Desde 1º de agosto, a gasolina vendida no Brasil passou a ter 32% de etanol anidro, ante os 30% anteriores. A chamada gasolina E32 foi aprovada pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) por 180 dias, com possibilidade de uma única prorrogação pelo mesmo período. O governo afirma que a mudança reduz a necessidade de importação de gasolina e estima uma queda de aproximadamente R$ 0,03 por litro nas bombas.
Mas a redução do preço por litro não responde, sozinha, à principal pergunta para quem abastece: quanto custa efetivamente rodar um quilômetro com a nova gasolina? O etanol tem características energéticas diferentes das da gasolina e, quanto maior sua participação na mistura, maior a quantidade de combustível que pode ser necessária para percorrer uma mesma distância. A questão é saber se essa eventual perda de autonomia é menor ou maior do que a economia prometida na bomba.
Quanto representa a economia na gasolina E32?
Na semana de 26 de julho a 1º de agosto, último levantamento semanal completo disponível para o início da nova mistura, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) encontrou preço médio de R$ 6,56 por litro para a gasolina comum no país. O etanol hidratado custava, em média, R$ 4,00.
Sobre uma gasolina de R$ 6,56, uma redução de R$ 0,03 equivale a apenas 0,46% do preço do litro. Essa é a primeira referência para entender a conta: se todo o desconto previsto pelo governo chegar ao consumidor, a perda de autonomia provocada pela mudança de E30 para E32 precisaria ficar abaixo de aproximadamente 0,46% para que o custo por quilômetro efetivamente caísse.
A fórmula é simples. O custo por quilômetro é obtido dividindo o preço do litro pela quantidade de quilômetros percorridos com esse litro. Assim, uma gasolina mais barata pode custar mais por quilômetro se o carro passar a consumir combustível em proporção maior do que a queda registrada no preço.
Quanto isso representa para um carro que faz 12 km/l?
Considere, apenas como exemplo de cálculo, um veículo que faça 12 km/l com a gasolina E30. Ao preço médio nacional de R$ 6,56, o custo é de aproximadamente R$ 0,547 por quilômetro, ou 54,7 centavos.
Se o preço cair os três centavos estimados pelo governo, para R$ 6,53, e não houver mudança de consumo, o custo recua para aproximadamente 54,4 centavos por quilômetro. A economia seria de cerca de R$ 2,50 a cada mil quilômetros rodados.
Se, porém, a autonomia cair 0,5%, os três centavos praticamente deixam de produzir economia. E, numa simulação com perda de 1% de autonomia, o veículo passaria de 12 km/l para aproximadamente 11,88 km/l. Nesse cenário, o custo subiria para perto de R$ 0,550 por quilômetro, mesmo com o litro três centavos mais barato. A diferença seria de aproximadamente R$ 3 a mais a cada mil quilômetros.
Portanto, usando o preço médio nacional da ANP como referência, o ponto de equilíbrio está próximo de 0,46% de perda total de autonomia entre E30 e E32. Se fosse possível assumir um efeito perfeitamente linear, hipótese usada apenas para ilustrar a conta, isso corresponderia a aproximadamente 0,23% de perda para cada ponto percentual adicional de etanol.
Estudo oficial não dá uma perda de consumo por ponto percentual
É justamente aqui que existe uma limitação importante nos dados disponíveis. Não há, no estudo oficial publicado, um índice que permita afirmar que cada ponto percentual adicional de etanol reduz a autonomia em determinado percentual.
O programa de testes conduzido pelo Instituto Mauá de Tecnologia (IMT), sob coordenação do Ministério de Minas e Energia, avaliou veículos e motocicletas movidos exclusivamente a gasolina e preparou combustíveis E27, E30 e E32. O documento incluiu testes de desempenho, partida, dirigibilidade, emissões e consumo.
Nos ensaios laboratoriais de autonomia dos veículos leves selecionados, entretanto, a comparação publicada foi feita entre E27 e E30. Os resultados variaram de veículo para veículo e o próprio estudo classificou as diferenças de autonomia observadas como sem diferença estatisticamente significativa nos modelos avaliados. Isso impede transformar os resultados em uma regra do tipo “cada 1 ponto percentual de etanol reduz o rendimento em X%”.
Para o E32, o Ministério de Minas e Energia afirma que os testes mostraram comportamento equivalente ao das misturas com menor teor de etanol e que não foram identificados impactos relevantes no funcionamento dos veículos, inclusive nos equipados com motores não flex.
Isso significa que não há base oficial para cravar uma perda de autonomia de 0,5%, 1% ou qualquer outro percentual na passagem de E30 para E32. Esses valores podem ser usados em simulações para descobrir onde está o ponto de equilíbrio, mas não devem ser apresentados como resultado dos testes.
Para carro só a gasolina, três centavos são o limite da conta
Nos veículos movidos exclusivamente a gasolina, o motorista não pode simplesmente trocar a gasolina pelo etanol hidratado. Por isso, a comparação relevante é entre o preço da E32 e o rendimento obtido com ela.
Nesse caso, os números mostram que há pouca margem para uma piora de consumo. Com gasolina a R$ 6,56, os R$ 0,03 anunciados pelo governo representam 0,46%. Se o carro perder menos autonomia do que isso, o custo por quilômetro cai. Se perder aproximadamente a mesma proporção, praticamente não muda. Se perder mais, o consumidor passa a gastar mais por quilômetro apesar de pagar menos no litro.
O próprio estudo usado pelo governo foi desenhado para avaliar veículos e motocicletas não flex, incluindo modelos de diferentes gerações. Segundo o MME, os testes não encontraram impacto relevante de funcionamento com a E32. A avaliação do custo real por quilômetro, porém, dependerá do comportamento de consumo de cada veículo.
No flex, a comparação com o etanol muda a conta
Para o proprietário de um veículo flex há uma segunda alternativa: abastecer diretamente com etanol hidratado. Nesse caso, não basta comparar o preço dos dois combustíveis. É necessário comparar também quantos quilômetros o próprio veículo percorre com um litro de cada um.
Na pesquisa da ANP referente à semana encerrada em 1º de agosto, São Paulo tinha gasolina comum a R$ 6,39 e etanol a R$ 3,70, em média no estado. A relação entre os preços era de aproximadamente 57,9%. Nos dados da mesma pesquisa, essa relação era de 63,2% em Goiás, 55,0% em Mato Grosso, 60,5% em Mato Grosso do Sul, 64,5% em Minas Gerais e 62,9% no Paraná. Os cálculos são feitos a partir dos preços médios estaduais divulgados pela ANP.
| Local | Gasolina | Etanol | Etanol/gasolina |
|---|---|---|---|
| Brasil | R$ 6,56 | R$ 4,00 | 61,0% |
| São Paulo | R$ 6,39 | R$ 3,70 | 57,9% |
| Goiás | R$ 6,68 | R$ 4,22 | 63,2% |
| Mato Grosso | R$ 6,80 | R$ 3,74 | 55,0% |
| Mato Grosso do Sul | R$ 6,43 | R$ 3,89 | 60,5% |
| Minas Gerais | R$ 6,23 | R$ 4,02 | 64,5% |
| Paraná | R$ 6,68 | R$ 4,20 | 62,9% |
A conhecida regra de comparar o preço do etanol com 70% do preço da gasolina é apenas uma aproximação. Para saber qual combustível custa menos por quilômetro, o cálculo mais preciso é usar o consumo real do veículo. Se, por exemplo, determinado carro percorre com etanol 75% da distância que percorre com gasolina, o etanol será economicamente mais vantajoso sempre que custar menos de 75% do preço da gasolina.
Ainda é cedo para medir os três centavos na bomba
Há outra limitação temporal. A última semana consolidada usada nesta comparação terminou justamente em 1º de agosto, primeiro dia de vigência do E32. Portanto, esses preços funcionam como referência para a conta, mas ainda não permitem medir se os R$ 0,03 estimados pelo governo foram efetivamente repassados ao consumidor.
As próximas pesquisas semanais da ANP serão as primeiras capazes de mostrar o comportamento dos preços já com maior presença da E32 nos tanques dos postos. Mesmo assim, será necessário separar o efeito da mudança da mistura de outros componentes que também alteram o preço da gasolina, como valor da gasolina A, preço do etanol anidro, impostos e margens de distribuição e revenda. A própria ANP mostra que o preço do etanol anidro e o da gasolina A variam ao longo das semanas.
A mudança para a gasolina E32, portanto, pode reduzir o preço do litro sem necessariamente produzir a mesma redução no custo para dirigir. Pelos valores atuais, os três centavos projetados pelo governo criam uma margem de apenas cerca de 0,46% para uma eventual perda de autonomia. A resposta definitiva para o motorista dependerá de duas informações que começarão a aparecer após a mudança: quanto do desconto chegou efetivamente às bombas e quanto cada veículo passou a consumir para percorrer a mesma distância.
Veja a análise do comentarista Miguel Daoud sobre o assunto:















