A governança de inteligência artificial deixou de ser um debate técnico e passou a pautar conselhos e executivos. No programa Conexão Segura, produzido pela BM&C News, especialistas mostram como equilibrar ganho de produtividade com proteção contra riscos de cibersegurança, reputação e dependência de provedores, em um cenário em que a IA já opera em processos críticos de negócio. As principais recomendações se concentram em quatro frentes: controle da shadow AI, gestão de crises, participação ativa da liderança e letramento digital de toda a organização.
A adoção de inteligência artificial (IA) nos negócios já impacta conselhos de administração, áreas de risco e times de tecnologia. No programa Conexão Segura, da BM&C News (bmcnews.com.br), especialistas em segurança e governança mostram que, em 2026, a pergunta-chave não é mais se a empresa deve usar IA, mas como governar esse uso para capturar valor sem ampliar vulnerabilidades.
Os convidados José Luiz, Eduardo Berti, Marcos Ortolani e Adriano Guarato convergem em um ponto: IA é um novo ciclo tecnológico, comparável à internet e à computação em nuvem, e não há retorno. A diferença agora é a escala e a velocidade com que riscos reputacionais, de compliance e de dependência de provedores podem se materializar quando a tecnologia entra no coração do negócio.
Por que governança de IA virou tema de conselho em 2026?
Segundo o Conexão Segura, ainda há conselhos focados apenas em usar IA para reduzir custos e headcount. Outros já tratam o tema como questão de perenidade do negócio, avaliando:
– Risco reputacional em incidentes envolvendo discriminação algorítmica ou uso indevido de dados.
– Risco regulatório e de compliance, em especial em setores regulados.
– Dependência de provedores de IA e nuvem, que pode afetar continuidade operacional.
Na prática, isso desloca a IA da esfera exclusivamente técnica para a agenda estratégica. O conselho passa a perguntar não só quanto se economiza com IA, mas como a tecnologia sustenta o crescimento, sem comprometer imagem e conformidade.
Quais são os principais riscos de IA para a sua empresa?
Os especialistas do programa destacam um conjunto de riscos que se repetem em diferentes setores:
| Tipo de risco | Como aparece na prática |
|---|---|
| Reputacional | Algoritmo de crédito negando sistematicamente clientes de uma região ou grupo social. |
| Compliance/regulatório | Uso de dados sensíveis em ferramentas de IA sem bases legais ou controles adequados. |
| Dependência de provedores | Paralisação de operações se um provedor de IA ou nuvem fica indisponível ou muda regras. |
| Cibersegurança | Vazamento de dados ao colar informações confidenciais em serviços públicos de IA. |
| Escala do erro | Um erro de configuração ou de prompt se multiplica em milhares de interações em minutos. |
Um ponto enfatizado no Conexão Segura é a diferença entre erro humano e erro amplificado por IA. Um e-mail corporativo enviado por engano tende a ter alcance limitado. Já um agente de IA configurado de forma inadequada pode replicar o mesmo erro, em várias frentes, antes que a empresa consiga reagir.
O que é shadow AI e como reduzir esse risco?
O programa define shadow AI como o uso de ferramentas de IA por colaboradores, do estagiário ao CEO, sem conhecimento ou controle da empresa. Exemplos incluem:
– Colar contratos ou planilhas sigilosas em serviços públicos de IA generativa.
– Criar agentes e automações pessoais que acessam dados corporativos fora dos padrões de segurança.
Segundo José Luiz, esse fenômeno é inevitável se a organização se limita a dizer “não pode usar IA”. Marcos Ortolani reforça que proibir tende a empurrar o uso para dispositivos pessoais, onde não há qualquer visibilidade.
As recomendações práticas do Conexão Segura incluem:
1. Reconhecer que o uso já existe, em vez de supor que o bloqueio técnico resolveu o problema.
2. Oferecer alternativas corporativas melhores do que os serviços públicos, com políticas claras de uso.
3. Definir regras simples e comunicadas sobre quais dados podem ou não podem ir para ferramentas de IA.
4. Monitorar e ajustar continuamente esses controles, porque os modelos e usos mudam com o tempo.
Como montar playbooks e um “kill switch” para incidentes de IA?
O Conexão Segura compara simulações de crise digitais aos exercícios de evacuação de prédio. A lógica é preparar a empresa antes do incidente, especialmente quando há IA em processos críticos como concessão de crédito, precificação dinâmica ou atendimento automatizado.
José Luiz descreve um cenário de teste em que uma IA de crédito passa a negar propostas de um grupo específico de clientes. A partir daí, a pergunta é: o que acontece nos primeiros minutos desse incidente?
Os especialistas sugerem construir playbooks com respostas previamente combinadas. Um roteiro básico pode incluir:
1. Detecção e classificação do incidente (gravação de logs, escopo e impacto inicial).
2. Ação imediata sobre o sistema de IA, incluindo a possibilidade de acionar um kill switch para desligar a funcionalidade.
3. Fluxo de decisão claro: quem pode desligar a IA, em quais condições e com qual plano de contingência.
4. Comunicação interna e externa, com ênfase em transparência com clientes, reguladores e imprensa.
5. Revisão pós-incidente, para ajustar modelo, dados de treinamento, processos e governança.
O ponto incômodo destacado no programa é que não existe mais neutralidade: empresas com IA em processos centrais que não ensaiam cenários de crise aceitam, na prática, um risco maior de dano prolongado quando algo dá errado.
Como engajar pessoas e áreas de negócio na governança de IA?
Os convidados reforçam que tudo é feito por pessoas e para pessoas. Alguns recados-chave do Conexão Segura:
– Tecnologia deixou de ser backoffice. Segundo Eduardo Berti, ela passou a mover indicadores como EBIT e a influenciar diretamente a percepção do conselho.
– A área de tecnologia não é mais só “entrega”, mas coprodutora de valor, cocriando produtos e jornadas digitais com as áreas de negócio.
– Letramento e conscientização são mais efetivos que vigilância ou discurso de punição.
Marcos Ortolani destaca o papel do C-level e dos conselhos como patrocinadores da agenda de IA, não apenas receptores de relatórios. Em vez de receber apenas contagem de vulnerabilidades ou incidentes, essas instâncias devem enxergar:
– Onde a IA está sendo usada em processos-chave.
– Quais riscos financeiros e operacionais estão associados a cada uso.
– Que controles já existem e qual é o risco residual.
Que passos práticos adotar para começar a governar a IA na empresa?
Com base nas entrevistas do Conexão Segura (bmcnews.com.br), uma trilha inicial de implementação pode seguir estes passos:
1. Mapear o uso atual de IA
– Levantar, com as áreas de negócio, onde já há IA embutida em sistemas ou fluxos.
– Identificar usos pessoais relevantes (shadow AI) que impactam dados corporativos.
2. Definir princípios de uso e papéis de responsabilidade
– Estabelecer diretrizes simples sobre dados permitidos, finalidades e supervisão humana.
– Nomear responsáveis de negócio por cada agente ou solução de IA relevante.
3. Criar um núcleo de governança de IA
– Integrar tecnologia, segurança, jurídico, risco e áreas de negócio.
– Priorizar casos de uso alinhados à estratégia e com riscos avaliados.
4. Desenhar playbooks e mecanismos de desligamento
– Documentar respostas para vieses, vazamento de dados e falhas em escala.
– Formalizar quem aciona o kill switch e quais rotas de contingência entram em operação.
5. Investir em letramento digital contínuo
– Treinar colaboradores sobre riscos, boas práticas e limites de uso.
– Atualizar os conteúdos à medida que surgem novos modelos e casos de uso.
Na prática, a mensagem central do Conexão Segura é que governança de IA não é freio para o negócio, mas condição para usar a tecnologia como vantagem competitiva em 2026. O ponto de partida não é uma arquitetura perfeita, e sim a decisão explícita da liderança de tratar IA como tema de negócio, com riscos e oportunidades mapeados e geridos de forma contínua.
Assista ao vídeo abaixo:

















