A corrida por inteligência artificial está ampliando os investimentos em data centers, energia, semicondutores e capacidade computacional, mas também elevando os riscos para empresas e investidores expostos ao setor. No Global Wallet, da BM&C News, apresentado por Rafael Lara, o gestor Ângelo Belitardo avaliou que a infraestrutura de inteligência artificial continua em processo de expansão, enquanto grandes empresas de tecnologia enfrentam um período de investimentos elevados e maior incerteza sobre a geração de caixa.
Segundo Belitardo, empresas ligadas à infraestrutura e tecnologia apresentaram resultados acima das expectativas no primeiro trimestre de 2026, acompanhadas por uma expansão dos investimentos das grandes companhias do setor. Microsoft, Google, Meta e Nvidia foram citadas durante o programa no contexto da necessidade de ampliar data centers, adquirir GPUs e contratar capacidade computacional para os projetos de IA.
O movimento também atraiu capital de fundos que utilizaram alavancagem para ampliar posições em empresas relacionadas à infraestrutura tecnológica. Para o gestor, esse mecanismo pode aumentar os retornos durante períodos de valorização, mas também intensifica perdas quando a volatilidade sobe.
“Quando o mercado ele tá com muita alavancagem, a oscilação acaba aumentando muito”, afirmou Belitardo.
Alavancagem amplia efeito das oscilações
A combinação entre valorização das ações e endividamento dos investidores foi um dos principais riscos abordados durante a entrevista. Belitardo explicou que fundos alavancados podem ser obrigados a reduzir suas posições quando o ambiente de mercado se deteriora.
A necessidade de vender ativos em um intervalo curto pode provocar movimentos simultâneos entre diferentes participantes e aprofundar as quedas das ações. Segundo o gestor, papéis ligados à tecnologia e infraestrutura chegaram a registrar recuos entre 30% e 40% durante um episódio recente de venda, enquanto empresas menores e mais alavancadas tiveram quedas ainda superiores.
Entre os fatores mencionados para explicar esse movimento estão o aumento das tensões no Oriente Médio, mudanças na economia do Japão, oscilações dos juros nos Estados Unidos e a necessidade de rebalanceamento das carteiras de fundos de pensão.
Com a valorização anterior das ações, alguns fundos ultrapassaram os limites estabelecidos para exposição à renda variável, segundo Belitardo. O retorno aos percentuais previstos em suas políticas de investimento acrescentou pressão vendedora ao mercado.
O gestor ressaltou, porém, que uma queda de curto prazo não significa necessariamente o encerramento de uma tese de longo prazo. A avaliação, segundo ele, precisa considerar geração de receita, lucro, fluxo de caixa, dívida e perspectiva de crescimento.
Infraestrutura de inteligência artificial entra no centro da análise
Para Belitardo, uma das principais questões para avaliar empresas expostas à inteligência artificial é verificar quanto dinheiro a companhia efetivamente consegue gerar depois dos investimentos necessários para sustentar sua expansão.
“Quanto que vai entrar de caixa e quanto que vai sair de caixa da empresa”, afirmou ao resumir um dos critérios utilizados na análise.
O tema ganha importância porque as grandes empresas de tecnologia estão comprometendo recursos significativos com data centers, equipamentos e capacidade computacional.
Belitardo afirmou durante o programa que Google, Microsoft e Meta apresentavam previsões de fluxo de caixa livre negativo para o ano. Também destacou que parte dos contratos de investimentos futuros ainda não estaria refletida integralmente nos balanços, de acordo com a avaliação apresentada na entrevista.
Por isso, o gestor considera possível que as Big Techs atravessem períodos de maior volatilidade à medida que o capex aumenta e a necessidade de financiamento cresce. Ele ressaltou, no entanto, que essa análise não representa uma visão negativa de longo prazo para as companhias.
O ponto central, segundo Belitardo, está no ciclo de cada empresa e na capacidade de transformar investimentos atuais em geração recorrente de caixa.
Neoclouds aparecem no início de um novo ciclo
Entre as áreas discutidas no programa, Belitardo destacou as chamadas neoclouds, empresas que operam data centers e oferecem capacidade computacional para companhias de tecnologia, bancos, governos e outras organizações.
O modelo difere da venda pontual de equipamentos porque pode envolver contratos de longo prazo para cessão de poder computacional.
Segundo o gestor, terrenos com disponibilidade de energia e conexão às redes de transmissão se tornaram ativos importantes para esse mercado. Ele afirmou que desenvolver uma infraestrutura desse tipo pode levar de sete a dez anos, enquanto a necessidade das empresas de tecnologia é mais imediata.
“A gente tá em um começo de um ciclo e é um ciclo menos vulnerável porque você tem uma receita também muito recorrente”, avaliou.
Belitardo citou ainda o movimento de empresas que anteriormente concentravam suas atividades na mineração de Bitcoin e passaram a direcionar infraestrutura energética e data centers para serviços ligados à inteligência artificial.
Essa transição, porém, também envolve riscos. Empresas que ainda dependem de receitas associadas ao Bitcoin podem sofrer com quedas do ativo e recorrer a dívida ou emissão de ações para financiar a mudança de modelo, segundo o gestor.
Receita recorrente pode diferenciar empresas do setor
Outro ponto destacado na análise é a diferença entre empresas dependentes de ciclos de preço e aquelas capazes de transformar uma expansão temporária da demanda em contratos recorrentes.
Belitardo utilizou o segmento de memória como exemplo de atividade mais sujeita aos ciclos. A escassez pode elevar rapidamente o preço dos componentes, mas a entrada de novos fornecedores ou tecnologias pode posteriormente reduzir preços, receitas e fluxo de caixa.
Nas empresas que alugam capacidade computacional, a existência de contratos fixos pode oferecer maior previsibilidade durante o período de expansão da infraestrutura de inteligência artificial, segundo a avaliação apresentada no programa.
O gestor também ressaltou que múltiplos elevados de lucro não devem ser analisados isoladamente. Crescimento da receita, aumento das margens, evolução do fluxo de caixa e perspectivas do mercado em que a companhia atua são elementos que precisam entrar na avaliação.
Resfriamento de data centers cria outra frente de demanda
A expansão da capacidade computacional também aumenta as necessidades relacionadas ao resfriamento dos equipamentos.
Durante a entrevista, Belitardo destacou a adoção de sistemas de resfriamento líquido como uma das áreas que podem acompanhar o crescimento dos data centers. A mudança está associada ao aumento da densidade e do desempenho dos equipamentos utilizados para processamento de inteligência artificial.
A água, a energia e os componentes necessários para manter servidores em operação foram citados como recursos que podem se transformar em gargalos.
Segundo o gestor, a escassez de insumos é um dos riscos relevantes para a tese de infraestrutura tecnológica. Mesmo empresas com demanda elevada poderiam sofrer redução de receita caso não tenham acesso aos recursos necessários para ampliar suas operações.
A busca por fontes renováveis também apareceu como alternativa utilizada por companhias do setor para reduzir custos e garantir disponibilidade energética.
Big Techs podem enfrentar rotação de capital
Belitardo também relacionou a volatilidade das grandes empresas de tecnologia a um movimento de rotação de capital.
Após anos de valorização e crescimento de participação nos principais índices acionários, investidores podem reduzir gradualmente a exposição às Big Techs e direcionar recursos para empresas responsáveis pela infraestrutura necessária aos investimentos que elas próprias estão realizando.
O gestor observou ainda que grandes companhias de tecnologia também possuem participações em empresas que atuam como suas fornecedoras ou clientes.
Essa relação pode provocar sobreposição de receitas e lucros. Em um cenário de desaceleração, o efeito negativo poderia atingir diferentes elos da cadeia simultaneamente.
Ainda assim, Belitardo ponderou que as grandes empresas possuem modelos diversificados, liquidez elevada e presença global, fatores que precisam ser considerados antes de caracterizar o movimento como uma bolha.
Computação quântica abre discussão sobre segurança
Além da inteligência artificial, a entrevista abordou a computação quântica como uma possível nova etapa da transformação tecnológica.
Belitardo avaliou que o avanço dessa tecnologia poderá exigir mudanças nos sistemas de criptografia utilizados atualmente por instituições financeiras, governos e sistemas de defesa.
Na visão apresentada durante o programa, a capacidade computacional das novas máquinas pode aumentar a necessidade de soluções de segurança capazes de proteger informações sensíveis.
A discussão também alcançou as criptomoedas. Belitardo afirmou que sistemas baseados em blockchain poderão precisar de atualizações para acompanhar as mudanças na capacidade de processamento.
O gestor projeta que computação quântica e novas formas de criptografia podem se desenvolver de maneira mais intensa a partir dos próximos anos, embora tenha destacado que a seleção das empresas capazes de transformar essa demanda em negócios continuará sendo um desafio para os investidores.
Diversificação permanece no radar
Apesar do foco do programa em inteligência artificial e tecnologia, Belitardo defendeu uma carteira diversificada.
Durante a entrevista, foram mencionados segmentos como bancos, transporte marítimo, identificação digital e defesa como exemplos de atividades que podem reduzir uma concentração excessiva no setor tecnológico.
A avaliação apresentada no Global Wallet é de que o avanço da inteligência artificial continuará criando demanda por infraestrutura, mas o crescimento não elimina riscos relacionados à alavancagem, à escassez de recursos, aos juros e à capacidade das empresas de transformar investimentos elevados em fluxo de caixa.
Para Belitardo, acompanhar o ciclo das companhias e diferenciar negócios dependentes de movimentos temporários daqueles capazes de construir receitas recorrentes será um dos pontos centrais para avaliar o setor nos próximos anos.















