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O nó da eleição presidencial começa em Minas

Aluizio Falcão Filho Por Aluizio Falcão Filho
30/07/2026
Em Aluizio Falcão Filho

Segundo maior colégio eleitoral do Brasil, perdendo apenas para São Paulo, o estado de Minas Gerais tem a tradição de construir vitoriosos: os candidatos à presidência que vencem em suas fronteiras são aqueles que ocupam o Palácio do Planalto no ano seguinte ao pleito (pelo menos, tem sido assim desde 1989). É por isso que a confusão em torno da candidatura (ou não) do senador Cleitinho Azevedo é acompanhada com grande interesse pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelo senador Flávio Bolsonaro.

Depois de muitas idas e vindas, o parlamentar publicou um vídeo de inteligência artificial no qual ele aparece conversando com seu pai, já falecido (imagem). Nesta gravação, ele diz aceitar a missão de ser candidato, mas que ao mesmo tempo se sente “inseguro e com medo”. Em todas as simulações feitas por institutos de pesquisa, Cleitinho aparece em liderança incontestável, com chance de liquidar a fatura ainda no primeiro turno. Ocorre que seu partido, o Republicanos, anunciou ontem que o senador perdeu o “timing” da candidatura e que vai apoiar o ex-secretário de governo Marcelo Aro na disputa pelo Palácio Tiradentes.

Esse episódio é estranhíssimo. Como um partido descarta alguém que está à frente de todas as pesquisas por outro candidato que sequer aparece nas enquetes eleitorais?

Este processo, que estava emaranhado, virou um verdadeiro nó cego. A decisão final do Republicanos, assim, deve ter uma interferência direta na votação presidencial de Minas. Segundo estudo do instituto Quaest, Lula lidera numericamente as intenções de voto em Minas, mas o resultado ainda é de empate técnico (38% a 35%). A entrada do senador mineiro no jogo traria esperanças à direita, uma vez que há 9% de indecisos e 18% de brancos, nulos e abstenções. Ou seja, existe um espaço enorme para que a candidatura oposicionista cresça e Cleitinho seria uma peça importantíssima neste processo.

No entanto, nem sempre o eleitor mineiro segue a lógica direta em suas eleições. Cerca de 36% dos eleitores de Lula em 2022 também escolheram Romeu Zema para o governo do estado; um fenômeno semelhante ocorreu em 2006, quando o petista venceu em terras mineiras, enquanto Aécio Neves foi eleito governador.

Mas, para que o eleitor mineiro seja sensibilizado em favor de Flávio, será preciso um jogo de cintura fora da curva. Trata-se de um público que tem uma característica difícil de digerir para qualquer candidato: gosta de pragmatismo, desconfia de radicalismo e valoriza quem entrega resultado, mesmo que o rótulo ideológico não bata exatamente com o seu. É esse mesmo eleitor que, em 2022, aprovava a gestão de Zema e ainda assim votava em Lula para presidente, sem sentir contradição nenhuma nisso. Para Flávio, isso significa que discurso de guerra ideológica, tão eficiente com a militância mais fiel ao bolsonarismo, pode ser contraproducente neste estado. Aliás, segundo outra pesquisa Quaest, os independentes representam 36% do eleitorado total do estado.

O desafio de Flávio, portanto, é duplo. Ele precisa ao mesmo tempo manter viva a chama do eleitorado bolsonarista raiz e simultaneamente amaciar o discurso para dialogar com um eleitor mineiro mais moderado. Equilibrar essas duas pontas exige uma flexibilidade rara: qualquer escorregão para um lado pode custar caro do outro. Um Flávio bolsonarista demais espanta o eleitor típico da região; um Flávio moderado esfria a militância.

É aqui que Cleitinho se tornaria uma peça-chave. Se ele conseguir confirmar a candidatura ao governo estadual, com a liderança folgada que já aparece nas pesquisas, o senador tem potencial de funcionar como um verdadeiro amortecedor emocional entre Flávio e o mineiro mais desconfiado. Cleitinho carrega um capital político próprio, ligado à imagem de outsider, ao universo evangélico e a uma comunicação mais popular e menos hostil do que a de Flávio. Ao subir no mesmo palanque, ele pode emprestar sua credibilidade regional para amaciar a recepção do candidato presidencial, funcionando como intérprete e tradutor de um discurso nacional que, sozinho, talvez não convencesse o eleitor local.

A lógica de transferência de votos, porém, não é automática e a experiência recente prova isso: mesmo Zema, com aprovação recorde como governador, não conseguiu puxar amplamente seu próprio eleitorado para Bolsonaro em 2022 nem transferir força suficiente para si mesmo na corrida presidencial de 2026.

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Para que Cleitinho realmente funcione como ponte, ele precisará fazer campanha conjunta explícita com Flávio, não apenas dividir o mesmo campo ideológico, mas efetivamente pedir um voto casado, algo que a cultura eleitoral brasileira tradicionalmente rejeita. Mas essas conjecturas vão ficar em suspenso, até que o senador mineiro e seu partido se entendam. Por enquanto, sobram desconfianças junto aos dirigentes do PR estadual, que optaram por uma manobra que tem tudo para beneficiar Lula no estado de Tancredo Neves.

*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho, é jornalista, articulista e publisher do portal Money Report. Foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide

*As opiniões transmitidas pelo colunista são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da BM&C News.

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