“O Datafolha está meio esquisito. Tem quatro candidatos que eu não conheço, que somam 9% do eleitorado. Respeito todos os institutos, mas tenho duas pesquisas internas que estão muito destoantes, fora da margem de erro”. O autor dessa frase é o ex-ministro Fernando Haddad, que a proferiu no último final de semana. Haddad, diga-se, não é o primeiro candidato a se queixar de pesquisas de intenção de voto. Mas achar que as enquetes internas têm mais credibilidade que um instituto independente de pesquisas pode ser ingenuidade ou pura distorção da realidade.
Esses estudos encomendados por campanhas são chamados de ‘trackings”. E, neste mundo, há dois tipos de pesquisas internas. Há aquelas que, de fato, mostram um cenário muito próximo da realidade. Outras, porém, preferem agradar o cliente e turbinar aspectos que mostrem uma competitividade que não existe.
Lembro de dois casos sobre informações colhidas por campanhas eleitorais.
O primeiro diz respeito a uma campanha presidencial. O coordenador de uma campanha me mostrou um tracking diferente da maioria das pesquisas, colocando o seu candidato à frente do oponente. Dez dias depois, as demais enquetes apontaram exatamente o que aquele estudo interno apontava como tendência. Neste caso, o fornecedor foi fidedigno ao cenário político.
A outra situação tem a ver com uma eleição à prefeitura de São Paulo. Um determinado candidato estava mal das pesquisas, mas insistia comigo que seu tracking mostrava sua candidatura em segundo lugar nas intenções de voto. Quando as urnas foram abertas, seu nome foi o sétimo mais votado.
Os estudos feitos pela campanha de Haddad estão mais parecidos com o segundo caso do que com o primeiro. Ontem, por exemplo, outra pesquisa, desta vez do Instituto Real Time Big data, apontou que Tarcísio de Freitas seria eleito ainda no primeiro turno, com 52% das intenções de voto, contra 35% de Haddad.
Há, porém um dado que relativiza a estranheza de Haddad, mas em nenhum momento questiona os resultados divulgados pelo Datafolha, uma vez que a distância entre os dois candidatos era, nesta enquete, de 17 pontos percentuais (contra 18 da Real Time Big Data). Três dos quatro candidatos que somavam nove pontos no Datafolha (Carlos Machado, do PCB; Policial Edjani, Agir; Vivian Mendes, UP; e Izadora Dias, PCO) não aparecem no estudo publicado ontem. Mas o número de indecisos caiu e Haddad pode ter herdado boa parte das intenções que antes estava destinada aos candidatos nanicos de esquerda.
A queixa de Haddad diz mais sobre a dificuldade de aceitar um cenário desfavorável do que sobre falhas reais na metodologia do Datafolha. Duas pesquisas divulgadas em dias seguidos, feitas por institutos diferentes, convergiram para a mesma distância entre Tarcísio e o candidato petista, o que reforça a consistência do quadro eleitoral em São Paulo.
Trackings internos podem até cumprir uma função legítima dentro de uma campanha, orientando ajustes de discurso e prioridades de agenda, mas transformá-los em contraponto público a institutos consolidados costuma revelar mais desespero do que estratégia. A eleição paulista segue com um favorito nítido e o esforço de Haddad para desacreditar os números talvez pudesse ser direcionado no sentido de entender os movimentos do eleitorado de esquerda, que não se traduzem em competitividade real diante de Tarcísio. O problema é que a resposta para essa dúvida é uma só: apenas um milagre faria o PT vencer o pleito em São Paulo.
*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho, é jornalista, articulista e publisher do portal Money Report. Foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide
*As opiniões transmitidas pelo colunista são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da BM&C News.
*Leia mais colunas do autor clicando aqui.















