Uma poupança com R$ 0,13, mais de R$ 56 milhões em um único fundo multimercado, milhões de reais em previdência privada, fazendas, rebanhos, participações em empresas e até um CDB declarado em R$ 6,79 bilhões.
As declarações de patrimônio entregues pelos candidatos à Presidência ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram não apenas quanto cada um possui, mas também onde eles colocam o próprio dinheiro.
Os 13 candidatos que apresentaram registros até 15 de agosto declararam, juntos, R$ 7,96 bilhões em patrimônio, distribuídos em 151 bens. O valor, porém, é fortemente influenciado pela declaração de Pablo Marçal (PRTB), que informou R$ 7,42 bilhões e posteriormente afirmou que parte do montante foi registrada de forma incorreta. Sem Marçal, os demais candidatos somam R$ 539,6 milhões.
Entre os 12 candidatos, excluído Marçal, fundos, aplicações de renda fixa, ações, previdência e outros ativos financeiros representam R$ 112,08 milhões, equivalentes a 20,8% do patrimônio declarado.
Participações em empresas, imóveis e créditos a receber concentram a maior parte dos bens. E, apesar de se tratar de candidatos à Presidência, a exposição direta à Bolsa é pequena na maior parte das carteiras.
Quanto cada candidato à Presidência declarou ao TSE?
As declarações revelam uma diferença expressiva entre os patrimônios apresentados à Justiça Eleitoral.
| Candidato | Partido | Patrimônio declarado | Maior concentração |
|---|---|---|---|
| Pablo Marçal | PRTB | R$ 7,42 bilhões* | Renda fixa e caixa |
| Augusto Cury | Avante | R$ 242,28 milhões | Créditos a receber |
| Romeu Zema | Novo | R$ 178,71 milhões | Participações societárias |
| Ronaldo Caiado | PSD | R$ 52,56 milhões | Imóveis e atividade rural |
| Wilson Grassi | Democrata | R$ 50 milhões | Participações e imóveis |
| Flávio Bolsonaro | PL | R$ 8,19 milhões | Imóveis |
| Lula | PT | R$ 4,78 milhões | Previdência VGBL |
| Clariana Barão | DC | R$ 1,82 milhão | Imóveis |
| Renan Santos | Missão | R$ 795,1 mil | Créditos e poupança |
| Edmilson Costa | PCB | R$ 454,5 mil | Imóveis |
| Samara Martins | UP | R$ 33 mil | Veículo |
| Hertz Dias | PSTU | Sem bens declarados | — |
| Rui Costa Pimenta | PCO | Sem bens declarados | — |
*Marçal afirmou que a declaração contém erro e informou ter solicitado a correção.
Os números, entretanto, não devem ser interpretados como uma avaliação atualizada da riqueza de cada candidato. Imóveis, participações societárias e outros bens seguem, em regra, os critérios utilizados na declaração do Imposto de Renda e podem ser registrados pelo custo de aquisição, e não pelo valor atual de mercado.
Como Lula distribui seu patrimônio entre previdência e investimentos?
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) declarou R$ 4,78 milhões em patrimônio, valor 35,7% inferior aos R$ 7,42 milhões informados em 2022. A maior parte está concentrada em previdência privada.
Dois planos VGBL somam cerca de R$ 3,30 milhões, o equivalente a 69,2% de todos os bens declarados por Lula. São R$ 1,92 milhão em um VGBL da Brasilprev e R$ 1,38 milhão em outro plano do Bradesco.
Além dos planos de previdência, Lula declarou:
- R$ 207,9 mil em fundo de renda fixa de longo prazo do Banco do Brasil;
- R$ 132,8 mil em fundo DI;
- R$ 50 mil no fundo imobiliário TVRI11;
- R$ 6,3 mil em fundo de renda fixa simples do Bradesco.
Entre os valores que mais chamam atenção estão duas contas de poupança, com saldos de R$ 14,99 e R$ 0,13.
O presidente também informou R$ 739,2 mil em imóveis e terrenos em São Bernardo do Campo, além de R$ 179,3 mil em crédito decorrente de distrato com a Bancoop.
Onde Romeu Zema concentra seus R$ 178,7 milhões?
Romeu Zema (Novo) declarou patrimônio de R$ 178,71 milhões, com forte concentração em participações societárias e fundos de investimento.
O principal bem é uma participação em uma holding familiar avaliada em R$ 94,50 milhões, equivalente a 52,9% de seu patrimônio.
Zema também declarou R$ 56,22 milhões em um fundo multimercado, a maior posição individual em fundos entre todos os candidatos analisados.
A carteira inclui ainda:
- R$ 16,83 milhões em participação em instituição financeira;
- R$ 3,96 milhões em aplicação de renda fixa;
- R$ 3,67 milhões em participação em seguradora;
- R$ 1,56 milhão em fundo de ações;
- R$ 397,9 mil em fundo de cotas;
- R$ 337,4 mil em CDB.
Os imóveis têm participação menor. Zema declarou uma residência de R$ 704,9 mil e um terreno de R$ 70 mil.
Ao todo, os ativos financeiros representam aproximadamente 35% do patrimônio declarado pelo candidato.
Por que imóveis rurais e rebanho dominam o patrimônio de Caiado?
O patrimônio declarado por Ronaldo Caiado (PSD) tem uma característica diferente das carteiras de Lula e Zema: a maior parte está ligada à atividade rural. Caiado informou R$ 52,56 milhões em bens.
Desse total, R$ 36,21 milhões estão em imóveis rurais e outros R$ 10,49 milhões em semoventes, categoria em que está incluído o rebanho. Somados, esses ativos representam 88,9% de todo o patrimônio declarado.
A principal posição financeira de Caiado é de R$ 4,29 milhões em títulos isentos de tributação, registrados na categoria que reúne produtos como LIG, LCI, LCA, CRI e CRA.
A exposição direta à renda variável é praticamente inexistente. A declaração registra somente R$ 133,53 em ações e R$ 16,71 em fundos.
Onde Flávio Bolsonaro concentra a maior parte de seus bens?
Flávio Bolsonaro (PL) declarou R$ 8,19 milhões em patrimônio. A maior parte está concentrada em um único imóvel: uma casa localizada no Lago Sul, em Brasília, declarada por R$ 6,23 milhões.
O imóvel sozinho representa 76,1% do patrimônio informado pelo senador. Entre as aplicações financeiras, a principal posição é um fundo de investimento em cotas multimercado de R$ 1,09 milhão.
Flávio também declarou:
- R$ 568,7 mil em contas correntes;
- R$ 103,7 mil em poupança;
- R$ 56,2 mil em quotas de sociedades;
- R$ 8,3 mil em CDB do Banco do Brasil.
Os ativos financeiros correspondem a aproximadamente 21,6% dos bens informados por Flávio Bolsonaro.
Quais investimentos fazem Augusto Cury se destacar na Bolsa?
Augusto Cury (Avante) declarou R$ 242,28 milhões, o segundo maior patrimônio da relação considerando o valor atualmente registrado por Pablo Marçal. Cury também apresentou o maior número de bens: 56 registros.
A principal posição é um empréstimo de R$ 121,19 milhões concedido à Filadélfia Nature Participações, empresa na qual também possui quotas avaliadas em R$ 15,61 milhões. Outros R$ 54,78 milhões estão em participações societárias.
Mas é na Bolsa que a carteira de Cury se diferencia das declarações dos outros candidatos.
Ele informou R$ 25,83 milhões em BDRs, além de R$ 7,09 milhões em ações do Bradesco (BBDC3) e cerca de R$ 799,5 mil em ações da Petrobras (PETR4).
As posições negociadas no mercado de renda variável somam aproximadamente 13,9% de seu patrimônio.
Cury é o único candidato da relação com exposição direta relevante a ações e BDRs.
Por que o CDB de R$ 6,79 bilhões declarado por Marçal está sob contestação?
Pablo Marçal (PRTB) aparece com o maior patrimônio registrado entre os candidatos: R$ 7,42 bilhões. A cifra, entretanto, está sob contestação do próprio candidato.
A declaração apresenta R$ 6,79 bilhões em uma aplicação descrita como renda fixa em CDB e RDB no Banco Itaú. Sozinha, a posição corresponderia a 91,6% do patrimônio informado à Justiça Eleitoral.
Marçal afirmou que o registro está errado e que já solicitou a correção, sem informar qual seria o valor correto.
A diferença em relação à eleição municipal de 2024 é expressiva. Quando disputou a Prefeitura de São Paulo, Marçal havia declarado R$ 169,5 milhões.
Retirando apenas a aplicação de R$ 6,79 bilhões que ele contesta, os demais bens registrados atualmente somam cerca de R$ 626,5 milhões.
O maior deles é um terreno urbano em Santana de Parnaíba (SP), declarado por R$ 490 milhões.
Marçal também informou:
- R$ 80 milhões em participação na Aviation Participações;
- R$ 19,87 milhões na Marçal Holding;
- R$ 6,64 milhões em fundo DI do Safra;
- R$ 6,43 milhões em fundo incentivado de infraestrutura do Itaú;
- R$ 4,90 milhões em Letra Imobiliária Garantida;
- R$ 4,65 milhões no fundo imobiliário DAMA11;
- R$ 877,1 mil em dois fundos multimercado;
- R$ 138 mil em LFT.
A candidatura de Marçal ainda depende de validação da Justiça Eleitoral. Ele foi declarado inelegível até 2032 pelo Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo por abuso de poder político e econômico na campanha de 2024.
Por que ações têm pouco espaço no patrimônio dos candidatos?
Apesar das diferenças de patrimônio e estratégia, um ponto se repete nas declarações: ações negociadas diretamente na Bolsa aparecem pouco nas carteiras dos candidatos.
Com exceção de Augusto Cury, o maior valor declarado diretamente em ações entre os candidatos é de apenas R$ 133,53, informado por Ronaldo Caiado.
Quando existe exposição à renda variável, ela também aparece por meio de fundos de investimento. Zema, por exemplo, possui R$ 1,56 milhão em fundo de ações, enquanto Lula informou R$ 50 mil em fundo imobiliário.
Já a renda fixa, os fundos e a previdência aparecem com valores mais expressivos.
Ao mesmo tempo, uma parcela relevante do patrimônio dos candidatos está fora do mercado financeiro. Participações empresariais dominam as declarações de nomes como Zema, enquanto imóveis e atividade rural têm peso elevado nos patrimônios de Flávio Bolsonaro e Caiado.
As declarações do TSE mostram a riqueza real de cada candidato?
Não necessariamente. A declaração eleitoral segue os critérios utilizados na declaração de Imposto de Renda. Isso significa que imóveis, participações societárias e outros bens são informados, em regra, pelo custo de aquisição, e não necessariamente pelo preço que alcançariam hoje no mercado.
O nível de detalhamento também varia de candidato para candidato. Algumas declarações identificam produtos financeiros, instituições e até códigos de negociação, enquanto outras utilizam categorias mais genéricas.
Outro ponto é que o documento reúne apenas os bens mantidos em nome do próprio candidato. Ativos pertencentes a empresas controladas aparecem por meio do valor da participação societária, sem detalhar todo o patrimônio da companhia. Bens de cônjuges também não fazem parte da declaração individual.
Por isso, os registros do TSE permitem comparar a composição do patrimônio dos candidatos, mas não representam necessariamente uma estimativa do valor de mercado atual de toda a riqueza associada a cada um.
















