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A inteligência artificial não está roubando empregos. Está desmascarando previsões.

Fabio OngaroPor Fabio Ongaro
17/08/2026

Nos últimos dois anos, criou-se uma espécie de esporte mundial: prever o fim do trabalho humano. Bastava mencionar inteligência artificial para alguém anunciar que milhões de empregos desapareceriam em poucos meses. Consultorias produziram gráficos apocalípticos, economistas revisaram projeções e uma parte do Vale do Silício parecia vender o futuro como se fosse um enorme escritório vazio, ocupado apenas por computadores conversando entre si. A realidade, como costuma acontecer, mostrou-se menos cinematográfica.

Os Estados Unidos, laboratório natural dessa transformação, começam a produzir um diagnóstico bastante diferente daquele imaginado até pouco tempo atrás. Em vez de uma onda de desemprego tecnológico, o que se observa é um movimento curioso: empresas que haviam congelado contratações estão voltando a contratar. Não porque a inteligência artificial tenha fracassado, muito pelo contrário. Descobriram que ela funciona muito melhor quando existem pessoas competentes para utilizá-la. É uma diferença enorme.

Duas pesquisas recentes ajudam a explicar esse fenômeno. De um lado, o Google analisou milhões de interações anônimas realizadas com o Gemini. De outro, o Wall Street Journal ouviu presidentes e executivos das maiores empresas americanas. Os dois estudos chegam praticamente à mesma conclusão: nesta primeira fase da revolução da IA, o maior impacto não é substituir pessoas, mas torná-las muito mais produtivas.

Talvez o maior erro tenha sido imaginar a inteligência artificial como um robô humanoide sentado na cadeira do funcionário. A imagem era ótima para filmes. Apenas não descrevia o mundo real.

Na prática, a IA se parece muito mais com uma calculadora sofisticada, um GPS intelectual ou um nível a laser nas mãos de um engenheiro. Ela acelera, organiza, sugere e resume, mas continua dependendo de alguém capaz de fazer a pergunta correta e, principalmente, reconhecer quando a resposta está errada. Esse detalhe muda tudo.

Um advogado continua responsável pelo contrato. Um médico, pelo diagnóstico. Um jornalista, pela apuração. Um executivo, pela decisão. A inteligência artificial pode produzir uma primeira versão em segundos, mas decisões importantes nunca foram apenas uma questão de velocidade.

Existe um velho princípio da economia segundo o qual a tecnologia substitui tarefas, não necessariamente profissões. A IA parece confirmar exatamente essa lógica. As atividades repetitivas desaparecem primeiro; aquelas que exigem julgamento, experiência, contexto e responsabilidade permanecem extraordinariamente humanas.

Aliás, uma das maiores ironias desse processo talvez esteja justamente aí. Durante anos repetiu-se que os trabalhadores manuais seriam os últimos a serem afetados pela inteligência artificial. Descobriu-se agora que eletricistas, mecânicos e técnicos utilizam IA diariamente para interpretar diagramas, identificar defeitos por fotografias e acelerar diagnósticos. Em alguns casos, usam essas ferramentas até mais intensamente do que profissionais de escritório. A revolução digital entrou na oficina antes mesmo de terminar de convencer parte dos escritórios.

Outro mito também começa a cair. Muitas empresas haviam praticamente interrompido a contratação de jovens profissionais. A lógica parecia simples: por que investir na formação de novos talentos se, em poucos anos, algoritmos fariam esse trabalho? A resposta apareceu mais rapidamente do que se imaginava. Porque alguém precisa operar os algoritmos, supervisioná-los, treiná-los e, principalmente, assumir a responsabilidade quando eles erram.

A experiência prática mostrou que a inteligência artificial não elimina a necessidade de capital humano. Ela aumenta o valor do capital humano qualificado. Não por acaso, diversas empresas americanas voltaram a contratar justamente profissionais em início de carreira. Existe uma razão econômica bastante objetiva: jovens cresceram em um ambiente digital, aprendem essas ferramentas com enorme velocidade e chegam ao mercado com uma familiaridade que muitas gerações anteriores precisaram desenvolver depois de décadas de carreira.

Isso não significa que o futuro esteja garantido. Seria ingenuidade imaginar que os modelos atuais representam o estágio final dessa transformação. Não representam. Daqui a cinco ou dez anos, a automação poderá ser muito mais profunda do que é hoje. Algumas profissões certamente serão redesenhadas, outras talvez desapareçam e muitas novas surgirão. Mas existe uma diferença importante entre antecipar tendências e transformar especulação em manchete.

Nos últimos anos confundimos frequentemente previsão com certeza. Foi exatamente esse excesso de convicção que produziu manchetes afirmando que programadores desapareceriam, advogados seriam dispensados, médicos perderiam espaço e universidades deixariam de fazer sentido. Nada disso aconteceu. O mercado fez aquilo que mercados normalmente fazem: adaptou-se.

As empresas aprenderam que produtividade não nasce apenas da tecnologia. Ela nasce da combinação entre tecnologia, organização e pessoas. Talvez essa seja a principal lição desta primeira fase da inteligência artificial.

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A vantagem competitiva não pertence à empresa que possui o algoritmo mais sofisticado. Pertence à empresa que consegue combinar inteligência artificial com inteligência humana. Parece uma conclusão óbvia. Mas basta lembrar as previsões feitas apenas dois anos atrás para perceber que, hoje, ela soa quase revolucionária.

A inteligência artificial continua sendo uma das maiores transformações tecnológicas da história. Apenas não da maneira como muitos imaginaram. Ela não está esvaziando escritórios nem destruindo empregos em massa. Está mudando a forma de trabalhar e, sobretudo, tornando a incompetência mais visível.

Porque, quando uma máquina passa a executar toda a parte mecânica do trabalho, sobra apenas aquilo que realmente diferencia um profissional: capacidade de julgamento, criatividade, relacionamento, responsabilidade e visão. Pelo menos até agora, ainda não existe algoritmo capaz de substituir isso.

*Coluna escrita por Fabio Ongaro, economista, empresário italiano no Brasil e CEO da Energy Group  

*As opiniões transmitidas pelo colunista são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da BM&C News.

*Leia mais colunas do autor aqui.

ESCRITÓRIO

Foto: Gerada por IA

Tags: capital humanoempregosfuturo do trabalhogeminigoogleInovaçãointeligência artificialinteligência humanamercado de trabalhomercado de trabalho nos EUAprodutividadeQualificação ProfissionalTECNOLOGIAtransformação digitalWall Street Journal

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