A securitização vem assumindo um papel maior na estrutura de financiamento da economia brasileira ao permitir que empresas transformem recebíveis e fluxos futuros em recursos disponíveis para investimento.
Esse processo amplia as alternativas de crédito além do sistema bancário e conecta investidores a diferentes atividades econômicas.
O mecanismo não substitui o financiamento bancário tradicional, mas acrescenta novas possibilidades de captação para empresas com diferentes portes, prazos e necessidades de capital. Ao antecipar receitas previstas, as companhias podem direcionar recursos para capital de giro, expansão das operações e novos investimentos. Na prática, a securitização é uma porta de entrada ao mercado de capitais, à medida que a companhia consegue acessar recursos por meio de antecipação de seus ativos.
Operações de securitização reúnem direitos de recebimento originados por empresas e os convertem em títulos ou cotas negociadas no mercado de capitais. Entre os principais instrumentos utilizados estão os Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs), os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) e os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs).
Os CRIs são lastreados em recebíveis relacionados ao setor imobiliário, enquanto os CRAs estão associados a direitos de crédito ligados ao agronegócio. Mas existem certificados de recebíveis para todo e qualquer setor. Já os FIDCs podem reunir recebíveis originados por diferentes atividades econômicas, o que permite a criação de estruturas adaptadas às características de cada operação.
Securitização avança no mercado de capitais
Até junho de 2026, as ofertas realizadas no mercado de capitais brasileiro somaram R$ 361,8 bilhões, crescimento de 9,8% na comparação com o mesmo período do ano anterior. Dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) mostram a expansão de instrumentos que permitem às empresas buscarem financiamento diretamente com os investidores.
“Esse crescimento também indica uma diversificação da arquitetura de crédito do país. Em vez de depender exclusivamente de uma única fonte de recursos, as companhias passam a combinar crédito bancário, emissões de dívida e estruturas baseadas em recebíveis”, afirma Flavia Palacios, diretora da Anbima.
Os FIDCs captaram R$ 53,1 bilhões nos seis primeiros meses do ano, distribuídos em 559 operações. O instrumento foi o segundo maior canal de captação do período, atrás apenas das debêntures.
As emissões de CRIs alcançaram R$ 20,3 bilhões, enquanto os CRAs movimentaram R$ 7,1 bilhões. Juntos, os dois instrumentos somaram R$ 27,4 bilhões em emissões entre janeiro e junho.
O desempenho dos produtos mostra que a securitização já ocupa uma posição relevante no financiamento de empresas e setores produtivos. Ao mesmo tempo, a diferença entre os volumes captados por cada instrumento revela que o mercado se ajusta às condições econômicas e às necessidades específicas dos emissores.
Empresas antecipam recebíveis e ampliam liquidez
O crescimento desses produtos reflete a busca das empresas por fontes de financiamento que não dependam exclusivamente dos balanços dos bancos. O movimento também acompanha o desenvolvimento do mercado de capitais e a entrada de estruturas adaptadas a diferentes setores e portes de companhias.
Para as empresas, a securitização permite antecipar recursos que seriam recebidos apenas nos meses ou anos seguintes. Recebíveis de vendas, contratos imobiliários, operações do agronegócio e outros fluxos previstos podem ser utilizados como base para a emissão dos instrumentos.
Uma companhia que possui compromissos no presente, por exemplo, pode antecipar recebimento de fluxo futuro. Dessa forma, transforma ativos que seriam realizados no futuro em liquidez disponível no presente.
“Por meio de estruturas como CRI, CRA, CR e FIDC, fluxos futuros são antecipados e convertidos em títulos, permitindo que empresas acessem recursos de forma imediata, sem precisar aguardar o ciclo completo desses ativos”, explica Flavia.
A antecipação pode ser especialmente relevante para setores que trabalham com ciclos longos de produção e retorno do capital, como o mercado imobiliário e o agronegócio. Além de encurtar o prazo de acesso aos recursos, as operações distribuem os riscos entre os investidores que participam das emissões.
Essa conexão aproxima empresas que precisam de financiamento e investidores que buscam alternativas com diferentes características de prazo, risco e retorno. A estrutura da operação, porém, precisa permitir que o investidor compreenda a origem dos recebíveis, o devedor e os riscos envolvidos.
Regulação acompanha estruturas de securitização
A expansão do mercado foi acompanhada por mudanças no ambiente regulatório. Entre os avanços estão a Resolução CVM 60, que modernizou as regras aplicáveis às companhias securitizadoras e aos certificados de recebíveis, e a Lei 14.430, que instituiu o Marco Legal da Securitização.
A Resolução CVM 175 também atualizou as regras dos fundos de investimento, incluindo os FIDCs. As mudanças buscaram adequar a regulamentação ao desenvolvimento de novas estruturas e estabelecer responsabilidades para os participantes das operações.
Flavia ressalta que a regulação e a autorregulação precisam acompanhar permanentemente a evolução dos produtos. A Anbima, como autorreguladora, atua na definição de parâmetros relacionados à divulgação de informações, classificação dos produtos, suitability, governança e padronização das práticas de mercado.
O acompanhamento regulatório se torna necessário porque as operações podem reunir diferentes tipos de recebíveis, garantias, participantes e níveis de risco. À medida que novas estruturas são desenvolvidas, regras de transparência e prestação de informações precisam avançar na mesma direção.
Governança deve acompanhar expansão do mercado
O crescimento da securitização depende da qualidade dos ativos utilizados nas operações e da apresentação clara dos riscos aos investidores. Isso inclui informações padronizadas sobre os recebíveis, as garantias, os critérios de elegibilidade e a estrutura financeira de cada emissão.
A transparência permite que o investidor avalie fatores como a origem dos créditos, a capacidade de pagamento dos devedores e as condições previstas para a operação. A qualidade dessas informações é uma das bases para o desenvolvimento sustentável do mercado.
A segregação patrimonial e o regime fiduciário também funcionam como mecanismos de proteção. Administradores, gestores, agentes fiduciários, custodiantes e auditores adicionam camadas de acompanhamento e controle às operações.
Esse conjunto de participantes ajuda a estabelecer responsabilidades e mecanismos de supervisão ao longo da operação, desde a seleção dos recebíveis até o acompanhamento dos pagamentos.
“Nesse contexto, a autorregulação da Anbima complementa a regulação ao estabelecer padrões de mercado e boas práticas, especialmente em temas como divulgação de informações, padronização e classificação de produtos”, Flavia.
Mais setores podem acessar securitização
Com o avanço regulatório e da infraestrutura de mercado, a securitização pode alcançar atividades que possuem fluxos previsíveis de receitas, como serviços, educação, saúde, infraestrutura e economia digital.
Esses setores podem utilizar contratos, mensalidades, pagamentos recorrentes e outros direitos de crédito como base para estruturas de financiamento. A expansão para novas atividades aumenta a capacidade do mercado de capitais de atender diferentes modelos de negócios.
Para ampliar sua participação no financiamento da economia, o mercado ainda precisa ganhar escala e simplificar processos. Essas companhias podem ter recebíveis e fluxos futuros capazes de sustentar operações, mas ainda enfrentam barreiras de conhecimento, estruturação e acesso ao mercado.














