A volatilidade no preço do petróleo voltou a acender um alerta para a cadeia de embalagens plásticas no Brasil. Como a resina virgem utilizada na produção de PET tem origem em derivados da commodity, oscilações nos preços internacionais podem impactar custos de produção, contratos de fornecimento e planejamento da indústria.
Segundo Irineu Bueno Barbosa Junior, CEO da Cirklo, uma das maiores empresas de reciclagem avançada de PET-PCR da América Latina, a instabilidade recente no mercado de petróleo mostrou que a reciclagem deixou de ser apenas uma agenda ambiental e passou a ocupar também um papel econômico e estratégico.
“A reciclagem não é mais apenas uma pauta ESG, é uma estratégia de hedge financeiro e operacional”, afirmou o executivo.
O petróleo é a principal matéria-prima utilizada na produção das resinas plásticas virgens. Por isso, quando há tensões geopolíticas em regiões relevantes para produção ou transporte da commodity, o mercado tende a reagir com alta de preços e preocupação com possíveis interrupções no abastecimento global.
Mesmo com produção própria de petróleo, o Brasil está inserido em uma cadeia petroquímica global. Dessa forma, aumentos no custo da matéria-prima, restrições logísticas, variações cambiais e instabilidade nos fretes internacionais podem influenciar o preço das resinas utilizadas pela indústria nacional.
Como a alta do petróleo chega às embalagens e a importância do PET reciclado
O impacto da volatilidade do petróleo costuma começar nos produtores de resina, mas rapidamente alcança transformadores, fabricantes de embalagens e empresas que dependem de grandes volumes de PET. Entre os setores mais expostos estão bebidas, alimentos, higiene, limpeza e cosméticos.
A indústria de bebidas tende a sentir primeiro esse efeito, especialmente segmentos como água, refrigerantes, sucos, isotônicos e energéticos. Isso ocorre porque esses mercados utilizam embalagens em larga escala e operam com volumes elevados.
Na sequência, setores como alimentos, higiene pessoal, limpeza doméstica e cosméticos também podem ser impactados. A intensidade varia conforme o tipo de embalagem, a participação da embalagem no custo total do produto, os contratos de fornecimento e a capacidade de repassar aumentos ao consumidor.
Além do preço, a volatilidade reduz a previsibilidade. Em momentos de instabilidade, empresas enfrentam maior dificuldade para planejar compras, negociar contratos de longo prazo e projetar custos futuros.
PET reciclado como alternativa estratégica
Nesse cenário, o PET reciclado pós-consumo, conhecido como PET-PCR, ganha relevância como alternativa para reduzir parte da exposição das empresas à variação do petróleo. Diferentemente da resina virgem, sua origem está no resíduo pós-consumo, coletado e processado dentro do próprio país.
Isso não significa que o PET reciclado esteja livre de custos e pressões econômicas. A produção depende de coleta seletiva, disponibilidade de material, logística, energia e processamento industrial. Ainda assim, ao diversificar a matriz de abastecimento, as empresas reduzem a dependência exclusiva de matérias-primas fósseis.
Para Irineu, o PET-PCR deve ser tratado como um insumo industrial estratégico, com especificação técnica, rastreabilidade, qualidade e contratos de fornecimento consistentes. Quando isso acontece, a reciclagem deixa de ser uma solução pontual e passa a integrar a estratégia de resiliência das companhias.
Regulação aumenta pressão por conteúdo reciclado
Outro fator que reforça essa mudança é o avanço regulatório. O Decreto nº 12.688/2025 estabelece metas progressivas para a incorporação de conteúdo reciclado em embalagens plásticas. Com isso, o uso de resinas recicladas passa a ser também uma necessidade de adequação regulatória.
Empresas que já incorporam PET-PCR tendem a estar mais preparadas para atender às exigências futuras, reduzir riscos de transição e fortalecer compromissos de sustentabilidade.
Segundo o executivo, o decreto não deve ser visto apenas como uma política ambiental. Em um ambiente de instabilidade internacional, ele também funciona como instrumento para fortalecer a segurança de abastecimento da indústria brasileira.
Capacidade existe, mas coleta ainda é gargalo
A indústria brasileira de reciclagem de PET já possui tecnologia e capacidade instalada para atender a uma demanda maior por resina reciclada. Segundo as projeções citadas pela Cirklo, com a evolução das metas previstas no decreto, a demanda por PET-PCR nos primeiros anos pode ficar entre 200 mil e 250 mil toneladas por ano.
A própria Cirklo afirma encerrar 2025 com capacidade instalada de 115 mil toneladas por ano, após um plano de expansão que incluiu a aquisição de uma operação em Maceió, em Alagoas, e a inauguração de uma unidade em Ananindeua, no Pará, em parceria com a Solar Coca-Cola.
O principal desafio, portanto, não está apenas na tecnologia ou na capacidade industrial. O gargalo está na previsibilidade da cadeia, especialmente na coleta seletiva, na logística reversa e no retorno das embalagens pós-consumo ao sistema produtivo.
Segundo o IBGE, apenas 60,5% dos municípios brasileiros afirmam possuir algum tipo de serviço de coleta seletiva. Isso significa que ainda existe um volume relevante de embalagens que poderia ser reciclado, mas acaba destinado a aterros ou descartado de forma inadequada.
Qualidade e rastreabilidade são decisivas
Para setores como alimentos, bebidas e cuidados pessoais, qualidade e rastreabilidade são pontos centrais. De acordo com a Cirklo, os principais players da reciclagem industrial já contam com processos certificados e aprovados para aplicações mais exigentes.
O PET se destaca por ser o principal plástico com processos consolidados para produção de resina reciclada grau alimentício. Órgãos como Anvisa e FDA estabelecem critérios para avaliar se uma resina reciclada pode retornar a aplicações sensíveis, como embalagens para alimentos e bebidas.
Ainda assim, empresas compradoras precisam verificar se seus fornecedores possuem certificações e aprovações necessárias. A autorização é concedida ao processo produtivo de cada fabricante, e não ao material reciclado de forma genérica.
Reciclagem entra na agenda de competitividade
Para a indústria, ampliar o uso de PET reciclado significa reduzir vulnerabilidades ligadas ao petróleo, ao câmbio, aos fretes internacionais e a crises logísticas. Na prática, uma cadeia de reciclagem mais forte pode oferecer maior previsibilidade de fornecimento, estabilidade de custos e segurança operacional.
O avanço da economia circular depende, no entanto, de uma integração maior entre consumidores, cooperativas, operadores de coleta, recicladores, transformadores e marcas. A coleta seletiva precisa avançar, mas a demanda pelo material reciclado também precisa crescer.
Com pressão regulatória, volatilidade de commodities e maior atenção aos custos industriais, o PET reciclado passa a ocupar um espaço mais amplo na estratégia das empresas. Mais do que uma alternativa ambiental, a reciclagem se consolida como ferramenta de abastecimento, gestão de risco e competitividade para a indústria brasileira.















