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A armadilha americana que quebrou o Japão: por que a China não vai cair em um Acordo de “Plaza 2.0”

Rui das NevesPor Rui das Neves
18/08/2026

Acordo Plaza: o dólar ficou forte demais e o mundo teve que intervir e está de novo? Será que a China vai aceitar cair na mesma armadilha? Para isso vamos voltar a uns 40 anos mais ou menos, em 22 de setembro de 1985, bem no coração de Nova York. Foi lá, no luxuoso The Plaza Hotel, que os “cabeças” das maiores economias do planeta se reuniram com um único objetivo: resolver um problemão que estava sufocando o comércio global. O motivo? O dólar estava forte demais, uma verdadeira ignorância na visão deles. Esse encontro entrou para a história como o Acordo Plaza, um movimento coordenado que mudou o rumo das moedas, deu um calor danado nos mercados e deixou lições que ecoam até hoje nas nossas mesas de operação.

O pano de fundo: o superdólar dos anos 80

No início da década de 1980, os Estados Unidos viviam uma combinação explosiva: juros nas alturas para segurar a inflação herdada dos anos 70 e políticas fiscais expansionistas. O resultado? O capital do mundo inteiro correu para os ativos americanos atrás de rendimento e, claro, o dólar disparou.

Entre 1980 e 1985, a moeda americana valorizou absurdamente frente ao iene japonês e ao marco alemão. Para a indústria dos Estados Unidos, foi um soco no estômago, pois perderam competitividade total. Importar virou uma beleza, mas exportar ficou caro demais. O déficit comercial deles explodiu, especialmente contra o Japão e a Alemanha Ocidental. O papo político engrossou o caldo por causa da enorme pressão interna por medidas protecionistas, e o risco de uma guerra comercial de verdade bateu à porta.

E quem sentou à mesa?

O Acordo Plaza reuniu o chamado G5: Estados Unidos, Japão, Alemanha Ocidental, França e Reino Unido.

Da esquerda para a direita: Gerhard Stoltenberg, da Alemanha Ocidental; Pierre Bérégovoy, da França; James Baker, dos Estados Unidos; Nigel Lawson, da Grã-Bretanha; e Noboru Takeshita, do Japão.

O objetivo era simples no gogó, mas complexo na prática: derreter o dólar de forma coordenada e a estratégia envolveu os bancos centrais jogando juntos. Os caras entraram batendo dólar aos montes no mercado de câmbio e tomando suas próprias moedas. O recado para as mesas de operação era claro: havia um compromisso político pesado para enfraquecer a divisa americana.

O impacto imediato e a cartada do Louvre

E não deu outra: funcionou e foi rápido. Logo após o anúncio, o dólar começou a tombar de maneira consistente. Entre 1985 e 1987, a moeda americana perdeu cerca de 40% de valor frente ao iene e ao marco alemão. Quem estava comprado em dólar teve que zerar a posição correndo para não quebrar. Para os Estados Unidos, isso deu um refresco para a indústria exportadora.

Manejar o câmbio, porém, é um negócio muito delicado. Tanto que, já em 1987, o grupo precisou se reunir de novo para assinar o Acordo do Louvre, tentando estabilizar as moedas após a forte queda do dólar. Ficou o aprendizado: se mexer demais, gera instabilidade; se mexer de menos, o desequilíbrio continua cobrando o preço.

O mico gigante do Japão

O problema é que, para o Japão, o iene forte demais azedou o angu. Com a moeda supervalorizada, as exportações japonesas perderam o fôlego. Para segurar a onda e sustentar a atividade interna, o Banco do Japão adotou uma política monetária agressiva, jogando os juros no chão.

Foi aí que morou o perigo: esse ambiente de dinheiro fácil acabou alimentando uma baita bolha imobiliária e acionária no fim dos anos 80. Quando esse mico gigante estourou, no início da década de 1990, o Japão mergulhou em um longo período de estagnação econômica, a famosa “década perdida”.

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As lembranças para o cenário atual

Pois é, abrindo o jogo, o Acordo Plaza de 1985 já está na boca do povo do mercado de novo. Quem está há mais tempo no jogo, desde a época em que o pregão do Rio era no grito, sabe que a história não se repete, mas no mínimo combina. Hoje, o mercado debate se o mundo está desenhando um “Plaza 2.0” ou se o negócio vai ser resolvido na base do canetaço unilateral.

E por que o Leblon e a Faria Lima entraram nessa comparação?

Primeiro, pelo boato do “Acordo de Mar-a-Lago”. Os analistas de Wall Street curtem um selo novo, né? Mas a ideia é idêntica à de 1985: forçar uma queda do dólar para ver se a indústria americana respira e diminui o rombo comercial deles.

Segundo, pela pressão na China. Voltou-se a reclamar que o yuan está subvalorizado em quase 30% e o Ocidente tenta enquadrar os chineses.

Por fim, o olho no Iene. A moeda japonesa acumulou quedas expressivas próximas de 38% em relação ao dólar nos últimos anos. Players grandes suspeitam que os EUA e o Japão já sentaram para fechar um teto cambial informal e até já andaram intervindo no mercado no início de agosto.

Mas na real, vai rolar um novo acordo?

Esqueçam, a chance é quase zero. A China estudou o caso do Japão detalhadamente e sabe bem as consequências de valorizar sua moeda na marra. Os chineses tratam o Acordo Plaza como uma armadilha americana e não vão cair nessa. Com o mundo geopolítico fragmentado do jeito que está hoje, botar Washington e Pequim na mesma mesa para acertar ponteiro de câmbio é utopia.

*Coluna escrita por Rui das Neves, administrador de empresas, investidor e possui vasta experiência no como incorporador imobiliário.

*As opiniões transmitidas pelo colunista são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da BM&C News.

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