O avanço da dívida pública, a possibilidade de deterioração fiscal no Brasil e o volume crescente de recursos direcionados à inteligência artificial estão entre os principais riscos acompanhados por Francisco Utsch, sócio da Kiron Capital e ex-sócio da Tarpon Investimentos. Em entrevista ao Wall Street Cast, apresentado por Bruno Corano, o gestor também discutiu câmbio, investimentos internacionais, dívida dos Estados Unidos e os desafios de avaliar empresas ligadas à tecnologia.
Na avaliação de Utsch, o risco fiscal no Brasil ainda pode ser administrado, mas exige mudanças capazes de interromper a trajetória de crescimento do endividamento. Caso isso não aconteça, inflação, juros longos e câmbio podem funcionar como canais de transmissão da deterioração para empresas, investidores e consumidores.
O gestor afirmou que a administração pública vem aumentando a relação entre dívida e PIB e operando com déficit nominal elevado. Segundo ele, uma trajetória persistente desse tipo poderia levar o endividamento a um nível mais difícil de controlar nos próximos anos.
Risco fiscal no Brasil depende de despesas, impostos e juros
Utsch dividiu o ajuste fiscal em três frentes: despesas públicas, arrecadação e custo dos juros.
Na avaliação do gestor, o controle das despesas deveria ocupar papel central em uma estratégia voltada a melhorar as condições econômicas do país. A segunda alternativa seria elevar impostos, instrumento que, segundo ele, já foi utilizado de maneira relevante nos últimos anos.
A terceira variável é o próprio custo dos juros. Para Utsch, despesas mais controladas poderiam reduzir pressões inflacionárias e, consequentemente, abrir espaço para juros menores, criando um efeito adicional sobre o déficit público.
Apesar dos riscos, o gestor não considera a situação insolúvel.
“Eu acho que ele é um desafio resolvível”, afirmou Utsch ao comentar o quadro fiscal brasileiro.
Segundo ele, uma combinação de gestão pública e coordenação institucional poderia permitir uma melhora relevante em um horizonte de aproximadamente um ano e meio a dois anos. Na avaliação apresentada no programa, uma reorganização das contas também poderia contribuir para juros mais baixos e maior fluxo de investimentos para a economia.
Inflação pode ser o primeiro sinal de deterioração
Ao discutir o que poderia ocorrer caso o ajuste não avance, Utsch apontou a inflação como um dos primeiros indicadores a observar.
“A grande válvula de escape, na hora que você tá numa situação dessa, acaba sendo inflação”, afirmou.
O gestor explicou que uma deterioração das contas públicas poderia pressionar também os juros de mercado. Nesse cenário, as taxas exigidas para títulos de prazo mais longo poderiam subir e se afastar da taxa básica.
Outro possível efeito seria a desvalorização cambial. Utsch lembrou um período recente em que o dólar ultrapassou R$ 6 e títulos públicos chegaram a exigir taxas próximas de 18% a 19% ao ano, usando o episódio como exemplo de perda de referência fiscal pelo mercado.
Para o cidadão, segundo ele, um câmbio mais depreciado pode aumentar pressões inflacionárias, enquanto juros mais altos atingem uma população já exposta a endividamento e inadimplência.
Dólar reforça debate sobre diversificação internacional
No mercado de investimentos, Utsch afirmou observar maior interesse dos brasileiros por aplicações no exterior.
A Kiron lançou um produto global cerca de dois meses antes da gravação e, segundo o gestor, a captação vinha avançando em ritmo superior ao observado nos produtos concentrados no mercado brasileiro.
Ele relacionou parte dessa procura ao nível do câmbio.
Utsch afirmou que, ao comparar os preços de diferentes ativos brasileiros, encontra juros elevados e ações domésticas negociadas a preços que considera atrativos. Nesse contexto, o nível do dólar também chamou sua atenção.
Segundo o gestor, aumentar a parcela internacional da carteira nos níveis cambiais discutidos no programa lhe parecia coerente e era um comportamento observado entre clientes.
Dívida dos Estados Unidos reacende discussão sobre inflação
O programa também discutiu o avanço do endividamento em grandes economias, com destaque para Estados Unidos e Japão.
Utsch lembrou que níveis elevados de dívida pública já foram observados em outros períodos históricos. No pós-Segunda Guerra Mundial, segundo ele, parte da redução relativa do endividamento ocorreu por meio de crescimento econômico e de períodos em que a inflação ficou acima dos juros pagos pelos governos.
Essa dinâmica é diferente em dívidas indexadas à inflação. No caso americano, o gestor lembrou que grande parte dos títulos possui remuneração nominal, o que torna a inflação uma variável relevante para o valor real da dívida ao longo do tempo.
Ao mesmo tempo, Utsch destacou que a economia americana vinha apresentando crescimento consistente e relacionou parte dessa expansão ao avanço tecnológico.
Na avaliação dele, se a inflação não for utilizada como mecanismo de redução real da dívida, o equilíbrio precisará vir de mudanças na arrecadação ou nas despesas públicas.
Investimento em IA pode se transformar em risco global
Um dos principais riscos internacionais destacados por Utsch está justamente no volume de capital destinado à inteligência artificial.
Segundo o gestor, as maiores empresas americanas investiram aproximadamente US$ 700 bilhões em infraestrutura ligada à tecnologia no ano anterior à gravação. A estimativa citada por ele para o ano corrente chegava a cerca de US$ 1,2 trilhão.
Para o período seguinte, Utsch avaliou que a soma dos investimentos de grandes companhias poderia se aproximar de US$ 2 trilhões, embora tenha deixado claro que se tratava de uma estimativa própria.
A preocupação não está na tecnologia em si, mas na possibilidade de uma parcela relevante desses investimentos não produzir o retorno esperado.
Segundo Utsch, se a alocação se mostrar improdutiva, o mercado poderia precisar absorver perdas e passar por um período de correção, com efeitos sobre ações e crédito.
Por enquanto, porém, ele afirmou que o movimento observado ainda é de aumento de investimentos e capacidade, diante de uma demanda superior à oferta.
Taiwan aparece entre os riscos geopolíticos
O segundo risco internacional destacado pelo gestor é geopolítico.
Utsch apontou Taiwan como um ponto particularmente sensível devido à importância da região para a cadeia global de semicondutores e às tensões envolvendo China e Estados Unidos.
Segundo ele, etapas críticas da fabricação de chips estão concentradas nessa cadeia e não podem ser transferidas rapidamente para outras regiões.
O gestor classificou uma eventual deterioração do conflito como um risco relevante para a economia mundial e associou diretamente esse cenário ao atual ciclo de investimentos em inteligência artificial.
Mercado de tecnologia está caro, mas gestor evita chamar de bolha
A valorização das empresas de tecnologia também entrou no debate.
Utsch afirmou que empresas com negócios maduros possuem fluxos de caixa mais previsíveis, enquanto companhias ligadas a tecnologias em transformação apresentam uma dificuldade adicional: é mais complexo estimar receitas, margens e até quais modelos de negócio continuarão relevantes no futuro.
Na avaliação dele, o mercado internacional já incorpora nos preços uma parcela significativa dos benefícios esperados com as novas tecnologias.
“Na média, eu acho que é um valuation alto, mas ele não é um valuation bolha”, afirmou Utsch.
O gestor utilizou a Nvidia como exemplo. Segundo ele, a empresa possui crescimento de receita, margens e geração de caixa que justificam parte da valorização atual, mas enfrenta um ambiente tecnológico que pode mudar rapidamente.
A companhia disputa espaço com alternativas desenvolvidas por empresas como Google e AMD, além de novas tecnologias de processamento que podem alterar a estrutura atual do mercado de semicondutores.
Índices reduzem risco de tentar escolher o vencedor da tecnologia
Diante da dificuldade de identificar antecipadamente qual empresa dominará a próxima etapa da transformação tecnológica, Utsch defendeu uma exposição mais ampla ao mercado.
O gestor afirmou que a Kiron prefere utilizar índices em vez de depender exclusivamente da escolha de uma companhia específica.
Ele citou o S&P 500 como exemplo de uma estrutura que incorpora gradualmente as empresas que ganham relevância e reduz o peso daquelas que perdem espaço.
Segundo Utsch, aproximadamente 30% a 40% do índice estaria atualmente exposto à cadeia de tecnologia, semicondutores e inteligência artificial, conforme a estimativa apresentada no programa.
A estratégia procura diminuir o risco de apostar antecipadamente em uma única vencedora em um setor marcado por mudanças rápidas.
A discussão apresentada no Wall Street Cast conecta, assim, dois tipos de risco para o investidor: o risco fiscal no Brasil e as transformações estruturais dos mercados globais. Para Utsch, acompanhar dívida, inflação, câmbio e a eficiência dos investimentos em tecnologia será fundamental para entender como esses movimentos poderão afetar a alocação de capital nos próximos anos.

















