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BM&C STRIKE

Brasil pode se tornar hub global de data centers com avanço da IA, diz Eduardo Carvalho

O Brasil reúne condições para assumir uma posição global na infraestrutura necessária à expansão da inteligência artificial, mas precisa acelerar decisões regulatórias, investimentos e processos de licenciamento para aproveitar a atual corrida tecnológica. A avaliação foi feita por Eduardo Carvalho, presidente da Equinix para a América Latina, durante o BM&C Strike, da BM&C News, apresentado por Paula Moraes com participação de Aluizio Falcão Filho. Segundo o executivo, a expansão da IA está aumentando a demanda por data centers no Brasil e colocando energia, conectividade e infraestrutura digital no centro das decisões de investimento.

Carvalho afirmou que a oportunidade brasileira ultrapassa a disputa regional. Para ele, disponibilidade de energia, dimensão do mercado, conectividade e recursos naturais podem posicionar o país como destino de parte da infraestrutura que hoje enfrenta limitações em outros mercados.

“Nós temos energia limpa, nós temos energia abundante”, afirmou Carvalho.

O executivo citou dificuldades recentes na entrega de energia para data centers em regiões dos Estados Unidos, como Ashburn, na Virgínia, e Dallas, como exemplo de como a demanda por capacidade computacional já pressiona mercados consolidados. Segundo ele, a expansão da inteligência artificial contribuiu para que a Equinix registrasse crescimento de 58% em bookings, termo usado para as vendas contratadas.

Data centers no Brasil ganham impulso com inteligência artificial

A transformação do setor pode ser percebida na própria escala das instalações. Carvalho contou que, no início de sua trajetória no mercado, em 2001, eram comuns demandas de um ou dois KVA por rack. Atualmente, a companhia trabalha com projetos que chegam a centenas de megawatts.

Segundo o executivo, a Equinix construiu estruturas de 240 MW no Vale do Silício e em Atlanta e desenvolve outra instalação de 240 MW em Chicago. A empresa também trabalha com diferentes modelos de data center, desde grandes projetos dedicados a um único cliente até estruturas voltadas a diferentes empresas e ecossistemas.

A inteligência artificial adicionou uma nova camada de demanda, mas não substituiu os usos anteriores. Sistemas financeiros, serviços de nuvem, plataformas digitais, streaming, saúde e telecomunicações continuam dependendo dessa infraestrutura.

Carvalho citou ainda o crescimento do tráfego digital em eventos como a Copa do Mundo e o aumento do consumo de conteúdos por dispositivos móveis para mostrar como a necessidade de processamento, interconexão e baixa latência aumentou.

No caso da IA, o executivo separou a demanda relacionada ao treinamento dos modelos daquela associada à inferência e à comercialização das aplicações. Segundo ele, parte da primeira onda de investimentos em treinamento ficou concentrada fora do Brasil, mas ainda existe uma nova etapa a ser disputada.

“A gente não pode perder esse momento. A gente já perdeu a primeira onda”, afirmou Carvalho.

Segundo ele, empresas ligadas às chamadas neoclouds já analisam operações no país, com aplicações na faixa de 5 MW a 10 MW.

Energia pode colocar Brasil na disputa global

Na comparação com outros mercados latino-americanos, Carvalho apontou a matriz energética como uma das principais vantagens brasileiras. Além do tamanho da economia, o país dispõe, segundo ele, de energia abundante e de uma matriz mais limpa do que outros mercados sob sua gestão.

O executivo afirmou que essa combinação pode favorecer a chegada das empresas de IA, especialmente porque a infraestrutura digital depende diretamente de disponibilidade elétrica.

“Se você não tiver energia, você não recebe nenhum player de inteligência artificial”, disse.

O tamanho do mercado brasileiro também pesa na decisão das empresas. Carvalho afirmou que os maiores deployments de provedores de nuvem como AWS, Microsoft, Oracle e Google na região estão concentrados no Brasil porque o tráfego e o consumo são maiores.

Além da energia, ele mencionou disponibilidade de áreas, água e uma malha de telecomunicações capaz de atender aos investimentos. Essas características, segundo Carvalho, permitem inclusive pensar em estruturas fora do eixo tradicional entre São Paulo e Rio de Janeiro.

Segurança jurídica e burocracia entram na decisão de investimento

Apesar das vantagens, Carvalho apontou segurança jurídica e ambiente regulatório entre os elementos observados por empresas que avaliam instalar data centers em um país.

Para ele, questões fiscais também precisam ser simplificadas para aumentar a capacidade brasileira de atrair investimentos. O executivo citou o Redata, discutido ao longo da entrevista como uma iniciativa voltada ao setor, mas afirmou que o debate não avançou na velocidade necessária.

“O que a gente precisa entender é que existe um negócio nas nossas mãos que pode transformar a nossa economia e a gente pode perder o tempo se a gente não tomar uma ação rápida”, afirmou.

Carvalho também chamou atenção para o tempo de construção. Segundo ele, a primeira fase de um data center pode exigir de um a dois anos para entrar em operação. Além da obra, são necessários investimentos em infraestrutura elétrica e autorizações ambientais, de segurança e de outros órgãos.

O executivo defendeu maior agilidade nesses processos, sem eliminar etapas regulatórias. A preocupação, segundo ele, é reduzir o tempo entre a decisão de investir e o início da operação.

Investimentos crescem com demanda por IA

Carvalho afirmou que a Equinix espera investir nos próximos três a cinco anos valor equivalente ao realizado em seus 28 anos anteriores de operação. Segundo ele, a empresa está entregando aproximadamente 700 MW de expansão global nos próximos meses, incluindo capacidade na América Latina.

No Brasil, o executivo disse que a empresa inaugurou recentemente seu sexto data center e prepara uma sétima unidade em São Paulo para dezembro.

Carvalho também mencionou uma parceria da Equinix com a Nvidia e afirmou que a companhia pretende utilizar a relação entre as empresas no desenvolvimento do mercado brasileiro.

A expansão dos data centers já entrou também no radar do mercado financeiro. Segundo o executivo, fundos de infraestrutura e outros investidores estão avaliando terrenos com disponibilidade de energia e ativos ligados ao segmento.

Na avaliação de Carvalho, mesmo uma eventual evolução tecnológica que reduza o consumo energético das aplicações não interromperia o crescimento do setor. Poderia alterar o volume necessário de energia, mas a expectativa de demanda seguiria elevada.

Expansão pode alcançar outras regiões do país

O crescimento dos data centers no Brasil não precisa ficar restrito a São Paulo e Rio de Janeiro. Carvalho citou Fortaleza como um hub relevante devido à presença de cabos submarinos e à infraestrutura de interconexão.

O interior paulista também já recebe instalações do setor. Segundo ele, bancos como Itaú e Santander possuem data centers em cidades da região.

Para os próximos anos, o executivo avalia que outros estados poderão receber novas estruturas. Ele citou o Rio Grande do Sul e estados do Nordeste como regiões que podem se beneficiar da expansão.

A descentralização também pode ocorrer por meio dos chamados edge data centers, instalações menores posicionadas mais próximas dos usuários e fora dos grandes centros de conectividade.

Água e emissões entram na estratégia dos data centers

O aumento da infraestrutura necessária à inteligência artificial também elevou a discussão sobre consumo de água e energia. Carvalho afirmou que a Equinix utiliza água de reúso em seus data centers e trabalha com uma meta de zerar suas emissões de carbono até 2030.

Segundo ele, a companhia já estaria próxima de 90% dessa meta e procura utilizar energia limpa nas localidades em que opera.

O executivo também citou a China ao comentar que diferentes países adotam cronogramas distintos para a redução de emissões. Na avaliação dele, a disponibilidade de energia limpa pode se tornar uma vantagem competitiva brasileira na atração de investimentos provenientes tanto da América do Norte quanto da Ásia.

IA deve elevar capacidade instalada

Ao projetar os próximos anos, Carvalho afirmou que a inteligência artificial deverá continuar puxando a expansão do setor. A expectativa apresentada durante o programa é de que o avanço da tecnologia possa dobrar a capacidade dos data centers.

Além das aplicações de IA, o setor continuará atendendo software, cloud computing, empresas financeiras, streaming e diferentes serviços digitais.

Para Carvalho, a relevância dos data centers decorre justamente do fato de que diferentes atividades da economia digital precisam dessa infraestrutura para funcionar. Por isso, a combinação entre demanda crescente, disponibilidade energética e escala de mercado coloca o Brasil diante de uma oportunidade que dependerá da velocidade de execução dos próximos investimentos.

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