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O debate digital é refém de 11% da sociedade

Aluizio Falcão Filho Por Aluizio Falcão Filho
06/11/2025
Em OPINIÃO, POLÍTICA

Pesquisa mostra que “progressistas militantes” e “patriotas indignados” dominam as discussões nas redes sociais

Em 17 de outubro, MONEY REPORT publicou um texto que comentava o artigo de autoria da socióloga Maria Hermínia Tavares, na “Folha de S. Paulo”, que citava estudo feito pela ONG More in Common. A pesquisa apresentava dois pontos importantes, segundo Maria Hermínia. Um era a elitização da esquerda; a outra era a de que a polarização entre petistas e bolsonaristas estava restrita a uma minoria da sociedade brasileira.

Ontem, a “Folha” divulgou alguns detalhes deste estudo, que vale a pena ser analisado. A pesquisa, coordenada pelo Instituto Quaest, ouviu 10.000 pessoas e faz uma divisão interessante da população. Em vez de usar os tradicionais grupos de esquerda, centro e direita, os autores da enquete dividem o Brasil entre progressistas, invisíveis e conservadores.

Neste primeiro conjunto, temos 19% dos brasileiros, distribuídos da seguinte maneira: 5% são progressistas militantes e 14% são considerados membros da esquerda tradicional. Já os invisíveis são a maioria da população, atingindo 54% do total (27% são desengajados e 27% foram batizados de cautelosos). Por fim, temos 27% de conservadores, segmentados entre tradicionais (21%) e patriotas indignados (6% — os seguidores mais fanáticos do ex-presidente Jair Bolsonaro).

Podemos afirmar com absoluta certeza de que as grandes polêmicas nas redes sociais são iniciadas pelos progressistas militantes e patriotas indignados. Juntos, esses dois grupos perfazem 11% da sociedade. Geralmente, eles são seguidos pelos esquerdistas e conservadores tradicionais (35% do total). Ou seja, todo o barulho que escutamos diariamente é reflexo daquilo que produz uma minoria dos brasileiros.

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A maioria dos cidadãos permanece à margem das discussões e prefere o voyerismo digital. São indivíduos que não querem entrar no jogo da polarização, seja em termos de ideologia política ou da chamada agenda de costumes.

A pesquisa também aponta que 38% dos brasileiros desconfiam da grande imprensa e 41% do Congresso Nacional. Essa desconfiança se acentua entre os grupos conservadores e esquerdistas: entre os patriotas indignados, 62% desconfiam da imprensa e 61% do Congresso. Já entre os segmentos progressistas, os índices são mais baixos, variando entre 31% e 35%.

A desconfiança dos grupos conservadores em relação à imprensa e ao Congresso Nacional no Brasil está profundamente ligada à polarização política e à sensação de que essas instituições não representam os valores destes entrevistados. Muitos conservadores enxergam a mídia tradicional como parcial, alinhada a pautas progressistas e distante de suas convicções morais e religiosas. Essa percepção se intensificou com a ascensão de lideranças que adotam discursos antissistema, reforçando a ideia de que a imprensa e o Congresso atuam contra os interesses do povo.

As redes sociais desempenham um papel central nesse processo, funcionando como espaços nos quais circulam narrativas que questionam a legitimidade das instituições democráticas. Influenciadores conservadores e canais alternativos promovem conteúdos que alimentam o ressentimento e a indignação, criando bolhas que reforçam a desconfiança. A identidade política desses grupos, muitas vezes marcada por um forte nacionalismo e apego a valores tradicionais, contribui para uma visão de mundo em que o sistema político e midiático é visto como hostil ou corrupto.

Por outro lado, os segmentos progressistas tendem a confiar mais na imprensa e no Congresso por se identificarem com as pautas que essas instituições costumam defender. Um exemplo disso foi a megaoperação da polícia no Rio de Janeiro, que resultou em 121 mortos. Boa parte dos meios de comunicação e da esquerda criticarou a ação (o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por exemplo, chamou a operação de “desastrosa”), enquanto as pesquisas mostram que a maioria dos brasileiros apoiou a iniciativa.

A leitura desse estudo escancara uma verdade incômoda: estamos reféns de uma minoria barulhenta que sequestrou o debate público e transformou o país num campo de batalha ideológico. Enquanto progressistas militantes e patriotas indignados trocam farpas e inflamam as redes, a maioria silenciosa observa, descrente, sem se ver representada nesse espetáculo de radicalismos. Os extremos, em vez de promoverem avanços, nos empurram para um debate estéril, no qual o diálogo é substituído por slogans. O Brasil real, aquele que trabalha e pondera, segue invisível. E é justamente esse Brasil que precisa ser resgatado, para que possamos reconstruir pontes e retomar a conversa que importa: aquela que busca soluções, não culpados.

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