Na pesquisa BTG/Nexus divulgada ontem, registrou-se outra queda de Flávio Bolsonaro. Segundo a enquete, ele teria, em um dos cenários de primeiro turno, 33% das intenções de voto, contra 42% do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (em maio, essa diferença estava em 40% a 35%). Nas simulações de segundo turno, no entanto, Flávio se manteve estável com 43%; mas Lula cresceu dois pontos percentuais, chegando a 49%. A rejeição do senador também subiu, passando de 50% (maio) a 52%. Não é preciso ser um gênio da matemática para saber que, com esses números, ele não conseguiria a vitória nas eleições. Caso esses índices persistam, a única chance de Flávio talvez seja apostar no crescimento da desaprovação do presidente, que hoje está em 47%.
Há dois pontos interessantes nessa pesquisa – e um está ligado a outro. O primeiro é o crescimento de Renan Santos, que está empatado com Ronaldo Caiado em um dos cenários, com 4%. Em uma segunda simulação, o candidato do Missão/MBL está isolado na terceira posição, com 5%. O dado mais significativo, porém, é o índice obtido na intenção espontânea de voto. Neste quesito, Renan também está no terceiro posto, obtendo 3%, enquanto Ronaldo Caiado vem a seguir, com 1%. O problema do líder do MBL é sua fragilidade no segundo turno: ele é o nome que menos pontua na etapa final das eleições contra Lula.
O segundo detalhe instigante é referente a Romeu Zema. O ex-governador parece ter derretido nas pesquisas e está em quarto lugar, com 2% (a metade do que obteve em abril). Zema aparentemente perdeu parte do eleitorado para Renan e para o ex-governador Aécio Neves (quando o neto de Tancredo Neves não é incluído na pesquisa, Zema sobe para 3%).
Mas porque o ex-governador patina nas enquetes se teve uma grande exposição na imprensa e nas redes sociais nos últimos meses? A primeira onda de protagonismo ocorreu quando ele enfrentou o Supremo Tribunal Federal em uma série de vídeos de animação. Depois, Zema bateu em Flávio após a eclosão do caso Dark Horse, sendo bombardeado na mídia social pela máquina bolsonarista. Diante dos ataques, recuou. Conforme tirou o time de campo, perdeu credibilidade junto aos independentes e acabou desperdiçando eleitores. Diante disso, voltou à artilharia neste final de semana e acabou sofrendo críticas pesadas dos irmãos do senador Flávio.
Ao perder uma fatia de seu eleitorado para Renan e para Aécio (que não deve ser candidato), Zema demonstra uma fragilidade que decorre de sua falta de bandeiras. Renan é o outsider que está concorrendo contra os poderosos e diz que vai mudar tudo no mundo político. Já Caiado é o xerife que vai repetir sua atuação no estado de Goiás e combater o crime organizado no Brasil inteiro. Zema, por sua vez, propõe melhorar a gestão pública, com projetos que não têm exatamente grande apelo popular.
As coisas em política, no Brasil, podem mudar – veja a recuperação de Lula, que ninguém esperava ocorrer até abril. Mas Zema parece ter mergulhado em um processo de queda que dificilmente será revertido. Talvez sua melhor opção seja a de aderir à candidatura de Ronaldo Caiado e se tornar seu vice (com Flávio Bolsonaro, pelo jeito, a porta está fechada).
O enfraquecimento de Romeu Zema nas pesquisas também revela um desgaste que vai além das disputas momentâneas com o bolsonarismo. A trajetória recente expôs limites de sua estratégia nacional: ele não conseguiu transformar sua imagem de gestor eficiente em Minas Gerais em um projeto de reconhecimento no cenário federal. A ausência de uma narrativa clara o deixou vulnerável a movimentos mais assertivos de figuras como Renan Santos e Ronaldo Caiado, que ocupam espaços simbólicos distintos e mais facilmente identificáveis pelo eleitorado.
Outro fator é a dificuldade de Zema em lidar com conflitos políticos de alta intensidade. Quando confrontado pela militância bolsonarista, recuou; quando tentou retomar o embate, já não havia terreno firme. Esse vai‑e‑vem transmite insegurança, especialmente em um ambiente em que o eleitor valoriza firmeza, mesmo quando discorda do conteúdo.
Há ainda o peso do contexto. Em um momento de polarização persistente, candidatos que não se posicionam de forma contundente desaparecem no meio do ruído gerado pelos extremos. Zema tentou se equilibrar entre campos rivais, mas acabou sem a lealdade de nenhum deles. A ascensão de nomes que oferecem identidade política mais nítida evidencia esse vácuo.
Se o cenário continuar assim, Zema terá de decidir se insiste em uma candidatura que não decola ou se busca um papel secundário que preserve seu capital político. A aproximação com Ronaldo Caiado pode ser uma saída pragmática, mas também um reconhecimento de que sua projeção nacional encontrou um teto difícil de romper.

