Na largada da campanha presidencial, os principais candidatos concentram os atos em símbolos políticos e identitários, mas ainda não explicam como pretendem enfrentar o desequilíbrio das contas públicas e o ambiente de juros básicos em patamar elevado, combinação que pressiona a atividade, as empresas e o mercado de trabalho.
Segundo a análise do economista VanDyck Silveira, economista, no BM&C News, tanto o ato de Luiz Inácio Lula da Silva em São Bernardo do Campo quanto o de Flávio Bolsonaro no Rio de Janeiro priorizaram narrativas de biografia, segurança pública e identidades específicas do eleitorado, deixando em aberto o ponto central da política econômica: como será feito o ajuste fiscal e quais custos e benefícios isso trará para a população.
O que está em jogo quando se fala em “ajuste fiscal”?
No debate eleitoral, “ajuste fiscal” costuma aparecer como expressão genérica, sem explicação de conteúdo. Do ponto de vista técnico, o equilíbrio das contas do setor público é acompanhado por indicadores oficiais de resultado primário, déficit nominal e dívida pública, publicados pelo Banco Central do Brasil em suas Estatísticas Fiscais e pelo Tesouro Nacional em relatórios no portal Tesouro Transparente.
O déficit nominal do setor público, por exemplo, soma o resultado primário (receitas menos despesas, sem juros) aos juros nominais apropriados, e é divulgado regularmente pelo Banco Central em relação ao PIB, em linha com os padrões internacionais do Fundo Monetário Internacional (FMI) em bases como o Fiscal Monitor. Após a pandemia, o Brasil registrou déficits nominais elevados, com posterior redução em 2022, segundo essas séries oficiais.
Quando um candidato promete “arrumar as contas públicas”, ele necessariamente terá de lidar com essa aritmética: ou reduz despesas, ou aumenta receitas (impostos e outras fontes), ou aceita mais inflação e dívida. Não há ajuste sem escolha distributiva.
Por que os candidatos evitam detalhar cortes e aumentos de impostos?
No programa, VanDyck argumenta que a ausência do “como” nas propostas fiscais impede que o eleitor saiba, de forma transparente, qual cesta de políticas públicas está escolhendo. Há razões eleitorais claras para essa omissão:
1. Corte de gastos implica dizer quem perde recursos orçamentários, o que tende a gerar resistência de grupos organizados.
2. Aumento ou mudança de impostos afeta diretamente famílias e empresas, o que também costuma ser impopular.
Do lado técnico, qualquer plano consistente de consolidação fiscal precisa dialogar com a trajetória de déficit e dívida descrita pelos dados oficiais do Banco Central e do Tesouro Nacional. Esses documentos, como os relatórios de Estatísticas Fiscais do BCB e os relatórios de política fiscal do Tesouro no Tesouro Transparente, permitem verificar se as metas anunciadas em campanha são compatíveis com a realidade atual.
Um ponto pouco discutido é que, independentemente de quem vencer a eleição, o próximo governo encontrará a mesma estrutura fiscal registrada nessas estatísticas. A “gravidade” das contas públicas é uma condição de partida, não uma variável que muda com o discurso.
Juros elevados: o que os dados oficiais mostram?
O vídeo menciona juros “em torno de 14%” durante anos, mas a série oficial da taxa Selic, divulgada pelo Banco Central, conta uma história mais precisa. A Selic é definida pelo Comitê de Política Monetária (Copom) e tem sua série histórica completa disponível no site do BCB (taxa Selic).
Até outubro de 2024, essa série mostra que:
– o Brasil chegou a ter Selic em torno de 14%–14,25% ao ano em meados da década de 2010;
– a partir de 2017, a taxa foi reduzida para patamares de um dígito, chegando ao mínimo histórico de 2% ao ano em 2020–início de 2021;
– a elevação pós‑pandemia levou a Selic a 13,75% ao ano em 2022, onde permaneceu por vários meses, antes do início do ciclo de cortes.
Ou seja, a afirmação de que “faz quatro anos que a taxa de juros está em dois dígitos” não é compatível, literalmente, com os dados oficiais, que registram um período relevante com juros em 2% ao ano. A ordem de grandeza destacada pelo comentarista – a volta a juros elevados por um período prolongado após 2021 – é real, mas os números específicos precisam ser checados na série do BCB.
Mesmo sem cravar percentuais, o encadeamento econômico é claro: juros básicos mais altos encarecem o crédito, competem com o retorno de investimentos produtivos e pressionam empresas mais alavancadas, com reflexos em investimento, emprego e apetite por risco na Bolsa. Essa relação é recorrente nas comunicações de política monetária do BCB, como atas e comunicados do Copom, publicados em bcb.gov.br.
Como a desaceleração econômica entra na disputa eleitoral?
No diálogo, a apresentadora cita o IBC-Br, indicador do Banco Central usado como sinalizador de curto prazo da atividade econômica. O IBC-Br é divulgado mensalmente e serve como proxy do PIB entre as divulgações oficiais do IBGE, que publica o PIB pelas Contas Nacionais Trimestrais e Anuais em ibge.gov.br.
Quando o IBC-Br mostra perda de ritmo, a mensagem para a campanha é simples: qualquer candidato terá de conciliar ajuste fiscal e recuperação do crescimento. A leitura do mercado de trabalho reforça esse quadro. O IBGE, por meio da PNAD Contínua, acompanha a taxa de desocupação, a informalidade e o rendimento médio real, dados que ajudam a qualificar a percepção de que o “emprego está nas mínimas, mas com baixa produtividade”. Esses números estão disponíveis no portal do IBGE.
A combinação de desaceleração, aperto de crédito e balanços fragilizados aumenta a probabilidade de empresas buscarem recuperação judicial. Estatísticas consolidadas sobre esses processos podem ser obtidas no Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em cnj.jus.br. Já a performance da Bolsa de valores é registrada pela B3, que divulga o histórico do Ibovespa em b3.com.br.
Sem que o eleitor olhe para esses dados de forma estruturada, o debate tende a ficar preso a narrativas de curto prazo, como “Bolsa caindo” ou “recorde de recuperações judiciais”, que exigem sempre checagem em séries históricas para saber se se trata de fato inédito ou apenas de um movimento cíclico.
Qual é o peso do voto feminino e evangélico nas propostas econômicas?
VanDyck destaca o foco simultâneo das campanhas no eleitorado feminino e no público evangélico. No caso das mulheres, há um dado oficial por trás dessa ênfase: estatísticas do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) indicam que elas são ligeiramente mais da metade do eleitorado, em torno de pouco mais de 50% em eleições recentes, segundo o painel de Estatísticas do Eleitorado.
O número exato varia por pleito e deve ser conferido para a eleição em curso, mas a mensagem é estável: quem ignora as eleitoras perde competitividade. O TSE também publica dados por faixa etária, escolaridade e estado, o que permite avaliar se as promessas econômicas de cada campanha conversam com a realidade de renda e emprego dos grupos que dizem priorizar.
Já o público evangélico não é identificado diretamente pelo TSE; sua dimensão aparece em pesquisas de perfil religioso produzidas pelo IBGE, como o Censo Demográfico, divulgado em ibge.gov.br. A disputa por esse grupo tende a vir embalada em temas de costumes, mas seu peso econômico – como trabalhadores, empreendedores e consumidores – depende dos mesmos fatores macroeconômicos que atingem o conjunto da população: inflação, juros, emprego e renda.
Como o eleitor pode checar as promessas econômicas dos candidatos?
A principal lacuna apontada no programa é a ausência de transparência sobre o “como” do ajuste fiscal. O eleitor não precisa esperar por detalhes em sabatinas: pode confrontar as falas de campanha com bases oficiais de dados.
*Passo a passo para acompanhar a agenda econômica na eleição
1. Verificar a situação fiscal atual
Consultar, no site do Banco Central, a seção de Estatísticas Fiscais para ver o resultado nominal e o primário em % do PIB, além da trajetória da dívida. Complementar com os relatórios do Tesouro Nacional no Tesouro Transparente.
2. Checar juros, atividade e emprego
Acompanhar a série da taxa Selic e das atas do Copom em bcb.gov.br, o IBC-Br como sinal de ritmo da economia, o PIB e os dados da PNAD Contínua em ibge.gov.br, e, se desejado, o desempenho da Bolsa e índices setoriais em b3.com.br.
3. Comparar com o que cada campanha promete
Ver se o discurso é compatível com a ordem de grandeza dos números. Quando alguém fala em “zerar déficit rapidamente” ou “cortar impostos sem compensação”, a pergunta técnica é sempre: como isso se encaixa na trajetória atual registrada por Banco Central, Tesouro e IBGE?
*Onde a narrativa incomoda, mas não aparece na propaganda
O ponto incômodo do debate é que, qualquer que seja o eleito, haverá trade-offs:
– algum grupo pagará mais impostos;
– algum gasto será reduzido ou crescerá menos;
– o ritmo de queda de juros dependerá da percepção de risco fiscal captada nas estatísticas oficiais e em bases internacionais, como as do FMI.
Ao não explicitar esses custos, as campanhas preservam popularidade no curto prazo, mas reduzem a capacidade de o eleitor tomar decisão informada. O caminho prático é trazer o debate para os dados – e usar as estatísticas oficiais não apenas para checar se o diagnóstico está correto, mas para avaliar se as promessas são exequíveis.
Assista ao vídeo abaixo:

















