A economista Zeina Latif, em sua coluna no jornal “O Globo”, defendeu ontem a tese de que a economia brasileira apresenta um desempenho em forma da letra K (“k-shaped economy”). De um lado, a classe alta é menos afetada pela desaceleração da economia, enquanto os mais pobres apertam o cinto. Este fenômeno é visto na exuberância de mercados como o de automóveis e nos gastos recordes com viagens ao exterior, comparados com a retração na venda de bens duráveis.
Mas o fenômeno não se restringe apenas à diferença no padrão de vida dos brasileiros. Há setores que estão bombando e outros que passam por perrengues diários. A fronteira que separa os dois brasis econômicos é o prazo de vendas. Quem depende do salário do mês do cliente está crescendo. Já aqueles que dependem de financiamento de longo prazo estão sofrendo.
De um lado, temos o desemprego em uma taxa mínima histórica, que sustenta a massa salarial e mantém intacta a capacidade de consumo das famílias. De outro, temos juros nas alturas: a Selic deve atingir o patamar de 13,25% ao final de 2026, um nível que torna proibitivo qualquer compromisso financeiro de prazo longo.
Quando combinamos esses dois fatores, temos uma situação complicada para alguns segmentos: o país encerrou o primeiro trimestre com quase 6.000 companhias em recuperação judicial, alta de 21,5% em um ano, além de 8,7 milhões de CNPJs negativados em janeiro. Quem vende e recebe no curto prazo, assim, vai bem; quem depende de financiamentos, vai mal. Vejamos o que ocorre dentro de um mesmo setor.
Automóveis e comerciais leves cresceram 15,54% em julho em relação ao mesmo mês do ano anterior, enquanto ônibus e caminhões acumularam queda de 9,09% no primeiro semestre. Carro de passeio é decisão de família que cabe no orçamento mensal. Caminhão é decisão de investimento empresarial que exige crédito de longo prazo.
Entre os que sofrem, chama a atenção o caso de uma das locomotivas econômicas, o agronegócio. O setor fechou junho com 1.304 CNPJs em recuperação judicial, alta de 71,4% em doze meses, e apresenta índice de 14,42 empresas em recuperação por mil ativas, contra média nacional de 2,18. Considerada a cadeia inteira, o agro responde por um em cada cinco processos de recuperação do país. A crise se espalha por arrasto para o setor sucroenergético, que registra a maior taxa proporcional de insolvência entre todos os segmentos da ecoomia.
Junte-se a esse grupo a construção civil residencial, o varejo de bens duráveis, a indústria química de grande porte e o universo das pequenas empresas. O traço comum é conhecido de quem administra o caixa: muitas dessas companhias têm demanda e faturamento. Ainda assim, sucumbem à asfixia financeira.
Só existe uma forma de resolver a situação que tem precisa de fôlego econômico: um plano consistente para baixar os juros. Isso somente será possível com uma política fiscal eficiente, que passa necessariamente pela redução de gastos públicos. Isso, porém, é algo que não deve ocorrer neste ano.
Se Flávio Bolsonaro for eleito, é de se esperar uma reorganização econômica para colocar as contas do governo em ordem. E se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva conseguir a reeleição? Muitos economistas apontam que mesmo o PT terá de efetuar um ajuste fiscal a partir de 2027.
Ocorre que isso é o que se esperava no segundo mandato de Dilma Rousseff, especialmente quando ela escolheu Joaquim Levy para tocar a economia, prometendo um aperto fiscal. O que tivemos, no entanto, foi uma reação virulenta do PT ao ajuste nos gastos públicos. Depois alguns meses enfrentando o fogo amigo, Levy pediu o boné e o governo voltou a gastar como se não houvesse amanhã. No caso de vitória de Lula, a história se repetiria ou os petistas surpreenderiam a todos apoiando um orçamento mais enxuto?
A possibilidade de o PT apoiar um ajuste fiscal, convenhamos, é nula. O Planalto até pode seguir nessa direção. Mas deputados, senadores e dirigentes partidários jamais vão adotar essa cartilha.
*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho, é jornalista, articulista e publisher do portal Money Report. Foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide
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