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ECONOMIA

De Odebrecht a IG4: como o controle da Braskem mudou de mãos em meio à crise

A IG4 não simplesmente comprou a Braskem da antiga Odebrecht.

A operação que mudou o controle da maior petroquímica da América Latina passou por dívidas da Novonor, bancos credores, ações dadas em garantia, fundos de investimento e uma troca de ativos que terminou com o Shine I assumindo a participação que garantia o controle da companhia.

O resultado foi uma nova estrutura: Shine I e Petrobras passaram a dividir o controle da Braskem.

Mas há uma distinção importante.

A troca de controlador não foi uma emissão de novas ações da Braskem e, portanto, não representou, por si só, a entrada direta de dinheiro novo no caixa da petroquímica.

Agora, diante de uma recuperação extrajudicial envolvendo US$ 10,9 bilhões, essa diferença passou ao centro da tese de investimento.

Como a Novonor perdeu o controle da Braskem?

A Novonor, antiga Odebrecht, passou anos tentando resolver sua própria estrutura de endividamento.

Parte das ações da Braskem pertencentes à NSP Investimentos, empresa ligada ao grupo, havia sido oferecida como garantia de créditos detidos por instituições financeiras.

Em dezembro de 2025, o Shine I Fundo de Investimento em Direitos Creditórios, administrado e gerido pela Vórtx e assessorado pela IG4 Sol, assinou um acordo vinculante com bancos credores para adquirir créditos contra empresas do grupo Novonor garantidos, entre outros ativos, pelas ações da Braskem.

Esse foi o primeiro passo para a mudança.

Como o Shine I recebeu as ações da Braskem?

Em abril de 2026, Novonor, NSP Investimentos e os fundos Shine formalizaram a estrutura definitiva da operação.

A NSP concordou em transferir ao Shine I FIP:

  • 226.334.622 ações ordinárias da Braskem;
  • 47.294.173 ações preferenciais classe A.

O pacote representava aproximadamente 50,1108% das ações com direito a voto e 34,3234% do capital total da Braskem.

Em troca, o FIP entregaria à NSP debêntures emitidas pela própria NSP que haviam sido incorporadas à estrutura da transação.

A operação foi concluída em 3 de junho de 2026.

O dinheiro da compra entrou na Braskem?

Não diretamente.

Essa é provavelmente a informação mais importante para entender a transação.

Os ativos negociados eram ações já existentes da Braskem e créditos contra empresas do grupo Novonor.

Não se tratou de a Braskem emitir novas ações para levantar recursos.

Assim, a mudança de controle pode ser economicamente relevante para acionistas e credores, mas não significou uma injeção automática de capital na própria Braskem.

É justamente por isso que a discussão sobre dinheiro novo reaparece agora.

Onde entra a Petrobras?

A Petrobras decidiu não exercer seus direitos de preferência e tag along relacionados à operação.

Em 23 de abril, assinou com o Shine I FIP um novo acordo de acionistas que passou a estabelecer controle compartilhado da Braskem.

O acordo entrou em vigor quando a transação foi concluída, em junho.

A partir daí, Petrobras e Shine passaram a ter:

  • necessidade de consenso nas deliberações previstas pelo acordo;
  • representação igualitária no Conselho de Administração;
  • participação na indicação da administração estatutária.

A Petrobras mantém 36,15% do capital total e 47,03% do capital votante.

Quem controla a Braskem hoje?

A estrutura divulgada pela companhia tem o Shine I como maior acionista das ações ordinárias.

AcionistaCapital votanteCapital total
Shine I FIP50,11%34,32%
Petrobras47,03%36,15%
Outros2,86%29,53%

Apesar de o Shine I possuir pouco mais da metade das ações ordinárias, o acordo societário estabelece controle compartilhado com a Petrobras, e não controle isolado do fundo.

O que a IG4 pretende fazer na Braskem?

A IG4 se define como uma gestora especializada em situações especiais e empresas que precisam de reestruturação financeira e operacional.

A estratégia declarada inclui atuação direta na governança, revisão de planos de negócios, reestruturação de dívidas e participação de executivos da própria gestora em conselhos ou cargos de administração das empresas investidas.

Foi exatamente o que ocorreu na Braskem.

Em junho, a companhia anunciou uma nova administração.

Hélcio Tokeshi, managing director da IG4 Capital, assumiu como CEO. Carlos Brandão, que ocupava função de liderança na área de operações da IG4, tornou-se CFO e diretor de Relações com Investidores.

No Conselho de Administração, também foram eleitos integrantes indicados pelo Shine I.

A Braskem descreveu publicamente essa nova estrutura como uma combinação entre a experiência da IG4 em reestruturações e uma presença mais ativa da Petrobras.

A crise já existia quando o Shine I entrou

Esse ponto é essencial para avaliar a tese.

Quando a transação foi concluída em junho de 2026, a deterioração financeira da Braskem já era conhecida.

No fechamento de 2025, a empresa tinha alavancagem de 14,74 vezes. Em março de 2026, o indicador chegou a 18,18 vezes.

A Braskem já havia contratado assessores para estudar alternativas para sua estrutura de capital em setembro de 2025 e utilizado sua linha stand-by de US$ 1 bilhão no mês seguinte.

Portanto, o Shine I não assumiu uma empresa cujo problema financeiro apareceu inesperadamente depois.

A alta alavancagem era parte do cenário conhecido no momento da transferência de controle.

Isso significa que a IG4 apostou justamente na crise?

A estratégia da gestora ajuda a entender a lógica econômica.

A IG4 afirma buscar empresas com dificuldades e ativos de qualidade que possam ser adquiridos em condições consideradas atrativas e recuperados por meio de reestruturação, atuação operacional e mudanças de governança.

Nesse sentido, uma Braskem pressionada financeiramente não é incompatível com a tese da gestora.

Pode ser justamente o tipo de situação que ela busca.

A pergunta relevante é qual grau de deterioração foi incorporado à tese de investimento e quanto capital adicional a estrutura estava preparada para comprometer caso a reorganização se aprofundasse.

Quem está por trás do Shine I?

Os documentos societários tornam pública parte da estrutura.

O novo acordo de acionistas identifica o Shine I FIP como parte ao lado da Petrobras e registra a Shine Equity LP como cotista interveniente e anuente. Os fundos são administrados e geridos pela Vórtx e assessorados pela IG4.

Os documentos públicos analisados para esta reportagem, porém, não detalham a identidade de todos os investidores finais que fornecem o capital econômico por trás da estrutura.

Esse ponto permanece relevante porque ajuda a dimensionar a capacidade de mobilização de recursos caso um aporte adicional seja necessário.

A recuperação extrajudicial é o primeiro grande teste

Menos de três meses depois da conclusão da transferência do controle, a Braskem entrou com pedido de recuperação extrajudicial envolvendo aproximadamente US$ 10,9 bilhões em obrigações financeiras.

O plano admite a possibilidade de capitalização de dívida e eventual suporte dos principais acionistas.

Isso coloca a estratégia da IG4 diante de seu teste mais concreto.

A gestora assumiu posição central na governança de uma companhia altamente endividada defendendo uma tese de transformação e turnaround.

A troca de controlador já aconteceu.

A recuperação extrajudicial vai mostrar se a mudança será acompanhada por capital, redução efetiva do endividamento e capacidade financeira suficiente para sustentar a Braskem durante a reestruturação.

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BRASKEM
Foto: Gerada por IA