Pablo Marçal pode nem chegar à urna em outubro e, ainda assim, ser um dos personagens mais importantes da eleição presidencial. O empresário registrou sua candidatura pelo PRTB no TSE no último dia do prazo, depois de obter uma liminar que reconheceu provisoriamente sua filiação partidária retroativa. Mas registro não significa candidatura deferida. Marçal continua enfrentando um obstáculo jurídico concreto: está inelegível em razão de condenação eleitoral confirmada pelo TRE-SP e precisa reverter ou suspender essa situação para efetivamente disputar a Presidência. É justamente aí que começa a parte mais interessante dessa história.
Enquanto o tribunal discute se ele será ou não candidato, Marçal já conseguiu o que queria: voltou ao centro da conversa política nacional. E numa eleição em que pesquisas recentes mostram Lula e Flávio Bolsonaro separados por poucos pontos em eventuais segundos turnos, qualquer personagem capaz de deslocar uma parcela relevante do eleitorado pode mudar o resultado. O problema para a esquerda é evidente: surge alguém com discurso antissistema capaz de conversar com um eleitor insatisfeito que não necessariamente se identifica com a direita tradicional. O problema para a direita talvez seja ainda maior: Marçal disputa diretamente atenção, linguagem e eleitorado com o bolsonarismo. Por isso, a discussão sobre seu futuro não termina numa decisão judicial. O TSE não deve deixar Marçal entrar nas urnas urna, mas nenhuma decisão judicial consegue retirá-lo da eleição.
A eleição de São Paulo em 2024 deveria ter ensinado essa lição. Marçal terminou o primeiro turno com 1.719.274 votos, ou 28,14% dos válidos, apenas 56.853 votos atrás de Guilherme Boulos. Não foi um aventureiro digital fazendo barulho para terminar com 3%. Ele quase chegou ao segundo turno na maior cidade do Brasil enfrentando Boulos, apoiado por Lula, e Ricardo Nunes, que contou com o apoio de Bolsonaro. E fez isso adotando uma estratégia que parecia suicida para a política tradicional: bateu em todo mundo.
Só que aquilo que os políticos enxergavam como confusão, era, muitas vezes, distribuição. Cada adversário indignado, cada entrevista repercutida, cada corte compartilhado e cada resposta pública ampliava gratuitamente seu alcance. Marçal entendeu antes de quase todos que, na economia da atenção, ódio, crítica e indignação também distribuem conteúdo. Seu eleitorado paulistano era majoritariamente bolsonarista, mas não exclusivamente: pesquisa Datafolha mostrou que 62% dos seus eleitores se declaravam bolsonaristas e 24% se posicionavam no centro. Isso ajuda a explicar por que ele se tornou tão incômodo.
Existe um eleitor que não se considera militante de esquerda, tampouco encontra identificação automática na direita tradicional. É o sujeito preocupado com supermercado, dívida, emprego, crédito e renda, que pode ter votado na esquerda porque acreditava que sua vida melhoraria e que agora está disposto a ouvir outra história. Marçal fala justamente com esse eleitor usando uma linguagem que Brasília frequentemente despreza porque ainda confunde simplicidade com falta de estratégia.
Foi também em São Paulo que Marçal mostrou sua maior fraqueza. Na reta final, divulgou nas redes sociais um documento falso contra Boulos, posteriormente retirado por determinação da Justiça Eleitoral. Foi um erro amador numa campanha digital que, até aquele momento, havia demonstrado enorme eficiência. Não é possível afirmar seriamente que aquele episódio, sozinho, tenha custado sua vaga no segundo turno, mas é impossível ignorar que ele terminou somente 56.853 votos atrás de Boulos.
Agora, porém, o palco é nacional e Marçal parece ter entendido que talvez nem precise vencer a batalha jurídica para ganhar politicamente com ela. Cada decisão contra sua candidatura pode virar conteúdo. Cada adversário que o atacar ajuda a espalhar seu nome. Cada entrevista, provocação e vídeo coloca novamente seu rosto diante de milhões de pessoas que talvez nem acompanhassem a eleição neste momento. Poucos políticos brasileiros compreendem tão bem essa engrenagem.
Nikolas Ferreira provavelmente é um dos raros nomes capazes de competir com ele nesse terreno. A diferença é que Marçal transformou o conflito permanente em método: ataca esquerda, direita, governo, oposição e quem mais estiver produzindo atenção naquele dia. Parece desorganização para quem observa a política com a cabeça de 2006. Para quem entende redes sociais, existe uma lógica bastante clara: quando todo mundo responde a você, todo mundo trabalha para você.
E quanto mais tentarem tratá-lo simplesmente como um fanfarrão, maior o risco de repetir o erro cometido por seus adversários em São Paulo, que demoraram demais para perceber que o personagem da internet já havia se transformado em candidato competitivo. Aceite, Pablo Marçal pode ser o cavalo de Tróia, cujo o seu apoio decidirá o resultado apertado das eleições no segundo turno.
*Coluna escrita por Fabrizio Gueratto, especialista em investimentos com mais de 20 anos de experiência no mercado financeiro. Foi sócio do Banco Modal, é professor de MBA em Finanças, autor do livro “De Endividado a Bilionário”, fundador da Gueratto Press e criador do Canal 1Bilhão, que soma quase 21 milhões de visualizações no YouTube.
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