O IPCA-15 registrou deflação de 0,40% em agosto, resultado melhor que a expectativa do mercado, que apontava para queda de cerca de 0,30%. Em 12 meses, a prévia da inflação desacelerou de 4,52% para 4,24%, voltando a ficar dentro do intervalo de tolerância da meta perseguida pelo Banco Central.
A leitura é positiva para o processo de desinflação, mas a composição do indicador sugere que parte relevante do alívio de agosto não deve se repetir nos próximos meses. Energia elétrica, alimentos e passagens aéreas — três componentes sujeitos a movimentos temporários ou mais voláteis — tiveram peso importante no resultado.
Para o mercado financeiro, portanto, a principal questão depois do IPCA-15 não é apenas o tamanho da deflação, mas quanto dela representa uma melhora persistente da inflação e quanto será devolvido já nas próximas leituras.
É justamente essa diferença que deve determinar o espaço do Banco Central para continuar reduzindo a Selic.
Energia deve devolver parte da queda do IPCA-15 em setembro
A principal contribuição negativa para o índice veio de Habitação, que caiu 1,41% em agosto. Dentro do grupo, a energia elétrica residencial recuou 6,25%, influenciada pelo Bônus de Itaipu concedido nas contas do mês.
O efeito, porém, é temporário.
Segundo Julio Barros, economista do Banco Daycoval, o desconto ajuda a explicar por que o IPCA-15 ficou abaixo das projeções, mas deverá produzir o movimento contrário na leitura seguinte.
“O desconto nas contas de energia elétrica ocorre apenas no mês de agosto e, portanto, no próximo mês, em setembro, nós devemos ver a reversão desse movimento”, afirma.
Isso significa que a inflação mensal pode voltar ao terreno positivo mesmo sem uma deterioração generalizada dos preços. Parte da aceleração esperada para setembro será simplesmente consequência da saída de um desconto que reduziu artificialmente a conta de luz em agosto.
Para o investidor, essa distinção é importante: uma alta do índice no próximo mês não representará necessariamente uma interrupção do processo de desinflação, assim como a queda de 0,40% agora não significa que todas as pressões tenham desaparecido.
Alimentos ajudaram agora, mas podem deixar de ser vetor de queda
Outro destaque foi a alimentação. O grupo Alimentação e bebidas caiu 0,57%, enquanto a alimentação no domicílio recuou 0,97%.
Tomate, batata-inglesa e cenoura estiveram entre os itens que registraram quedas mais expressivas. O tomate recuou 27,38%, a batata-inglesa caiu 25,14% e a cenoura teve redução de 17,05%.
A avaliação do Daycoval, porém, é que parte desse movimento tem caráter sazonal e deve perder força.
“Além disso, a alimentação no domicílio, embora tenha mostrado nova deflação neste mês, apresentou um resultado sazonal. Daqui para frente, o que a gente deve ver são os efeitos prováveis do El Niño sobre os preços dos alimentos, pressionando para o lado altista”, diz Barros.
O risco apontado pelo banco adiciona uma variável relevante para os próximos meses. Uma eventual piora das condições climáticas pode afetar a oferta de produtos agrícolas e reduzir a contribuição favorável que os alimentos deram à inflação recentemente.
IPCA-15 abre espaço para corte maior da Selic?
Apesar da surpresa favorável, a avaliação do Daycoval é que o IPCA-15 de agosto não é suficiente para justificar uma mudança significativa na estratégia do Banco Central.
“Portanto, o número como um todo mostra esses itens mais voláteis puxando a inflação para baixo. Isso, no final das contas, não deve alterar a visão do Banco Central em relação ao quadro inflacionário e, portanto, mantém a nossa expectativa de corte de 0,25 ponto percentual para a próxima reunião”, afirma Barros.
A Selic está atualmente em 14% ao ano, depois de o Copom reduzir a taxa em 0,25 ponto percentual na reunião de agosto. O próximo encontro do Comitê está marcado para 15 e 16 de setembro.













