O Brasil combina desaceleração da atividade, inflação ainda relevante e incerteza fiscal e eleitoral, o que mantém o juro real elevado, sobretudo na parte longa da curva. Nesse ambiente, a economista Carol Borges, head e analista de FIIS da EQI Research, vê espaço limitado para novos cortes da Selic e oportunidades táticas em prefixados mais curtos e NTN‑B intermediárias, desde que o investidor aceite volatilidade e diversifique também no exterior.
A economista Carol, da EQI, avalia que ainda há espaço para pelo menos mais um corte da Selic antes da eleição, mas que o juro real deve seguir elevado enquanto não houver clareza sobre o ajuste fiscal após 2027. Nesse cenário, ela destaca oportunidades em prefixados mais curtos e títulos indexados ao IPCA de prazo intermediário, combinados com diversificação internacional, sempre respeitando o perfil de risco do investidor.
O pano de fundo é um quadro de desaceleração da economia, inflação ainda relevante, risco fiscal persistente e incerteza eleitoral, num regime de metas de inflação operado pelo Banco Central com base na Selic como taxa básica da economia, conforme descrito pelo próprio BC em sua página sobre a [taxa Selic](https://www.bcb.gov.br/controleinflacao/taxaselic) e o regime de [metas para a inflação](https://www.bcb.gov.br/controleinflacao/metas).
O que está por trás do atual ciclo de corte de juros?
Segundo Carol, a EQI revisou para baixo sua projeção de PIB para o ano, em linha com sinais de desaceleração da atividade econômica no Brasil. A leitura da casa é de um cenário em que a economia perde fôlego ao mesmo tempo em que a inflação permanece relevante, mas sem sinais de fuga de controle.
Na entrevista, ela cita que a inflação em 12 meses estaria em torno de 4,4% no IPCA, com alívio pontual em um dos meses e risco de reaceleração mais à frente. Esses números são estimativas da EQI à época da gravação. O dado oficial do IPCA é calculado e divulgado mensalmente pelo IBGE, na página do [Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA)](https://www.ibge.gov.br/estatisticas/economicas/precos/9256-indice-nacional-de-precos-ao-consumidor-amplo.html), e deve ser consultado pelo investidor para acompanhar a inflação efetiva.
Do lado da política monetária, Carol aponta que a casa via espaço para mais um corte da Selic até a eleição, com taxa de fim de ano em torno de 13,75% ao ano, estimativa elaborada internamente. As decisões oficiais sobre a meta para a Selic são tomadas pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, conforme descrito na página do [Copom](https://www.bcb.gov.br/controleinflacao/comitepolitica) e na área geral do [Banco Central do Brasil](https://www.bcb.gov.br).
O quadro descrito por ela é um “cabo de guerra” entre:
– desaceleração da atividade;
– inflação ainda relevante;
– riscos geopolíticos (energia e petróleo);
– riscos climáticos (como o El Niño);
– incerteza fiscal e eleitoral.
Enquanto essas forças não convergem para um cenário mais claro, a tendência, na visão da economista, é de juros básicos ainda elevados em termos reais.
Por que o juro real segue tão alto na curva longa?
Carol destaca que o Brasil mantém um juro real elevado na parte longa da curva, especialmente em títulos públicos indexados à inflação, como as NTN‑B (Tesouro IPCA+). Ela menciona que, à época da gravação, a casa observava:
– juros reais acima de 8% ao ano em vencimentos intermediários;
– juros reais em torno de 7,5% a 7,8% ao ano em vencimentos mais longos.
Esses níveis refletem condições de mercado naquele momento e devem ser confrontados com dados atuais da dívida pública federal, disponíveis nos relatórios da Secretaria do Tesouro Nacional, acessíveis no portal [Tesouro Transparente](https://www.tesourotransparente.gov.br).
Na avaliação da economista, o prêmio na curva longa é explicado sobretudo por:
– preocupação com a trajetória fiscal e o nível de endividamento público;
– incerteza sobre o desenho da política fiscal para 2027 e 2028;
– risco de inflação mais alta adiante.
Ela argumenta que juros reais nessa magnitude são difíceis de sustentar no médio e longo prazo, o que pode representar oportunidade para “travar” taxas altas hoje. A contrapartida é o risco de marcação a mercado: oscilações relevantes no preço dos títulos ao longo do caminho, caso o mercado reavalie o risco fiscal ou a inflação esperada.
Como inflação, energia e El Niño entram na conta do investidor?
A dinâmica de preços é central nesse debate. Carol chama atenção para três frentes de risco inflacionário:
1. Inflação corrente: ainda relevante, mesmo com movimentos pontuais de alívio.
2. Energia e petróleo: choques de oferta ou tensões geopolíticas podem pressionar combustíveis e, por tabela, outros preços.
3. Fenômeno climático El Niño: com potencial de afetar safras agrícolas e preços de alimentos.
A economista menciona uma estimativa da IQ de que o El Niño poderia adicionar até 1,5 ponto percentual ao IPCA, especialmente via alimentos, até meados de 2027, dependendo da intensidade do fenômeno. Essa estimativa é de casa de análise e não constitui dado oficial.
A situação do El Niño e seus possíveis impactos são monitorados por órgãos como o [Instituto Nacional de Meteorologia (INMET)](https://www.gov.br/inmet/pt-br) e o [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE)](https://www.gov.br/inpe/pt-br), que divulgam boletins e estudos sobre clima e seus efeitos potenciais.
Para a carteira, isso significa que ativos capazes de repassar inflação tendem a ser relevantes, como empresas com poder de preço e títulos indexados ao IPCA. Mas também reforça a necessidade de não depender apenas de um cenário benigno para alimentos e energia.
Prefixados curtos e NTN‑B intermediárias fazem sentido agora?
Na parte de estratégias, Carol indica que o investidor estaria hoje sendo “bem remunerado” para assumir risco em Brasil, sobretudo em:
– Prefixados mais curtos, com vencimentos ao redor de 2029, que, à época, negociavam em torno de 14,5% ao ano, embutindo inflação implícita acima das expectativas de mercado, segundo a IQ.
– NTN‑B / Tesouro IPCA+ intermediárias, com vencimentos em torno de 2032, oferecendo juros reais elevados, na visão da casa.
As características desses instrumentos, de forma geral, podem ser resumidas assim:
| Tipo de título | Indexador | Horizonte típico citado por Carol | Qual o atrativo? | Qual o risco incômodo? |
|---|---|---|---|---|
| Pós-fixado atrelado à Selic | Selic | Curto prazo | Acompanha a taxa básica, menor volatilidade de preço | Perde atratividade se a Selic cair mais rápido |
| Prefixado mais curto | Taxa fixa | Até ~2029 | Travar taxa nominal alta hoje | Sofre se a inflação ou o prêmio de risco subirem |
| NTN‑B / Tesouro IPCA+ interm. | IPCA + juro real | Em torno de 2032 | Proteção contra inflação + juro real elevado | Forte oscilação de marcação a mercado no caminho |
Os níveis de taxa citados por Carol refletem o momento da gravação e precisam ser conferidos nos dados atualizados da dívida pública e das emissões de títulos da União, disponíveis no [Tesouro Transparente](https://www.tesourotransparente.gov.br).
O ponto incômodo é que essas oportunidades não vêm sem risco. Quanto maior o prazo do título, maior a sensibilidade às mudanças na curva de juros e no risco fiscal. Para muitos investidores, isso pode significar carregar oscilações relevantes no valor de mercado do papel antes de, eventualmente, colher o retorno contratado no vencimento.
Como o cenário eleitoral pode mexer com a curva de juros?
A economista ressalta que o risco eleitoral hoje está menos em “quem vence” e mais em quais propostas fiscais serão apresentadas para 2027 e 2028:
– não há, por enquanto, clareza sobre qual será o plano para estabilizar e reduzir o endividamento público;
– a campanha tende a detalhar compromissos de gasto, arrecadação e reformas estruturais.
O calendário eleitoral e as regras das eleições são definidos pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que centraliza as informações em seu portal oficial [tse.jus.br](https://www.tse.jus.br). À medida que candidaturas e programas de governo avançam, o mercado reprecifica a curva de juros conforme a percepção sobre o compromisso com o equilíbrio fiscal.
Enquanto essa definição não ocorre, Carol espera manutenção de juros reais elevados, especialmente na parte longa da curva, como forma de compensar o risco fiscal percebido pelos investidores.
Como montar carteira diversificada sem correr risco excessivo?
Na visão de Carol, o desenho de carteira num ambiente de juro real alto, inflação ainda relevante e incerteza eleitoral passa por três eixos:
1. Ativos reais e indexados ao IPCA
– Títulos públicos e privados atrelados ao IPCA ajudam a preservar o poder de compra.
– A lógica é que, se a inflação surpreender para cima, o cupom e o principal corrigidos pelo índice atuam como proteção parcial.
2. Diversificação entre prazos e indexadores
– Combinação de pós-fixados, prefixados mais curtos e NTN‑B intermediárias reduz a dependência de um único cenário de juros.
– Evitar concentração excessiva em prazos muito longos é uma forma de limitar o impacto de choques fiscais e eleitorais sobre a marcação a mercado.
3. Exposição internacional em moeda forte
– Carol vê a diversificação internacional como “bastante interessante” para o investidor brasileiro.
– Ativos em moeda forte ajudam a mitigar riscos específicos do Brasil, como choques fiscais, políticos ou climáticos domésticos.
Um roteiro possível para organizar as decisões, sem caráter de recomendação, é:
1. Mapear objetivos e prazos
– Separar metas de curto, médio e longo prazo.
– Checar se faz sentido correr o risco de carregar títulos até o vencimento.
2. Definir o nível de volatilidade aceitável
– Entender quanto de oscilação de preço é tolerável em cada objetivo.
– Lembrar que NTN‑B e prefixados longos podem oscilar muito antes do vencimento.
3. Distribuir entre Brasil e exterior
– Decidir qual fatia da carteira ficará em ativos domésticos e qual será exposta a moedas fortes.
– Levar em conta renda, despesas em reais e eventuais planos no exterior.
4. Rever a carteira a cada mudança relevante
– Acompanhar as decisões do Copom no site do [Banco Central](https://www.bcb.gov.br) e os dados de inflação do [IBGE](https://www.ibge.gov.br/estatisticas/economicas/precos/9256-indice-nacional-de-precos-ao-consumidor-amplo.html).
– Reavaliar alocação quando houver mudanças importantes em Selic, IPCA, fiscal ou cenário eleitoral.
As informações discutidas por Carol têm caráter informativo e educacional e refletem a visão da convidada no momento da gravação. Elas não substituem a análise individual de perfil de risco e não configuram recomendação de investimento. Para decidir onde alocar recursos, o investidor deve considerar seus objetivos e, se necessário, buscar orientação de profissional autorizado pelos órgãos reguladores.
Assista ao vídeo abaixo:
















