O Brasil criou 58,6 mil postos de trabalho com carteira assinada em julho, abaixo da expectativa de 115 mil vagas mencionada por economistas. No acumulado de 2026, foram abertos 972.203 empregos formais, resultado 21% inferior ao registrado no mesmo período do ano passado.
A leitura dos economistas é de um mercado de trabalho que continua resistente, mas perde força gradualmente. Leonardo Costa, economista do ASA, avalia que o Caged mantém o emprego formal em expansão, “embora em ritmo mais moderado do que o observado no ano passado”. Antonio Ricciardi, economista do Banco Daycoval, também identifica uma desaceleração, “porém gradual, ainda indicando que o mercado de trabalho segue aquecido e desaquecendo de maneira moderada”.
Os dados de julho reforçam essa percepção. Quatro dos cinco principais grupos de atividades econômicas criaram vagas, mas o ritmo agregado ficou abaixo do esperado. O setor de serviços liderou, com 24.098 novos empregos, seguido pela construção civil, com 12.691, agropecuária, com 12.523, e indústria, com 11.315. O comércio fechou 2.056 postos.
O que o Caged mostra sobre a força do mercado de trabalho?
Para Leonardo Costa, a perda de ritmo aparece com mais clareza quando os efeitos sazonais são retirados dos números.
“Descontada a sazonalidade, o mercado de trabalho formal gerou 33,8 mil postos de trabalho, com a média móvel de 3 meses desacelerando para 49,6 mil vagas”, afirma.
O economista considera que o resultado reforça a visão de um mercado ainda resiliente, mas em processo de arrefecimento.
O dado acumulado também evidencia essa mudança. Apesar de o país ter criado quase 1 milhão de empregos formais nos primeiros sete meses de 2026, o volume ficou 21% abaixo do registrado no mesmo período de 2025.
A desaceleração, portanto, ocorre mais pela perda de velocidade da criação de vagas do que por uma retração generalizada do emprego.
Essa leitura também aparece na avaliação mais ampla de Ricciardi sobre o mercado de trabalho.
“Bom, no geral, o dado veio bem de acordo com o que esperávamos, com a nossa narrativa de que a desaceleração do mercado de trabalho tende a ser gradual durante o ano”, afirma.
Segundo o economista do Daycoval, a ocupação apresentou alguma recuperação, mas segue crescendo em ritmo inferior ao observado anteriormente.
“A gente está variando em 0,9% ano contra ano. Se a gente pega a série histórica, estava variando em mais de 2% no início do ano passado”, destaca.
Serviços ainda sustentam a geração de empregos?
Os números de julho mostram que o setor de serviços continua sendo o principal suporte para a criação de vagas.
Foram 24,1 mil novos empregos no setor, quase o dobro do saldo registrado individualmente por construção, agropecuária ou indústria. Dentro dos serviços, o segmento de transporte, armazenagem e correio abriu 15,2 mil vagas.
Leonardo Costa observa que a desaceleração aparece de forma mais intensa justamente nos setores mais ligados ao ciclo econômico.
“A desaceleração tem sido mais visível em setores tradicionalmente mais sensíveis ao ciclo econômico, como indústria, comércio e construção civil, enquanto o setor de serviços segue sustentando a geração de empregos”, afirma.
Regionalmente, a criação de vagas ficou concentrada principalmente no Sudeste, com 21,7 mil postos, e no Nordeste, com 19 mil.
O salário médio de admissão chegou a R$ 2.419, com alta real de 0,63% na comparação mensal.
Rendimentos também dão sinais de estabilização?
Ricciardi avalia que os rendimentos começam a apresentar uma moderação depois da queda observada anteriormente.
Após três meses de recuo, houve uma reversão parcial, embora a média móvel trimestral ainda mostre perda.
“Esse movimento foi revertido, em certa parte, em linha com o que a gente esperava: de que os rendimentos, daqui para frente, tendem a ficar mais estáveis”, afirma.
Na comparação anual, os rendimentos ainda apresentam crescimento, mas também vêm desacelerando.
Esse comportamento é importante porque indica que o ajuste do mercado de trabalho não ocorre apenas na criação de vagas. Ocupação e renda também começam a responder à perda de força da atividade, embora sem sinais de deterioração abrupta.
O que esperar do emprego até o fim de 2026?
A avaliação dos economistas é de continuidade da desaceleração nos próximos meses.
Ricciardi ressalta que os números mensais podem oscilar, mas considera que a tendência deve permanecer.
“À frente, a gente espera que este movimento continue. Com dados mensais, pode haver ruído para cima ou para baixo, mas, na tendência, até o final do ano, deve desacelerar”, afirma.
O economista espera rendimentos praticamente estáveis, com poucos ganhos reais, e ocupação ainda fraca, sem avanço expressivo nos próximos meses.
O Banco Daycoval mantém projeção de taxa de desemprego de 5,6% no final do ano.
“Continuamos com nossa projeção de 5,6% para a taxa de desemprego no final do ano e com a confirmação de que o mercado de trabalho deve desacelerar de maneira gradual”, diz Ricciardi.
A leitura de Leonardo Costa segue na mesma direção: o emprego formal continua crescendo, sustentado principalmente pelos serviços, mas em velocidade menor do que em 2025.















