Pesquisas recentes mostram que 70% dos eleitores já decidiram seu voto. Há ainda 30% indecisos ou convencidos que não têm interesse em nenhum dos candidatos disponíveis. Como aconteceu em 2022, a eleição deverá ser decidida por uma margem mínima e novamente a vitória será de responsabilidade dos eleitores independentes, aqueles que estão fora das bolhas ideológicas.
Por enquanto, a principal bandeira do PT é evitar que o bolsonarismo chegue ao Planalto. Do outro lado do campo, os apoiadores de Flávio Bolsonaro têm como principal mote barrar mais um mandato de Luiz Inácio Lula da Silva. Estamos, assim, mais uma vez no dilema de voltar naquele que julgamos o proponente “menos pior”.
Ocorre que os independentes não querem apenas ouvir críticas. Desejam, neste momento, analisar propostas concretas e entender o que os principais nomes que disputam o Planalto pensam sobre o país. Mas, por enquanto, não é isso que vamos na arena política. Existem programas, obviamente, mas candidatos e cabos eleitorais não falam deles. E isso é um problema.
Temos, diante de nós, um cenário que demonstra mudanças significativas em termos comportamentais e tecnológicos. Quer um exemplo? A relação dos indivíduos com o trabalho mudou. Não é só a uberização de determinadas atividades; a relação com a atividade profissional, especialmente entre as novas gerações, está evoluindo. Entre os mais velhos, a maioria buscava um emprego. Hoje, porém, os jovens querem se manter motivados no trabalho, buscando inspiração e propósito. Temperando tudo isso, há uma onda de ambição forte no ar, diferente daquela que vimos nos anos 1980, com os yuppies.
A juventude atual não está necessariamente buscando dinheiro fácil. Quer progredir na vida, mas tem um compasso comportamental que passa pelo ambientalismo e pela diversidade, sem que estar necessariamente engajada na cultura woke. Esse caldeirão cultural provoca perguntas que os políticos atuais não estão respondendo.
A principal é o efeito da Inteligência Artificial em nossas vidas. O. K., ninguém sabe ao certo o que ocorrerá. Mas os candidatos a presidente precisam mostrar preocupação sobre o tema e, ao mesmo tempo, encontrar propostas para lidar com os efeitos da disseminação da IA. Especialmente sobre o que fazer com um contingente enorme de pessoas que será desligado de funções repetitivas e que não agregam valor às empresas. Vamos entrar em uma fase “do-it-yourself” radical, sem praticamente assistência nenhuma para atividades que antes necessitavam de humanos para serem realizadas. Tal fenômeno vai gerar um desemprego enorme, mas ninguém está pensando nisso.
Não adianta, porém, encarar essa mudança tecnológica e econômica com uma visão sindicalista, tentando manter funções que se tornarão (ou já se tornaram) obsoletas. Precisamos encontrar uma solução para que esses indivíduos tenham uma ocupação e renda. Essa questão é uma bomba-relógio que precisa desarmada a partir de agora.
O mesmo raciocínio vale para o combate ao crime organizado e à preservação da segurança pública. Entramos em um estágio no qual a bandidagem evoluiu muito mais que o Estado e a sociedade. Os candidatos, cada um a seu modo, fala mais em repressão e punição – questões importantes, mas que não resolvem a infiltração dos criminosos no mundo empresarial e a ruptura do tecido social que preservava a classe média. Não é à toa que vemos quase diariamente empresas ligadas às facções criminosas sendo desbaratadas. Além disso, a preocupação com assaltos e violência urbana atingem mais de dois terços da população.
O que fazer para combater verdadeiramente esses problemas? Nenhum candidato, até agora, parece ter investigado a fundo essas questões e encontrado soluções que de fato possam proporcionar mudanças. Entende-se, até certo ponto, essa abordagem convencional aos desafios brasileiros. Afinal, estamos na época da lacração e das redes sociais.
Mas os eleitores independentes parecem querer mais que isso e buscam propostas originais e sintonizadas com o espírito da atualidade. Isso não precisa dominar o debate eleitoral. Mas programas com sugestões concretas precisam surgir rapidamente, sob pena de esse eleitor ficar em casa nos dias de pleito e deixar a eleição ser decidida pelas bolhas que apenas falam mal uma das outra.
*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho, é jornalista, articulista e publisher do portal Money Report. Foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide
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