Já fazia alguns dias que empresários e executivos elogiavam o candidato Augusto Cury em conversas informais e em reuniões de trabalho. De fato, ele tinha sido quem mais amealhara novos seguidores nas redes sociais na última quinzena (os inimigos creditam esse crescimento a uma anabolização digital, alimentada por bots). Os mais céticos, porém, rebatiam dizendo que ele seria uma reedição de João Amoêdo: bastante comentado e pouco votado. Mas as pesquisas divulgadas ontem mostram que Cury cresceu e apareceu. Não suficientemente para sonhar com uma participação no segundo turno, mas o bastante para colocá-lo no terceiro lugar e aumentar exponencialmente o seu cacife eleitoral.
No segundo turno, se mantiver essa posição, o candidato do Avante terá papel importante. Talvez ele não tenha a capacidade de direcionar votos aos finalistas do pleito. Mas pode enriquecer a narrativa de Luiz Inácio Lula da Silva ou de Flávio Bolsonaro. Se aderir a Lula, a mensagem será a de que o presidente pode aglutinar aqueles que não são radicais em sua base de apoio. Se o escritor for em direção a Flávio, contudo, o senador vai mostrar que as forças oposicionistas são bem maiores que o bolsonarismo raiz.
Augusto Cury saltou de 2% para 11% (BTG/Nexus) ou de 2% para 7,8% (Atlas/Intel). A pergunta que muitos fazem, portanto, é: por que ele cresceu tanto? Muitos se espantaram, até por conta do desempenho do candidato na sabatina promovida pelo Jornal Nacional na noite de sábado. Ocorre que a performance de Cury, considerada de mediana para sofrível, não foi capturada integralmente pelas pesquisas.
Ainda que fosse, a audiência do JN em um sábado nunca foi muito alta – especialmente agora, nesses tempos em que boa parte da sociedade não assiste mais a programação da TV aberta. O que conta, mesmo, nesse mundo digital é a divulgação de reels nas redes sociais. E, neste quesito, o debate da TV Bandeirantes é que foi o grande divulgador do proponente do Avante.
No evento da Band, Cury se destacou quando peitou o adversário Renan Santos: “Você tem uma agressividade que me assombra”. Até então, Renan havia capturado uma parte do eleitorado que não queria nem Lula nem Flávio e se encantava com suas lacrações. Mas, ao mesmo tempo, esse comportamento provocava a rejeição de muitos. Foram esses eleitores que, pelo menos por enquanto, se bandearam para Augusto Cury.
É preciso entender também, neste contexto, que ninguém vende 40 milhões de livros sem saber o que as pessoas querem ouvir. E entre todos os candidatos, Cury é o único que está falando sobre o precário estado emocional que vivemos por conta da polarização.
Em entrevista publicada em maio, por exemplo, ele disse que “a polarização dividiu famílias, destruiu amizades e criou uma sociedade emocionalmente adoecida” e que sua proposta é “transformar saúde emocional em política de Estado”. Depois de mais de uma década de embate entre petismo e bolsonarismo, essas frases capturam uma fadiga real do eleitor brasileiro, cansado do tom bélico que marcou tanto o governo Bolsonaro quanto os mandatos de Lula.
Cury surgiria, assim, como uma espécie de antídoto simbólico contra essa agressividade crônica, oferecendo um vocabulário de pacificação em vez das promessas de combate ao adversário que dominam os discursos de Flávio e do próprio presidente. Não é coincidência que ele tenha começado a tirar votos dos dois lados do espectro ao mesmo tempo, algo raro nesta eleição: há um tipo de eleitor que parece menos interessado em qual lado vai vencer a guerra e mais disposto a experimentar um candidato que promete tratar o país como um paciente exausto, precisando de cura antes de precisar de outro round de embate ideológico.
Cury dificilmente estará no segundo turno, pois a base fiel de Lula de Flávio ainda é dominante. Mas sua ascensão é um sinal de que há um grupo grande entre o eleitorado que está aberto a uma abordagem diferente – e são esses eleitores que vão decidir, no segundo turno, quem ocupará o Palácio do Planalto pelos próximos quatro anos.
P. S.: na tarde de ontem, o ministro Dias Toffoli proibiu que Renan Santos fosse a debates recebesse recursos do fundo eleitoral ou fizesse propaganda na internet, alegando supostas irregularidades na divulgação de perfis das redes sociais. Trata-se, evidentemente, de uma punição tão excessiva que se transformou no assunto mais comentado da segunda-feira. Exagero por parte de Toffoli. Se fosse necessária algum tipo de punição, uma multa estaria de bom tamanho. A sociedade, diante desse tipo de arbitrariedade, tem razão de criticar determinados ministros do Supremo Tribunal Federal, que reagem sempre da mesma maneira: dizendo que críticas ao STF são atentados à democracia. Chega dessa lenga-lenga. Como se dizia na época analógica, está na hora de virar o disco. Esta baboseira, no entanto, pode render algo bom para o candidato: seu discurso de que é perseguido pelo sistema recebeu um impulso considerável com a atitude de Toffoli. É bem possível, assim, que Renan cresça nas próximas pesquisas.
*Coluna escrita por Aluizio Falcão Filho, é jornalista, articulista e publisher do portal Money Report. Foi diretor de redação da revista Época e diretor editorial da Editora Globo, com passagens por veículos como Veja, Gazeta Mercantil, Forbes e a vice-presidência no Brasil da agência de publicidade Grey Worldwide
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