associados à Braskem Idesa e aos desembolsos relacionados a Alagoas, além das premissas utilizadas para aprovar novos investimentos em um momento de maior pressão sobre o caixa.

Também é necessário saber se conselheiros indicados pela Petrobras questionaram essas decisões, apresentaram alternativas ou registraram votos contrários.

A existência de representantes da estatal no conselho não significa que a Petrobras pudesse, sozinha, impedir a deterioração da companhia. Mas mostra que ela acompanhou a crise a partir de dentro da estrutura de governança e torna relevante esclarecer qual foi sua atuação enquanto os indicadores financeiros pioravam.

Petrobras e Braskem agora dividem o controle

A estrutura mudou em 2026. Com a transferência da participação da Novonor ao Shine I, Petrobras e o fundo assinaram um novo acordo que estabeleceu controle compartilhado da Braskem.

O acordo passou a vigorar em 3 de junho e prevê representação igualitária entre as partes no Conselho de Administração e necessidade de consenso nas principais deliberações. A Petrobras manteve seus 36,15% do capital total e 47,03% das ações com direito a voto.

A atual presidente do Conselho de Administração da Braskem é Magda Chambriard, presidente da Petrobras e indicada pela estatal. O vice-presidente, Hélio Baptista Novaes, foi indicado pelo Shine I e é sócio do grupo IG4.

A própria Braskem descreveu a nova fase como uma combinação da experiência da IG4 em reestruturações com uma participação mais ativa da Petrobras.

Recuperação coloca a Petrobras diante de uma nova decisão

Em 24 de agosto, a Braskem apresentou pedido de recuperação extrajudicial para reorganizar aproximadamente US$ 10,9 bilhões em obrigações financeiras.

O plano foi protocolado com adesão inicial equivalente a 39,6% dos créditos abrangidos. A companhia terá 90 dias para buscar o apoio necessário para avançar com a homologação.

A proposta admite, entre outras possibilidades, capitalização de parte da dívida e eventual suporte de liquidez dos principais acionistas, caso seja necessário.

Isso muda a pergunta dirigida à Petrobras.

A discussão deixa de ser apenas sobre o que aconteceu durante a deterioração financeira da Braskem e passa a incluir quanto a estatal está disposta a comprometer daqui para frente.

A Petrobras é uma sociedade de economia mista controlada pela União. Portanto, qualquer decisão de ampliar sua exposição econômica à Braskem terá repercussão não apenas empresarial, mas também sobre a alocação de capital de uma companhia controlada pelo governo federal.

O ponto central não é afirmar que a Petrobras construiu a crise.

É reconhecer que ela estava dentro da governança enquanto a crise se desenvolvia e que agora participa diretamente das decisões que definirão quem assumirá o custo da reestruturação.

Petrobras e Braskem (2)
Foto: Montagem BM&C