A crise da varejista reúne erros próprios, crédito caro e famílias endividadas, e expõe um Brasil que tenta crescer pelo consumo sem ampliar a oferta.
O pedido de recuperação judicial do Grupo Casas Bahia não justifica pânico sistêmico, mas deveria acender um sinal amarelo em Brasília. A companhia tem problemas próprios: mudanças de controle, apostas estratégicas feitas para outro ambiente econômico, perda de competitividade e investimentos pesados em tecnologia e logística.
Ainda assim, seria um erro confortável tratar o episódio como um acidente isolado. A crise passou a operar num país de juros muito altos, crédito restrito, famílias endividadas e crescimento excessivamente dependente do consumo financiado.
A conta chegou
O grupo protocolou a recuperação judicial com dívida declarada de R$ 17,3 bilhões, cerca de dois anos depois de reestruturar R$ 4,8 bilhões em uma recuperação extrajudicial. A nova etapa mostra que a operação não conseguiu gerar caixa suficiente para suportar o custo e o tamanho do passivo.
O varejo de eletrodomésticos depende de capital de giro, financiamento de estoques e crédito ao consumidor. Quando o dinheiro encarece, o custo da empresa sobe enquanto a capacidade de compra do cliente diminui. A margem fica espremida dos dois lados.
A Casas Bahia construiu sua história vendendo a prazo para a população de renda mais baixa. Quando esse consumidor já está comprometido com prestações, cartão e empréstimos caros, o carnê deixa de ser instrumento de inclusão e passa a disputar espaço num orçamento sem sobra.
Não é apenas uma empresa
Os dados confirmam que o ambiente é muito mais amplo. A Serasa Experian registrou 9,1 milhões de empresas inadimplentes em junho de 2026, das quais 8,7 milhões eram micro e pequenas. Em julho, 83,9 milhões de consumidores estavam com contas vencidas e não pagas — o equivalente a 51% da população adulta.
Portanto, a recuperação da Casas Bahia não inaugura sozinha uma crise. Ela torna visível uma crise de crédito que já se espalhou silenciosamente pelo país.
Um pé no acelerador, outro no freio
A mecânica é simples. Quando renda, transferências e crédito impulsionam o consumo mais rapidamente do que investimento e produtividade ampliam a oferta, os preços sobem. Diante da inflação, o Banco Central eleva os juros para esfriar a demanda.
No Brasil, parte da transmissão da política monetária perde força diante de crédito direcionado, subsídios, incentivos e estímulos fiscais. Isso não elimina o efeito dos juros; concentra o peso sobre famílias e empresas expostas às taxas de mercado. O Estado pisa no acelerador do consumo enquanto o Banco Central pisa no freio da inflação.
Nesta segunda-feira, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, foi direto: a demanda cresce acima da oferta, e a expansão sustentável precisa vir da produtividade. Traduzindo: não existe atalho duradouro. Sem produzir mais e melhor, estimular somente o consumo termina em inflação, juros altos e endividamento.
A dívida pública entra na loja
A questão fiscal também chega ao balcão. Um orçamento quase todo ocupado por despesas obrigatórias reduz a capacidade de investimento do Estado. Ao mesmo tempo, uma trajetória de dívida sem ancoragem convincente leva o investidor a exigir juros maiores para financiar o governo.
Essa taxa se torna referência para o restante da economia: financiamento empresarial, capital de giro, crediário e renegociação de dívidas. A falta de credibilidade fiscal não é uma abstração. Ela aparece no preço da geladeira, no limite do cartão, no caixa das empresas e no crédito do produtor rural.
A mão invisível não trabalha no escuro
Os candidatos à Presidência precisam entender que não basta prometer crescimento e juros menores. Juros não caem de forma sustentável por desejo político. Caem quando inflação, risco e expectativas permitem.
O país precisa de um projeto estrutural: controle crível das despesas, revisão de privilégios e subsídios, menor rigidez orçamentária e uma agenda de produtividade baseada em infraestrutura, segurança jurídica, simplificação tributária, tecnologia e qualificação profissional.
A “mão invisível” do mercado somente aparece quando o investidor enxerga previsibilidade, regras estáveis e retorno compatível com o risco. Sem confiança, o capital encurta o prazo, cobra mais caro ou simplesmente não vem.
A recuperação judicial pode dar tempo à Casas Bahia para reorganizar suas dívidas e preservar a operação. Mas tempo não é cura. O alerta está na possibilidade de outras empresas, no comércio, na indústria e no campo, seguirem pelo mesmo corredor.
A Casas Bahia não é a doença da economia brasileira. É um dos seus sintomas mais visíveis.
*Coluna escrita por, Miguel Daoud, comentarista de economia e política na BM&C News. Administrador de Empresas, com especialização autodidata em Economia e Política, construiu uma trajetória consolidada no mercado financeiro e no agronegócio brasileiro.
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