O Federal Reserve anuncia nesta quarta-feira (29) sua nova decisão de política monetária. A principal expectativa do mercado é de manutenção da taxa de juros na faixa entre 3,50% e 3,75% ao ano, embora tenha aumentado a percepção de que uma elevação de 0,25 ponto percentual também não pode ser descartada.
A atenção dos investidores estará concentrada na composição dos votos do Comitê Federal de Mercado Aberto, o Fomc. Bancos como Bank of America e Citi estimam que dois integrantes possam defender uma alta imediata dos juros, diante dos riscos inflacionários provocados pelo petróleo, pelas tensões geopolíticas e pelas tarifas comerciais.
O número de votos dissidentes poderá funcionar como sinalização sobre os próximos passos da autoridade monetária. Caso o comunicado registre dois ou mais votos favoráveis ao aumento, o mercado poderá interpretar que uma parcela relevante do comitê já considera necessária a retomada do aperto monetário.
Para Caio Ignácio, especialista em investimentos e fundador da Boa Brasil Capital, a reunião está entre as mais imprevisíveis dos últimos anos. Segundo ele, normalmente o mercado chega aos dias anteriores à decisão com uma probabilidade entre 90% e 95% concentrada em um único cenário.
“Agora esse consenso caiu para algo em torno de um terço de chance de alta de 0,25 ponto percentual, o que mostra o tamanho da divisão dentro do próprio mercado”, avalia Ignácio.
Mudança na comunicação do Fed aumenta incerteza
A composição dos votos ganhou importância após o presidente do Fed, Kevin Warsh, reduzir o uso do chamado forward guidance, instrumento pelo qual o banco central oferece indicações antecipadas sobre os possíveis próximos passos da política monetária.
Sem uma orientação mais clara, investidores passam a acompanhar com maior atenção o comunicado, os votos individuais e as declarações dos dirigentes do Fed.
“Kevin Warsh adotou uma postura bem mais silenciosa do que a de seu antecessor, reduzindo o forward guidance. Isso já aumenta a incerteza por si só”, explica Ignácio.
Andressa Durão, economista do ASA, também projeta a manutenção dos juros nesta quarta-feira. Para ela, o novo formato do comunicado, mais curto e direto, deverá transferir a atenção do mercado para a entrevista coletiva do presidente do Fed.
“A duração e a profundidade dessa comunicação ainda são incertas, considerando as sinalizações recentes de mudanças mais amplas na estratégia de comunicação do Fed”, observa Durão.
A economista avalia que Warsh deverá reforçar o compromisso da autoridade monetária com o retorno da inflação à meta, mas sem oferecer indicações precisas sobre o momento de uma eventual mudança na taxa de juros.
Petróleo e tarifas pressionam cenário
A pressão sobre o Fed foi ampliada nas últimas semanas pela escalada das tensões entre Israel e Irã, que afetou o mercado de petróleo, e pelas tarifas aplicadas pelo governo americano, que podem elevar os custos de produtos e serviços para os consumidores dos Estados Unidos.
Para Caio Ignácio, esses dois fatores ajudam a explicar por que uma alta de juros, anteriormente considerada improvável, passou a fazer parte dos cenários acompanhados pelos investidores.
“Os dois elementos empurram a inflação para cima, e o principal instrumento de controle de inflação que o Fed tem é justamente o juro. Por isso, uma alta de 0,25 ponto percentual, que há poucas semanas nem estava no radar, hoje é um cenário real”, afirma o especialista.
O comportamento dos preços da energia e o repasse das tarifas à inflação ao consumidor também deverão influenciar as decisões seguintes do Fed. Caso essas pressões persistam, poderá diminuir o espaço para cortes de juros no restante do ano.
“O que vai definir o rumo das próximas decisões são a evolução do conflito no Oriente Médio, que impacta diretamente o preço da energia, e o efeito acumulado das tarifas comerciais americanas sobre a inflação”, acrescenta Ignácio.
Impactos para o Brasil
A decisão do Fed também será acompanhada pelo mercado brasileiro. Juros americanos mais elevados tendem a aumentar a atratividade dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos, podendo reduzir o fluxo de recursos para economias emergentes.
Esse movimento pode afetar o comportamento do dólar, os preços dos ativos brasileiros e as expectativas para as próximas decisões do Comitê de Política Monetária, o Copom.
Além da decisão desta quarta-feira, investidores deverão observar a quantidade de votos dissidentes, o tom do comunicado e as declarações de Kevin Warsh. Esses elementos poderão indicar se a manutenção dos juros representa uma pausa prolongada ou apenas um intervalo antes de uma eventual retomada do aperto monetário.














