Transformar problemas cotidianos em modelos capazes de ganhar escala foi o eixo da conversa do Leaders Connection, apresentado por Isaelson Oliveira, durante a ABF Expo 2026. Os convidados Raphael Quadros, um dos fundadores da New Shoes, e Rafael Soares, CEO das franquias Santa Carga e Vinho 24 Horas, discutiram como tecnologia, padronização, conveniência e relacionamento com franqueados estão sendo utilizados no desenvolvimento de franquias de autoatendimento e de serviços especializados.
Apesar de atuarem em segmentos diferentes, os empreendedores partiram de uma lógica semelhante: identificar uma necessidade recorrente do consumidor e criar processos que permitam reproduzir a solução em diferentes mercados. A conversa abordou desde limpeza e restauração de tênis até carregadores de celular e adegas autônomas em condomínios.
Franquias de autoatendimento começam por uma dor real
Quadros afirmou que a New Shoes nasceu da percepção de que consumidores querem conservar seus calçados, mas não necessariamente desejam realizar a limpeza em casa. A empresa estruturou a operação a partir de serviços de limpeza, restauração, pintura, impermeabilização e outros tratamentos específicos.
“Todo mundo gosta de andar com tênis limpo, mas ninguém gosta de lavar tênis”, afirmou Quadros.
Segundo ele, a combinação entre uma rotina mais corrida, espaços residenciais menores e o aumento do valor de determinados calçados ajudou a criar demanda por um serviço especializado.
A empresa, fundada em 2023, chegou a 50 unidades, segundo atualização feita pelo próprio executivo durante o programa. Quadros afirmou ainda que as primeiras duas operações em Santiago, no Chile, seriam inauguradas na semana seguinte à gravação e que a expansão internacional estava entre as prioridades da rede.
A experiência anterior dos sócios no franchising também foi incorporada ao modelo. Quadros contou que atua há cerca de 15 anos no setor e também fundou a Doutor Sofá, rede dedicada à limpeza de estofados.
Tecnologia permite controlar operação em escala
A tecnologia aparece como elemento central na padronização da New Shoes. Cada calçado recebido pelas unidades passa a ser identificado por uma etiqueta com QR Code, permitindo acompanhar diferentes fases do serviço.
O cliente recebe um link para consultar o andamento do processo, enquanto funcionários e franqueadora conseguem visualizar os serviços contratados, etapas de execução e possíveis atrasos.
A empresa também utiliza registros fotográficos para acompanhar a qualidade das operações das unidades. Segundo Quadros, esse sistema permite que a franqueadora avalie diferentes tipos de serviços realizados por cada franqueado.
“A tecnologia, ela é o DNA do negócio”, afirmou Quadros.
O executivo também destacou o desenvolvimento de produtos químicos, processos e equipamentos próprios. Entre os exemplos citados está uma máquina voltada à remoção do amarelamento de determinadas partes dos tênis por meio da combinação de produto específico e exposição à luz UV.
Santa Carga transformou carregamento de celular em mídia
No caso de Rafael Soares, a origem da Santa Carga também foi associada a uma situação cotidiana. Ele contou que administrava um bar quando um celular deixado para carregar foi danificado após um acidente dentro do estabelecimento.
A partir do episódio, Soares desenvolveu uma estrutura para que clientes carregassem os aparelhos sem precisar entregá-los a funcionários. O equipamento passou posteriormente a incorporar publicidade em tela.
O modelo evoluiu para uma rede de totens de carregamento gratuitos para o usuário final, enquanto a receita é gerada pela comercialização de espaços publicitários.
Segundo Soares, o negócio funciona como uma operação de retail media, na qual franqueados instalam equipamentos em locais como academias e comercializam anúncios para empresas da região.
Durante a entrevista, o empresário afirmou que a rede possui mais de 800 franqueados e citou aproximadamente 1.300 unidades. O número, contudo, aparece de formas diferentes ao longo da transcrição e precisa ser confirmado antes da publicação.
Adegas autônomas levam autoatendimento aos condomínios
A experiência com a Santa Carga também serviu de base para a criação da Vinho 24 Horas. Soares explicou que a ideia surgiu depois de uma situação em que faltou vinho durante um encontro entre amigos.
Observando o crescimento dos mercados autônomos em condomínios, o empreendedor decidiu aplicar o conceito ao segmento de vinhos. O modelo utiliza adegas automatizadas instaladas principalmente em condomínios e mercados autônomos.
Para realizar a compra, o consumidor passa por verificações de idade. Segundo Soares, o sistema utiliza CPF para consultar informações e câmeras como segunda camada de controle.
A operação também começou a testar inteligência artificial para auxiliar consumidores na escolha dos produtos. Soares relatou um experimento no qual uma assistente de voz sugeria vinhos com base no prato que seria consumido.
O teste também mostrou os limites da automação. Em determinado momento, o sistema indicou ao consumidor o preço de um produto disponível em outra plataforma de comércio eletrônico, levando a empresa a rever os limites da ferramenta.
“Você dá limite para ela”, disse Soares ao explicar a necessidade de controlar as respostas produzidas pelo sistema.
Inteligência artificial entra na gestão das franquias
A discussão sobre inteligência artificial avançou para a gestão das empresas. Soares afirmou que mantém uma equipe dedicada a estudar aplicações da tecnologia e recomendou que empresas identifiquem funcionários com maior afinidade com essas ferramentas para mapear processos passíveis de automação.
Ao mesmo tempo, defendeu que a tecnologia não deve substituir competências centrais dos gestores.
“Cuidado para você não perder o nosso core. Cuidado para você não delegar aquilo que você é bom”, afirmou.
Isaelson Oliveira também relatou experiências de sua própria operação com funcionários criando ferramentas para automatizar atividades repetitivas e acompanhar indicadores de desempenho.
A discussão apontou para uma aplicação da inteligência artificial menos concentrada em substituir pessoas e mais voltada à redução de tarefas operacionais e ao aumento da produtividade.
Crescimento depende do suporte ao franqueado
Além da tecnologia, Quadros e Soares destacaram a relação entre franqueador e franqueado como fator necessário para manter uma rede em expansão.
Quadros afirmou que a maior parte da estrutura da New Shoes está concentrada em implantação, suporte, marketing e gestão, enquanto uma parcela menor da equipe atua diretamente na expansão comercial.
Segundo ele, mais da metade dos franqueados da rede já possui uma segunda unidade ou está em processo de abertura de outra operação.
Soares definiu a franquia como uma “empresa de educação”, na qual a função da franqueadora é formar novos empreendedores para reproduzir um modelo já estruturado.
No caso da Vinho 24 Horas, o empresário afirmou que uma das estratégias para acelerar a presença em condomínios tem sido estabelecer parcerias com mercados autônomos já instalados nesses locais, em vez de negociar exclusivamente com síndicos.
Consumo consciente entra no modelo da New Shoes
A conservação de calçados também foi apresentada como parte da estratégia da New Shoes. Quadros afirmou que a companhia desenvolveu uma ferramenta chamada carbonômetro, destinada a mostrar ao cliente os impactos associados à ampliação da vida útil dos produtos.
Segundo números apresentados pelo executivo no programa, a fabricação de um par de tênis gera 14 kg de carbono e a manutenção adequada poderia ampliar sua vida útil em pelo menos 30%. Os dados foram apresentados pelo entrevistado, mas a origem dos estudos não foi identificada durante a conversa.
Para a empresa, o objetivo é associar o serviço de limpeza e restauração à redução do descarte de produtos que ainda poderiam continuar em uso.
Escala exige padronização e controle
Ao final do programa, os participantes convergiram na avaliação de que expansão isoladamente não é suficiente para sustentar uma rede de franquias. Processos, acompanhamento dos franqueados, controle operacional e experiência do consumidor foram apresentados como elementos necessários para manter a recorrência.
Nos modelos discutidos, tecnologia e automação funcionam como ferramentas para transformar operações inicialmente locais em negócios capazes de ser replicados em diferentes regiões.
A estratégia das franquias de autoatendimento apresentada no programa passa, portanto, pela combinação entre uma necessidade clara do consumidor, processos reproduzíveis e estruturas tecnológicas que permitam ao franqueador acompanhar a operação mesmo com o aumento da quantidade de unidades.
















