O PIB da China cresceu 4,3% no segundo trimestre de 2026, após avançar 5% nos três primeiros meses do ano. Com o resultado, a atividade econômica acumulou expansão de 4,7% no primeiro semestre, em um cenário de perda de ritmo do consumo das famílias, dos investimentos e do mercado imobiliário.
Em entrevista ao Global Wallet, da BM&C News, o especialista em negócios entre Brasil e China e fundador da Destino China, Té Santana, afirmou que a desaceleração deve ser analisada diante do tamanho da economia chinesa. O país encerrou 2025 com um PIB próximo de 140 trilhões de yuans, equivalente a cerca de US$ 20 trilhões, e representa aproximadamente 17% da economia mundial.
“A notícia não é que a China deixou de crescer, mas que perdeu um pouco de velocidade”, resume Té Santana.
Indústria e exportações sustentam a atividade
A composição do PIB mostra comportamentos distintos entre os principais motores da economia. Enquanto a indústria e as exportações continuam sustentando parte do crescimento, o consumo doméstico, os imóveis e os investimentos apresentam desempenho mais fraco.
Esse contraste revela duas dinâmicas dentro do país: uma economia industrial, tecnológica e exportadora que mantém capacidade de expansão e outra ligada ao mercado imobiliário e à demanda das famílias, que avança com maior cautela. A dependência das vendas externas também aumenta a exposição chinesa a tarifas e barreiras comerciais.
“Por dentro ainda existem praticamente duas Chinas: uma China de tecnologia industrial, exportadora, de avanço rápido, que a gente conhece, e a outra é ligada ao mercado imobiliário e ao consumo das famílias”, explica Té Santana.
Mercado imobiliário afeta a confiança das famílias
O modelo que impulsionou a economia chinesa durante décadas foi sustentado por investimentos, construção, infraestrutura e expansão industrial. A partir das reformas iniciadas no fim dos anos 1970, o país passou a combinar planejamento estatal, abertura ao capital estrangeiro, iniciativa privada e competição entre províncias pela atração de fábricas e projetos.
Ao longo desse processo, os imóveis se consolidaram como uma das principais formas de armazenamento de riqueza das famílias. A queda dos preços e os problemas enfrentados por incorporadoras reduziram a percepção patrimonial dos consumidores, que passaram a adiar viagens, compras de veículos e outras despesas de maior valor.
“Antes, a China precisava construir fábricas, cidades, infraestrutura. Agora, ela precisa aumentar a confiança das famílias e convencê-las a consumir mais”, avalia Té Santana.
Baixo consumo amplia o risco de desaceleração
A elevada taxa de poupança das famílias chinesas está relacionada à necessidade de financiar educação, saúde, aposentadoria e eventuais períodos de desemprego. Com a menor confiança na economia e a perda de valor dos imóveis, os consumidores aumentam a cautela e reservam uma parcela maior da renda para emergências.
A redução do consumo afeta as receitas das empresas, limita investimentos, contratações e salários e pode aumentar novamente a insegurança financeira. Para interromper esse movimento, o governo precisa fortalecer a proteção social, apoiar o emprego e ampliar a renda disponível, permitindo que o mercado interno absorva uma parcela maior da produção nacional.
“Pode surgir um ciclo difícil, de baixo consumo, preços pressionados para baixo, lucros menores e menos empregos”, alerta Té Santana.
Brasil pode avançar além das commodities
A transformação da economia chinesa abre espaço para empresas brasileiras ampliarem sua atuação no país. Além das exportações de soja, minério e petróleo, o Brasil pode atender à demanda por café, carnes, frutas, bebidas, cosméticos, ingredientes naturais, turismo, esporte e entretenimento.
As companhias brasileiras, no entanto, ainda concentram sua presença na venda de matérias-primas e exploram pouco o valor associado a marcas, experiências e atributos de origem. No caso do café, por exemplo, o potencial de receita não está apenas no produto transportado, mas na construção de uma identidade reconhecida pelo consumidor chinês.
“O maior valor não está necessariamente dentro do contêiner. Ele está numa marca que o consumidor pode reconhecer”, observa Té Santana.
Produtos exigem adaptação ao consumidor chinês
A entrada no mercado chinês exige ajustes de embalagem, preço, sabor, nome, canais de venda e estratégia de comunicação. O consumidor utiliza plataformas como WeChat, Douyin e Xiaohongshu para consultar avaliações, assistir a vídeos, acompanhar transmissões ao vivo e verificar informações sobre a origem dos produtos.
No segmento de café, parte do público prefere bebidas doces, geladas e combinadas com leite, frutas ou coco. Empresas voltadas a consumidores de maior renda podem explorar informações sobre a fazenda, a altitude, o método de colheita e a região produtora, além de desenvolver embalagens adequadas para presentes.
“Não basta simplesmente pegar esse café, traduzir o rótulo e colocar numa plataforma chinesa. O produto pode ser excelente e, mesmo assim, não vender nada”, ressalta Té Santana.
Tecnologia deve orientar a próxima fase da China
A próxima etapa da economia chinesa tende a depender menos da construção, da mão de obra de baixo custo e das exportações em massa. O crescimento deverá ser sustentado por produtividade, inteligência artificial, robótica, semicondutores, veículos elétricos, baterias, energia renovável e serviços voltados à população idosa.
A China possui capacidade industrial e escala para aplicar inteligência artificial em fábricas, hospitais, sistemas logísticos, veículos autônomos e plataformas digitais. Ao mesmo tempo, o país enfrenta restrições ao acesso a chips avançados, envelhecimento populacional, tensões com os Estados Unidos e riscos de excesso de capacidade em alguns setores.
“Provavelmente, o grande vencedor ainda não está apenas em quem cria a inteligência artificial mais sofisticada. Vai ser realmente quem conseguir transformar isso em algo barato, útil e acessível para milhões de empresas e consumidores”, projeta Té Santana.
Menor crescimento não elimina a capacidade de inovação
Mesmo com taxas de expansão inferiores às registradas nas últimas décadas, a China deve continuar avançando em tecnologia, produtividade e construção de marcas globais. O desafio será substituir parte do crescimento baseado em investimentos e imóveis por uma economia mais apoiada no consumo, na inovação e em produtos de maior valor agregado.
Para as empresas brasileiras, acompanhar essa mudança será necessário para identificar oportunidades comerciais, tecnológicas e de investimento. A relação bilateral tende a continuar apoiada nas commodities, mas poderá incluir novas formas de cooperação em energia, infraestrutura, indústria, alimentos processados e desenvolvimento conjunto de produtos para os mercados asiático e latino-americano.














