Os Estados Unidos mantêm sanções econômicas amplas contra o Irã desde 1979, enquanto tarifas adicionais sobre produtos chineses seguem em vigor desde 2018. Bruno Corano, economista e convidado da BM&C News, avalia que o impacto político desses instrumentos é limitado e que o foco dos mercados deveria migrar para o risco de inflação via petróleo e para o alto endividamento de grandes economias.
As sanções ao Irã são administradas por órgãos como o Departamento do Tesouro e o Departamento de Estado dos EUA, com foco em restringir receitas de petróleo e o acesso de Teerã ao sistema financeiro internacional. Já as tarifas sobre a China foram justificadas por Washington como resposta a práticas comerciais consideradas desleais, incluindo propriedade intelectual e subsídios industriais.
Como funcionam hoje as sanções dos EUA ao Irã?
O regime de sanções ao Irã é um dos mais antigos e amplos conduzidos pelos EUA. O Office of Foreign Assets Control (OFAC), do Departamento do Tesouro, detalha que o programa, em vigor desde a crise dos reféns em 1979, foi expandido para atingir setores como energia, financeiro, naval, mineração, siderurgia e construção, além de indivíduos e empresas incluídos na lista de Nacionais Especialmente Designados (SDN).
Segundo Corano, o objetivo é negar recursos financeiros ao governo iraniano para:
– programas nucleares e de mísseis balísticos;
– apoio a grupos classificados como terroristas;
– atividades consideradas desestabilizadoras na região.
Em 2018, após a retirada dos EUA do Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA), o governo norte-americano reimpôs integralmente as sanções nucleares que haviam sido suspensas, voltando a atingir petróleo, transporte marítimo, construção naval e transações com o Banco Central do Irã.
Bruno, porém, faz a leitura de que, apesar da dureza do arcabouço, as sanções “nunca tiveram de fato efeito prático” sobre o comportamento de Teerã. As fontes oficiais divergem desse diagnóstico e enfatizam que houve impacto econômico relevante, sobretudo sobre receitas de exportação de petróleo e acesso a financiamento externo, ainda que os resultados políticos em temas centrais permaneçam limitados.
Por que a China limita o alcance das sanções ao Irã?
Um ponto central da análise de Bruno é o papel da China como grande parceiro econômico do Irã, principalmente na compra de petróleo. Documentos do Departamento de Estado e do Tesouro dos EUA reconhecem que importadores relevantes de petróleo iraniano são alvos potenciais de sanções secundárias, que punem empresas estrangeiras que mantêm negócios significativos com setores sancionados de Teerã.
Na prática, Washington enfrenta um dilema:
– pressionar terceiros que negociam com o Irã, inclusive empresas chinesas;
– evitar romper a interdependência econômica com Pequim, que continua sendo um dos maiores parceiros comerciais dos próprios EUA.
É essa interdependência que, na visão de Bruno, faz com que os EUA “passem a pisar em ovos” ao ameaçar quem negocia com Teerã. A relação é descrita por ele como um vínculo em que ambos os lados podem não “se amar”, mas dependem um do outro.
As autoridades norte‑americanas, por sua vez, sustentam que, mesmo com alternativas comerciais como a China, as restrições financeiras e os custos reputacionais associados às sanções secundárias ainda elevam o custo de operar com o Irã, limitando parcialmente os benefícios desses fluxos para Teerã.[^faqs-iran]
O que diferencia sanções ao Irã da disputa tarifária EUA–China?
Desde 2018, o Office of the United States Trade Representative (USTR) conduz ações sob a Seção 301 do Trade Act de 1974 contra a China. Essas ações resultaram em tarifas adicionais sobre centenas de bilhões de dólares em produtos chineses, implementadas em diferentes listas com alíquotas que chegaram a 25% para segmentos amplos de importações.
Apesar do acordo de “Fase Um”, assinado em janeiro de 2020, a maior parte dessas tarifas permanece em vigor. O USTR realiza revisões quadrienais para decidir se os encargos:
1. são mantidos;
2. são modificados;
3. ou são revogados, conforme exigências legais.
Bruno traça um paralelo entre eventuais novas ameaças de aumento de tarifas e o que ocorreu na disputa de 2018–2019: anúncio de medidas, reação da China, seguida por negociação e acomodação. Para ele, trata-se de muito ruído e pouca efetividade em termos de mudança estrutural.
Os documentos oficiais dos EUA, porém, apresentam as tarifas como instrumento central de pressão para alterar práticas comerciais chinesas e reconhecem efeitos econômicos significativos tanto para exportadores chineses quanto para importadores e consumidores americanos.
A tabela abaixo resume, de forma simplificada, as diferenças entre sanções ao Irã e tarifas sobre a China:
| Instrumento | Alvo principal | Órgão responsável | Foco declarado oficial | Risco de mercado destacado por Bruno |
|---|---|---|---|---|
| Sanções econômicas ao Irã | Governo e setores iranianos | Tesouro dos EUA (OFAC) e Departamento de Estado | Pressionar por limites ao programa nuclear e a atividades regionais | Ruído persistente, mas com eficácia política limitada |
| Sanções secundárias | Empresas de terceiros que negociam com o Irã | Tesouro dos EUA (OFAC) | Desencorajar apoio econômico a Teerã | Dilema com parceiros como a China |
| Tarifas Seção 301 sobre a China | Exportadores chineses | USTR | Reagir a práticas comerciais consideradas desleais | Episódios de guerra tarifária com tendência a negociação posterior |
Como o estreito de Ormuz entra na conta da inflação?
Na leitura de Corano, o que preocupa mais do que anúncios de sanções e tarifas é o risco de inflação alimentada por choques de energia ligados ao estreito de Ormuz. A Administração de Informação de Energia dos EUA (EIA) classifica Ormuz como o gargalo de petróleo mais importante do mundo.
Em 2018, cerca de 21 milhões de barris de petróleo por dia passaram pelo estreito, o equivalente a aproximadamente 21% do consumo mundial de petróleo naquele ano. A EIA ressalta que fechamentos ou interrupções prolongadas em Ormuz teriam impacto significativo sobre os mercados globais, elevando preços e custos de energia.
Isso significa que qualquer aumento de tensão na região, mesmo sem bloqueio efetivo, tende a elevar o prêmio de risco embutido nas cotações de petróleo, o que se traduz em pressão inflacionária global. Esse elo entre geopolítica, energia e inflação costuma ser menos explícito nas comunicações oficiais focadas em objetivos de segurança, mas é central para a precificação de ativos.
Por que a dívida pública elevada incomoda tanto quanto sanções e tarifas?
Além da inflação, o convidado aponta o alto endividamento de países como Brasil, China e Estados Unidos como um risco que, em sua visão, merece mais atenção dos investidores do que a retórica diária sobre sanções e tarifas.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) compila dados de dívida bruta do governo geral no World Economic Outlook (WEO) e discute tendências fiscais no Fiscal Monitor. Esses relatórios vêm destacando, nos últimos anos, que o aumento da dívida pública em economias avançadas e emergentes é um fator de vulnerabilidade para a estabilidade macroeconômica de médio prazo.
Esse quadro gera três canais de preocupação para mercados:
1. Espaço fiscal menor para respostas a choques, como novos aumentos de juros ou crises de energia.
2. Sensibilidade maior a altas nas taxas de juros, que encarecem o serviço da dívida.
3. Risco de reprecificação súbita dos ativos quando investidores passam a exigir prêmios maiores para financiar governos.
Bruno argumenta que, ao comparar o potencial de dano entre uma rodada de sanções adicionais ao Irã ou um novo capítulo de guerra tarifária com a China, de um lado, e a combinação de inflação elevada com dívida alta, de outro, o segundo conjunto de riscos tende a ser mais estrutural para preços de ativos.
O que o investidor pode fazer na prática para acompanhar esses riscos?
Sem fazer recomendações de investimento, algumas rotinas ajudam a organizar o acompanhamento de sanções, tarifas, energia e dívida pública:
1. Monitorar fontes oficiais: acompanhar comunicados do Tesouro dos EUA (OFAC) e do Departamento de Estado sobre novas sanções ao Irã, bem como atualizações do USTR sobre revisões das tarifas da Seção 301 aplicadas à China.
2. Cruzar geopolítica com dados de energia: seguir relatórios da EIA sobre gargalos como o estreito de Ormuz e relacionar movimentos de preços do petróleo com eventuais episódios de tensão na região.
3. Acompanhar indicadores fiscais e inflacionários: consultar periodicamente os bancos centrais e institutos de estatística nacionais, além das bases do FMI (WEO e Fiscal Monitor), para avaliar tendências de dívida e inflação em grandes economias.
Na leitura de Bruno, entender essa hierarquia de riscos ajuda a separar o ruído conjuntural das sanções e ameaças tarifárias dos fatores que, de fato, podem reprecificar ativos: choques persistentes de energia e trajetórias fiscais insustentáveis.
Assista ao vídeo abaixo:















