Quando Margaret Thatcher esteve no Brasil, a convite de EXAME e do então Banco Garantia, tive a oportunidade de passar um dia e meio com a Dama de Ferro. Durante conversa que teve com empresários em um hotel paulistano, ela se lembrou de uma discussão com o presidente George Bush (sênior), que se recusou a apoiá-la em uma ofensiva militar. A justificativa de Bush foi a de que, naquele momento, seria preciso “buscar o consenso” dos outros países sobre a situação. Thatcher discordou de Bush e disparou: “O consenso é a negação da liderança”.
Esta frase – uma cutucada elegante naquilo que considerava frouxidão do presidente americano – tem significados profundos. Todos nós queremos ser admirados e amados. Faz parte da natureza humana querer que os outros gostem de nós.
No entanto, aqueles que estão preocupados em construir reputação devem deixar esse desejo de lado. Nos dias de hoje, com as redes sociais, nem Madre Teresa de Calcutá seria uma unanimidade. Assim, qualquer pessoa que ganhar notoriedade estará automaticamente sob a lupa de milhares ou milhões de pessoas. Diante disso, haverá críticas e discordâncias sobre suas opiniões, artigos, declarações e postagens. E ataques. Alguns planejados e outros criados ao sabor do momento.
O fato é que, ao construir um perfil alto e de credibilidade, é preciso de exposição e de ousadia. Ninguém consegue se projetar dizendo mais do mesmo. Mas não basta criar polêmicas vazias ou lacrações sem lastro. Essa estratégia pode dar fama a uma determinada pessoa. Mas reputação é outro capítulo. Para se tornar referência sobre um tema em particular, é preciso mostrar autoridade e domínio sobre determinado assunto (ou assuntos).
Realizações e conquistas também ajudam. Tome-se o exemplo de Steve Jobs. Ele já era um enfant terrible da tecnologia quando criou a Apple, mas se consolidou como uma referência de inovação depois de criar a Pixar e o iPhone.
Sem esse estofo, esqueça uma eventual ambição de se tornar referência sobre qualquer coisa. É preciso ter profundidade sobre aquele tema a respeito do qual você decidiu ser um especialista (ou ter um case de sucesso que servirá de chamariz para o público). Mas vamos supor que esse não seja um problema para você. Seu desafio, então, será o de alimentar essa oferta de conteúdo (ou de realizações) o tempo todo. E ter disciplina para se propor a falar sobre seu assunto.
As redes sociais são um bom ponto de partida. Mas ainda estamos vivendo uma época na qual determinados órgãos de imprensa e sites específicos ainda têm o poder de construir a imagem de experts. Essa deve ser sua prioridade. Conhecer os editores destes veículos e mostrar que suas ideias são originais e dignas de atenção.
Mas cuidado com o tom. Uma frase que ficou muito famosa nos gibis do Homem-Aranha dizia que “com grande poder, vem grande responsabilidade”. Vamos parafrasear essa máxima em relação ao seu desafio de se tornar alguém reconhecido por suas opiniões: “com grande conhecimento, vem uma grande arrogância”.
É óbvio que isso não ocorre com todo mundo. Mas há inúmeros casos de pessoas que se deixam levar pela vaidade e optam sem querer pela soberba, especialmente depois de experimentar alguma dose de sucesso.
Construir reputação é um exercício constante de equilíbrio: ousar o suficiente para ter voz própria, mas manter a humildade de quem sabe que pode errar; buscar profundidade real sobre suas especialidades, mas sem deixar que o conhecimento vire arrogância; aceitar as críticas como parte do jogo, sem se abalar por elas nem as ignorar. Quem espera unanimidade nunca vai construir nada relevante: vai apenas repetir consensos e desaparecer na multidão. Como bem sabia Thatcher, a liderança nasce exatamente onde o consenso termina.
*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho, é jornalista, articulista e publisher do portal Money Report. Foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide
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