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ECONOMIA

Aperto na renda pode se refletir no emprego daqui a 12 meses, aponta estudo

O aperto no orçamento das famílias pode produzir efeitos que vão além do aumento das dívidas. Um estudo do IBEVAR-FIA Business School identifica uma cadeia entre perda de renda real, endividamento, inadimplência, enfraquecimento das vendas do varejo e deterioração do mercado de trabalho ao longo de um período de até 12 meses.

A pesquisa utiliza um modelo econométrico de Vetores de Correção de Erros (VECM) para acompanhar como mudanças em renda, inflação, crédito e consumo se relacionam ao longo do tempo. Foram analisados nove indicadores mensais, entre eles endividamento, atraso nas contas, inadimplência, IPCA, rendimento real, nível de ocupação e vendas do varejo.

A principal leitura do estudo é que o endividamento não deve ser observado isoladamente. Quando a renda perde poder de compra, famílias podem recorrer ao crédito para sustentar despesas. O aumento dos compromissos financeiros, por sua vez, eleva o risco de atrasos e inadimplência. Se esse processo afeta o consumo, a transmissão pode chegar ao varejo e, posteriormente, ao emprego.

“O endividamento e a inadimplência das famílias brasileiras não são fruto de imprudência financeira. São um mecanismo de defesa quase mecânico: a inflação corrói a renda, o crédito cobre o supermercado, o atraso nas contas vira calote e o comércio, sem vender, corta vagas. Nosso modelo mostra que esse ciclo se completa em até 12 meses”, afirma Claudio Felisoni, presidente do IBEVAR e professor da FIA Business School.

Perda de renda ajuda a explicar avanço do endividamento

Um dos resultados do modelo está na relação entre poder de compra e dívida.

Segundo o estudo, 22,3% da variância do endividamento das famílias no horizonte de 12 meses está associada a choques no rendimento real e nas vendas do varejo restrito, segmento que contempla atividades ligadas a uma parcela importante do consumo cotidiano.

A leitura dos pesquisadores é que o recurso ao crédito pode funcionar como uma forma de acomodar a redução do poder de compra antes que a família consiga ajustar integralmente suas despesas.

Isso muda a interpretação sobre o avanço das dívidas: em vez de atribuí-lo exclusivamente à expansão voluntária do consumo, o estudo aponta para uma relação relevante com a pressão sobre a renda disponível.

Nesse processo, juros elevados aumentam o risco. Quanto maior o custo para financiar despesas ou carregar saldos de cartão de crédito e outras linhas, mais difícil fica reorganizar o orçamento depois de um choque de renda.

Pequenos atrasos podem evoluir para inadimplência mais grave

A segunda etapa identificada pela pesquisa aparece na passagem do endividamento para a inadimplência.

No modelo, 65,1% da variância da inadimplência em recursos livres no horizonte de 12 meses está relacionada a choques na inadimplência total do sistema.

As linhas de recursos livres incluem modalidades cujo custo para o consumidor pode ser elevado, como cartão de crédito e cheque especial.

A leitura é que a deterioração financeira tende a ocorrer progressivamente. Um orçamento pressionado pode começar com atraso em uma obrigação e, caso a renda não se recupere ou o custo financeiro continue elevado, avançar para situações mais persistentes de inadimplência.

Esse mecanismo também cria um efeito sobre a própria oferta de crédito. À medida que o risco dos tomadores aumenta, instituições financeiras podem incorporar esse risco nas condições oferecidas, dificultando a saída das famílias mais pressionadas.

Varejo aparece como elo entre consumo e emprego

É no mercado de trabalho que o efeito da deterioração financeira das famílias ganha uma dimensão mais ampla.

De acordo com a decomposição de variância utilizada no estudo, 21,8% das oscilações no nível de ocupação em até 12 meses estão associadas às vendas do varejo restrito. Entre os fatores externos analisados no modelo, o varejo é o que apresenta maior contribuição para as variações do emprego nesse horizonte.

A relação ajuda a explicar por que a evolução do consumo é acompanhada de perto em momentos de juros elevados.

Famílias mais endividadas e com uma parcela maior da renda comprometida tendem a ter menos espaço para novas compras. Caso a desaceleração se prolongue, empresas do comércio podem responder reduzindo estoques, investimentos, horas trabalhadas e, em uma etapa posterior, o quadro de funcionários.

O efeito, portanto, não é necessariamente imediato.

O estudo aponta justamente para uma transmissão gradual: o choque começa no orçamento das famílias, passa pelo crédito e pelo consumo e pode alcançar o emprego meses depois.

Inadimplência também aparece relacionada à inflação

A pesquisa identifica ainda uma relação menos evidente entre inadimplência e preços.

Segundo o modelo, 11% da variância das surpresas do IPCA ao longo de 12 meses está associada a choques na inadimplência.

Os pesquisadores interpretam o resultado como parte de um mecanismo no qual o aumento do risco de crédito pode elevar custos financeiros e acabar sendo transmitido, em alguma medida, para preços e condições de financiamento.

O resultado não significa que 11% da inflação seja causada diretamente pela inadimplência. O percentual representa a participação encontrada pelo modelo econométrico na decomposição das variações do indicador ao longo do horizonte analisado.

Essa distinção é importante porque o estudo mede relações dinâmicas entre as variáveis, e não uma relação causal simples entre um único fator e a inflação.

O que pode acontecer nos próximos 12 meses?

Além de analisar as relações históricas, os pesquisadores construíram dois cenários para os próximos 12 meses, período que coincide com um ambiente econômico influenciado pelo calendário eleitoral de 2026.

No cenário considerado de agravamento, os autores atribuem probabilidade subjetiva de 55%. A hipótese considera inflação resistente acima da meta acompanhada por piora do ambiente fiscal e político.

Nesse quadro, juros e custo do crédito poderiam permanecer elevados por mais tempo, aumentando a pressão financeira sobre as famílias. O encadeamento considerado no estudo seria de maior endividamento, avanço da inadimplência, enfraquecimento do varejo e posterior pressão sobre o emprego.

O segundo cenário é de estabilização, com probabilidade subjetiva de 45%.

Nesse caso, a continuidade do processo de desinflação, acompanhada de maior estabilidade fiscal e institucional, abriria espaço para redução dos juros. O alívio do custo do crédito poderia desacelerar a deterioração financeira das famílias e contribuir para sustentar o consumo e o emprego.

As probabilidades de 55% e 45%, entretanto, não são projeções produzidas pelo modelo econométrico. Segundo os pesquisadores, representam uma avaliação qualitativa dos autores utilizada para a construção dos cenários.

TAXA DE DESEMPREGO
Créditos: depositphotos.com / rafapress