Quem assumir a Presidência da República em janeiro de 2027 não receberá uma folha em branco. Receberá uma conta. A dívida bruta do governo geral chegou a 81,1% do PIB em maio, acima dos 80,2% registrados apenas 1 mês antes e também acima da expectativa de economistas ouvidos pela Reuters. Pela metodologia do Fundo Monetário Internacional, que inclui títulos do Tesouro que ficam fora da métrica usada pelo Banco Central, a dívida brasileira alcançou 94,3% do PIB, muito acima da média de 77,2% projetada para economias emergentes e em desenvolvimento em 2026. Mais grave é observar quanto custa carregar essa dívida: somente em maio, os juros nominais pagos pelo setor público somaram R$ 107,5 bilhões e, em 12 meses, chegaram ao equivalente a 8,48% do PIB, maior proporção desde fevereiro de 2016. Somando juros e resultado primário, o déficit nominal atingiu 9,62% do PIB.
Não se trata, portanto, de discutir apenas se o próximo presidente será de direita ou de esquerda, mas de reconhecer que ele começará o mandato administrando uma estrutura fiscal que já limita suas escolhas. O próprio Tesouro projetou, em junho, déficit primário de 0,4% do PIB em 2026 e de 0,1% em 2027 e advertiu que, a partir de 2028, serão necessárias novas medidas fiscais porque apenas bloqueios de despesas não bastariam para cumprir as metas estabelecidas. O pai do plano Real, Gustavo Franco resumiu essa deterioração de maneira ainda mais direta em entrevista publicada pela Veja em 28 de julho: afirmou que negar a piora fiscal é “patético” e apontou uma dívida pública gigantesca, inclusive com obrigações que, em sua avaliação, não aparecem integralmente nas estatísticas tradicionais.
Franco identifica ainda uma contradição fundamental do modelo brasileiro: o Banco Central mantém juros elevados para perseguir a meta de inflação enquanto a política fiscal caminha em direção oposta, pressionando a própria taxa que o governo critica. O problema não está em existir política social. Países desiguais precisam de redes de proteção. A questão está na incapacidade de compatibilizar ambição social, crescimento das despesas obrigatórias, eficiência do gasto e geração permanente de receita sem transformar aumento de impostos e endividamento em soluções recorrentes.
Se o Estado chega pressionado a 2027, as famílias chegam talvez em condição ainda mais delicada. O endividamento familiar atingiu 49,8% da renda acumulada em 12 meses em março e o comprometimento mensal da renda com o serviço das dívidas chegou a 29,3%, segundo o Banco Central. A inadimplência das pessoas físicas alcançou 5,4%, enquanto, no crédito livre, chegou a 7,2%. Isso significa que quase R$ 3 de cada R$ 10 da renda mensal das famílias, pela métrica do BC, já estão comprometidos com pagamentos de dívidas antes de supermercado, aluguel, escola, transporte, saúde e todas as demais despesas correntes. O consignado acrescentou uma dimensão especialmente preocupante a esse quadro porque antecipa o comprometimento da renda futura.
Levantamento da Serasa Experian divulgado pela Folha em 21 de julho mostrou que 74% dos trabalhadores que aderiram ao Crédito do Trabalhador já tinham 2 ou mais contratos ativos. Pelas regras do programa, é possível contratar até 9 empréstimos e comprometer até 35% do salário-base; entre aqueles que contrataram um segundo consignado, 29% passaram a pagar juros superiores aos da primeira operação. Mais revelador ainda: 69% dos trabalhadores analisados possuíam alguma restrição financeira ativa. Não é difícil perceber a armadilha. O crédito que deveria solucionar uma emergência começa a financiar a incapacidade de chegar ao fim do mês; depois, uma parcela da renda do mês seguinte já nasce comprometida.
Armínio Fraga chamou atenção exatamente para esse mecanismo ao alertar, em entrevista publicada em 24 de julho, que o mercado de crédito apresenta sinais preocupantes e que o Brasil corre risco concreto de recessão em 2027. Seu conselho a empresas e famílias foi preservar caixa e evitar novas dívidas. Para Fraga, empréstimos podem funcionar como paliativo, mas seu custo pode se tornar fatal quando o endividamento substitui renda e produtividade como motor do consumo.
Há ainda um terceiro fenômeno, socialmente explosivo, que ajuda a explicar por que transferência de renda, crédito abundante e aumento do consumo não podem ser confundidos automaticamente com prosperidade: as apostas. O Brasil regulamentou as bets depois de anos de expansão do mercado, mas a dimensão alcançada pelo jogo revelou uma drenagem extraordinária de renda das famílias.
Um levantamento do Banco Central identificou anteriormente 5 milhões de pessoas pertencentes a famílias beneficiárias do Bolsa Família que enviaram R$ 3 bilhões às casas de apostas por Pix em apenas 1 mês. O dado não autoriza concluir que essas famílias não precisavam do benefício, mas revela algo talvez mais preocupante: dinheiro destinado à proteção da renda básica estava alcançando um setor capaz de capturar recursos justamente de uma população financeiramente vulnerável. O problema ficou tão evidente que, em julho deste ano, o Ministério da Fazenda informou ter bloqueado o acesso às bets de 2,8 milhões de beneficiários do Bolsa Família e do BPC, equivalentes a 10,4% das pessoas atendidas pelos 2 programas.
O Banco Central já havia estimado que brasileiros movimentavam até R$ 30 bilhões por mês em apostas online, embora cerca de 94% desse fluxo retornasse aos apostadores na forma de prêmios. A questão econômica não é moralizar quem aposta. É perceber o que acontece quando uma sociedade simultaneamente transfere renda pública, amplia acesso ao crédito, compromete quase 30% da renda familiar com dívidas e oferece, a poucos cliques de distância, um mecanismo de jogo desenhado para movimentar bilhões. Parte da renda que poderia reconstruir poupança, consumo essencial ou capacidade de pagamento termina circulando em apostas. Isso ajuda a compreender por que indicadores agregados relativamente favoráveis, como emprego e renda, podem conviver com uma sensação persistente de sufocamento financeiro dentro das casas.
É por isso que “terra arrasada” talvez seja uma expressão dura, mas não precisa significar um país falido ou sem saída. Significa um país que chegará a 2027 com pouco espaço para errar. O próximo governo precisará, ao mesmo tempo, estabilizar uma dívida bruta superior a 80% do PIB pela metodologia do Banco Central, reduzir uma conta de juros que já consome mais de 8% do PIB, reorganizar despesas, rever benefícios tributários, impedir que novas receitas sejam permanentemente absorvidas por novas despesas, reconstruir a capacidade financeira de famílias superendividadas e enfrentar uma economia em que parte relevante do consumo está sustentada por crédito.
Armínio Fraga observa que o gasto público brasileiro passou de cerca de um quarto para aproximadamente um terço do PIB em 40 anos e estima que benefícios fiscais e subsídios federais e estaduais correspondam a cerca de 9% do PIB, defendendo uma revisão profunda dessas distorções. Gustavo Franco, por sua vez, argumenta que o Brasil se acostumou à ideia de que o Estado será o principal responsável pelo desenvolvimento, quando hoje o setor privado deveria assumir parcela maior desse papel. Eis o ponto que torna a eleição quase secundária diante do problema econômico: Lula, seu adversário ou qualquer outro candidato que vencer não poderá revogar por decreto a matemática encontrada em 1º de janeiro.
Dívidas vencem independentemente de ideologia. Juros incidem independentemente de discurso. Famílias endividadas não recuperam capacidade de consumo porque mudou o ocupante do Palácio do Planalto. E despesas obrigatórias não desaparecem com a posse de um novo ministro da Fazenda. O próximo presidente terá 4 anos para decidir se começa a reconstrução ou apenas transfere uma estrutura ainda mais fragilizada ao sucessor. A grande questão da eleição de 2026, portanto, talvez não seja quem promete entregar mais. É quem estará disposto a dizer, antes do voto, o que o Brasil já não consegue continuar pagando.
*Coluna escrita por Fabrizio Gueratto, especialista em investimentos com mais de 20 anos de experiência no mercado financeiro. Foi sócio do Banco Modal, é professor de MBA em Finanças, autor do livro “De Endividado a Bilionário”, fundador da Gueratto Press e criador do Canal 1Bilhão, que soma quase 21 milhões de visualizações no YouTube.
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