A Nvidia entregou um dos balanços mais aguardados de Wall Street com números acima das projeções e voltou a colocar a demanda por inteligência artificial no centro das atenções dos investidores. A companhia registrou receita de US$ 96,2 bilhões no segundo trimestre fiscal de 2027, encerrado em 26 de julho, avanço de 106% em relação ao mesmo período do ano anterior.
O resultado ficou acima dos cerca de US$ 92,3 bilhões esperados pelo mercado. O lucro líquido chegou a US$ 59,7 bilhões, alta anual de 126%. No critério contábil GAAP, o lucro diluído foi de US$ 2,46 por ação. Já o lucro ajustado, referência acompanhada por parte dos analistas, ficou em US$ 2,22 por ação, contra consenso próximo de US$ 2,09.
A reação das ações foi imediata. Os papéis da Nvidia chegaram a avançar cerca de 7% no pré-mercado desta quinta-feira (27), após fecharem a sessão anterior a US$ 209,66. A Reuters registrava alta de 6,7% antes da abertura, enquanto uma atualização posterior indicava avanço de 7,4%.
Para o investidor brasileiro, o movimento coloca novamente no radar o NVDC34, BDR da Nvidia negociado na B3. Na quarta-feira (26), antes da divulgação do balanço, o papel terminou cotado a R$ 22,60, queda de 0,96% na sessão.
O que veio no balanço da Nvidia?
O crescimento permaneceu concentrado principalmente no negócio de infraestrutura para inteligência artificial. A divisão de Data Center alcançou receita de US$ 89 bilhões, avanço de 117% em 12 meses e de 18% na comparação trimestral.
O segmento respondeu, portanto, por mais de 90% do faturamento total da companhia no período. O desempenho mostra a dimensão que a expansão de data centers, treinamento de modelos e aplicações de inteligência artificial ganhou dentro dos resultados da Nvidia.
Os principais números do balanço da Nvidia foram:
| Indicador | 2º tri fiscal de 2027 | Variação anual |
|---|---|---|
| Receita total | US$ 96,2 bilhões | +106% |
| Receita de Data Center | US$ 89,0 bilhões | +117% |
| Lucro líquido GAAP | US$ 59,7 bilhões | +126% |
| Lucro por ação GAAP | US$ 2,46 | +128% |
| Lucro por ação ajustado | US$ 2,22 | +120% |
| Margem bruta GAAP | 75,0% | +2,6 p.p. |
A margem bruta de 75% também merece atenção. No mesmo trimestre do ano anterior, ela estava em 72,4% no critério GAAP e 72,5% no ajustado. Isso mostra que a Nvidia conseguiu ampliar a rentabilidade mesmo enquanto aumentava a produção para atender à demanda por infraestrutura de IA.
Por que a ação da Nvidia sobe cerca de 7% após o resultado?
O resultado trimestral superou as projeções, mas uma parte relevante da reação positiva veio das expectativas para os próximos períodos.
A Nvidia prevê receita de US$ 108 bilhões no terceiro trimestre fiscal, com possibilidade de variação de 2% para cima ou para baixo. O valor também supera as projeções que estavam ao redor de US$ 105 bilhões antes da divulgação do balanço.
Além disso, a companhia sinalizou na teleconferência de resultados que a receita pode crescer cerca de 70% no próximo ano fiscal, apesar das limitações de oferta que ainda atingem alguns componentes.
Essas projeções ajudaram a reduzir parte da preocupação de que os investimentos em inteligência artificial estivessem próximos de uma desaceleração mais acentuada.
Antes do resultado, a Nvidia havia passado por uma sequência de sete pregões consecutivos de queda, encerrada na terça-feira (25), quando o papel avançou 2,2%. A sequência havia aumentado a pressão sobre o balanço e refletia dúvidas sobre a capacidade da empresa de continuar superando expectativas cada vez mais elevadas.
Mesmo depois de anos de valorização, o papel acumulava alta de aproximadamente 12% em 2026 até o fechamento anterior à reação pós-balanço.
O guidance da Nvidia confirma que a demanda por IA continua forte?
Os números indicam que a demanda continua crescendo, principalmente em infraestrutura para treinamento e execução de modelos de inteligência artificial.
A Nvidia afirmou que a plataforma Vera Rubin entrou em produção e já está sendo implementada por parceiros como Google Cloud, Microsoft Azure, Oracle Cloud Infrastructure, CoreWeave e Nebius.
O próximo trimestre, porém, também traz um ponto de atenção para a rentabilidade. A companhia projeta:
- Receita: US$ 108 bilhões, com variação de 2%;
- Margem bruta GAAP: 74%, com variação de 0,5 ponto percentual;
- Margem bruta ajustada: 74%, também com variação de 0,5 ponto;
- Despesas operacionais GAAP: cerca de US$ 9,2 bilhões;
- Despesas operacionais ajustadas: aproximadamente US$ 9 bilhões.
A expectativa de margem de 74% representa uma redução em relação aos 75% registrados no segundo trimestre.
Esse ponto ganha importância porque a capacidade de preservar margens elevadas é um dos fatores usados pelo mercado para avaliar até que ponto a Nvidia consegue transformar a expansão do mercado de IA em crescimento de lucro.
Por que o financiamento de data centers virou um risco para a Nvidia?
O forte crescimento operacional não eliminou outra discussão presente entre investidores: a forma como a expansão de infraestrutura de inteligência artificial está sendo financiada.
Em agosto, a Nvidia anunciou parcerias com Apollo, BlackRock, Blackstone, Brookfield, Goldman Sachs e KKR para criar plataformas destinadas a mobilizar mais de US$ 500 bilhões em capital de terceiros para projetos de infraestrutura de IA.
A estrutura pretende facilitar o financiamento de data centers e infraestrutura baseada em equipamentos da própria Nvidia. Quanto maior a disponibilidade de capital para esses projetos, maior pode ser a capacidade de clientes comprarem GPUs e outros sistemas da companhia.
É justamente essa relação que passou a ser observada com mais atenção.
Uma análise do Morgan Stanley citada pelo Financial Times estima que a exposição total de crédito ligada a estruturas desse tipo poderia chegar a aproximadamente US$ 200 bilhões até 2028, incluindo compromissos contingentes. Trata-se de uma estimativa dos analistas, e não de uma dívida de US$ 200 bilhões reconhecida no balanço da Nvidia.
A Reuters informou ainda que a Nvidia poderia assumir mecanismos de suporte equivalentes a até US$ 125 bilhões, ou 25% de determinadas operações previstas nessas estruturas. Os termos finais dependem dos acordos de financiamento.
Para o investidor, a discussão pode ser resumida em três pontos:
- quanto da expansão de infraestrutura de IA dependerá de dívida;
- qual será a qualidade financeira dos clientes que utilizam essas estruturas;
- até que ponto a própria Nvidia poderá ficar economicamente exposta a esses financiamentos.
O balanço atual mostra crescimento de receita e lucro, mas o mercado também tenta entender a sustentabilidade financeira do ecossistema que sustenta essa expansão.
O que muda para quem tem NVDC34 na carteira?
Para quem investe na Nvidia pela B3, o NVDC34 permite exposição ao desempenho da companhia nos Estados Unidos sem a necessidade de comprar diretamente a ação NVDA na Nasdaq.
O BDR, porém, não depende apenas do comportamento das ações em Nova York. A cotação também é influenciada pela relação entre real e dólar e pelas características do próprio recibo negociado na B3. Por isso, o NVDC34 não necessariamente terá exatamente a mesma variação percentual registrada pela ação americana em cada sessão.
No curto prazo, três pontos do balanço podem favorecer a leitura do mercado:
- receita acima das expectativas;
- guidance de US$ 108 bilhões para o próximo trimestre;
- crescimento de 117% da divisão de Data Center.
Ao mesmo tempo, alguns indicadores precisam continuar sendo acompanhados:
- evolução da margem bruta;
- custos de memória e capacidade de produção;
- ritmo de investimentos das grandes empresas de tecnologia;
- financiamento dos novos data centers;
- desenvolvimento de chips próprios por grandes clientes e concorrentes;
- capacidade da Nvidia de manter crescimento elevado após uma base de comparação cada vez maior.
Balanço da Nvidia elimina os riscos da tese de inteligência artificial?
Não. Os resultados mostram que, neste momento, a demanda por infraestrutura de inteligência artificial continua avançando em ritmo elevado. A receita mais que dobrou em um ano, Data Center cresceu 117% e a própria companhia prevê novo aumento expressivo no trimestre seguinte.
O balanço da Nvidia, portanto, reduz no curto prazo o receio de uma desaceleração imediata da demanda.
Mas a discussão para o investidor mudou.
Depois de vários trimestres de expansão acelerada, não basta mais confirmar que a inteligência artificial está crescendo. O mercado também quer saber quanto desse crescimento pode ser sustentado, quais margens a Nvidia conseguirá preservar e como serão financiados os investimentos necessários para manter a expansão da infraestrutura.
Para quem acompanha o NVDC34, esses fatores passam a ser tão relevantes quanto o crescimento das vendas de GPUs.
O resultado divulgado nesta semana reforça a posição da Nvidia como principal fornecedora de infraestrutura para a atual expansão da inteligência artificial. Os próximos balanços terão de mostrar se a companhia consegue manter esse crescimento sem deterioração relevante das margens e sem elevar de forma excessiva os riscos financeiros associados ao ecossistema que ajuda a financiar.
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