O investidor estrangeiro continua determinante para o rumo da Bolsa brasileira em 2026, pesando fatores globais como o boom de inteligência artificial e tensões geopolíticas, além de riscos fiscais, inflação, juros do Copom e até o debate sobre a escala de trabalho 6×1.
A entrevista da BM&C News com Gustavo Bertotti, Head de Renda Variável Fami Capital, traz a pergunta que muitos investidores fazem hoje: a Bolsa brasileira está barata ou é uma armadilha em 2026? A resposta passa, em boa parte, pelo olhar do investidor estrangeiro, que continua sendo peça-chave na precificação dos ativos listados na B3.
Pelos dados oficiais da própria B3, o fluxo de capital estrangeiro no mercado à vista de ações é acompanhado diariamente, com série histórica que mostra entradas e saídas por tipo de investidor. Esse movimento ajuda a explicar por que períodos de forte compra ou venda por estrangeiros costumam coincidir com ralis ou correções mais intensas no Ibovespa.
Por que o investidor estrangeiro pesa tanto na Bolsa brasileira em 2026?
A B3 é a bolsa oficial do Brasil e concentra a negociação de ações, derivativos listados e outros ativos financeiros. A estrutura acionária das companhias listadas e a composição do Ibovespa mostram peso relevante de bancos, petróleo, mineração e utilities, setores que geralmente atraem estrangeiros em busca de liquidez e exposição a commodities.
Na entrevista, Bertotti descreve uma forte dependência da B3 em relação ao investidor estrangeiro. A base oficial da B3 confirma que esse fluxo é de fato relevante, mas também mostra participação de investidores locais institucionais e pessoas físicas. A ideia de que a Bolsa é “100% dependente” do estrangeiro é, portanto, uma hipérbole opinativa, não um dado estatístico.
Para quem acompanha o mercado, o ponto central é outro: em momentos de maior incerteza global e local, o estrangeiro tende a reduzir exposição a mercados emergentes como o Brasil, classificados em índices internacionais como o MSCI Emerging Markets.
Como a tese de inteligência artificial lá fora mexe com o apetite por Brasil?
Um dos gatilhos citados por Bertotti é o resultado recente da NVIDIA, empresa de tecnologia listada na Nasdaq e considerada uma das principais referências da tese de inteligência artificial. A companhia divulga oficialmente seus balanços trimestrais no site de relações com investidores e em documentos enviados à SEC.
Nos últimos trimestres, a NVIDIA reportou crescimento robusto em receitas ligadas a data centers e GPUs usadas em aplicações de IA generativa. Esses números, apresentados em releases e conferências com analistas, reforçaram a percepção de que o setor de tecnologia nos EUA oferece alto potencial de retorno.
Instituições como FMI e Banco de Compensações Internacionais (BIS) descrevem, em relatórios sobre estabilidade financeira global, como resultados fortes em grandes empresas de tecnologia podem redirecionar fluxos de capital para esses ativos, reduzindo o apetite por ações em mercados emergentes.
Na prática, o investidor estrangeiro compara:
| Fator global | Efeito típico sobre o fluxo para Brasil |
|---|---|
| Resultados fortes de tech/IA nos EUA (como NVIDIA) | Maior alocação em ações de tecnologia, potencialmente reduzindo recursos destinados a emergentes |
| Aumento de aversão a risco global | Redução de exposição a mercados emergentes, busca por ativos considerados mais seguros |
| Alta do petróleo ligada a tensões geopolíticas | Benefício para produtoras de óleo e gás, mas também risco para inflação global e juros |
Essa dinâmica ajuda a entender por que, mesmo com ações brasileiras parecerem baratas em múltiplos, o fluxo externo pode seguir contido.
De que forma inflação (IPCA-15) e juros do Copom entram na conta?
Outro eixo central da análise de Bertotti é o ciclo de juros no Brasil. A política monetária é conduzida pelo Banco Central, por meio do Comitê de Política Monetária (Copom), que define a taxa Selic-meta com base nas projeções de inflação e atividade.
Entre os principais insumos para essas decisões está o IPCA-15, indicador calculado pelo IBGE que funciona como prévia do IPCA cheio, a inflação oficial.[^ipca15] O IPCA-15 é divulgado mensalmente, aproximadamente na metade de cada mês, com variações mensais, no ano e em 12 meses.
Relatórios de inflação e atas do Copom mostram que inflação mais alta tende a manter juros elevados por mais tempo, encarecendo o custo da dívida das empresas e afetando sua rentabilidade e planos de investimento (capex).
Bertotti destaca que muitas companhias projetaram um cenário de juros cadentes para calibrar guidance e capex, e agora se veem revisando esses planos. Nos documentos oficiais arquivados na CVM e na B3, é possível acompanhar, caso a caso, se houve revisão de projeções ou investimentos.
Empresas abertas são obrigadas a divulgar ITRs e demonstrações financeiras, com dados de Ebit/Ebitda, lucro, endividamento e, quando optam, projeções e orientações ao mercado.
O que os resultados de empresas brasileiras mostram sobre o ciclo econômico?
Bertotti argumenta que a temporada de resultados do 2º trimestre teria decepcionado “na média”, com fragilidade de Ebit e queda de lucros em vários setores. Essa avaliação depende de comparação com consensos de mercado, que não são dados oficiais e variam de casa para casa.
O que é verificável em bases públicas é que as empresas de setores como óleo e gás, bancos e utilities divulgaram seus números em ITRs e demonstrações padronizadas, com detalhes sobre margens, inadimplência, despesas financeiras e investimentos.
Bertotti destaca três movimentos, que podem ser verificados caso a caso nos balanços:
1. Óleo e gás: resultados beneficiados por preços internacionais do petróleo. Choques geopolíticos no Oriente Médio, monitorados por ONU, IEA e OPEP, tradicionalmente impactam o preço do barril.
2. Bancos: maior atenção à inadimplência e provisões para devedores duvidosos, espelhando o ciclo de crédito na economia real.
3. Utilities: pressão de custos e margens, frequentemente detalhada em notas explicativas.
A informação incômoda para o investidor é que, mesmo que a Bolsa pareça barata em termos de múltiplos em alguns casos, lucros pressionados, alavancagem alta e revisões de capex podem limitar o potencial de reprecificação no curto prazo.
Risco fiscal, político e geopolítico: como isso entra no preço dos ativos?
Bertotti enfatiza que o mercado estaria reagindo com mais força ao risco fiscal e político no Brasil. A situação das contas públicas é acompanhada em relatórios oficiais do Tesouro Nacional e do Banco Central, com dados sobre dívida, resultado primário e trajetória de gasto.
Organismos como FMI e agências de rating divulgam, em seus relatórios, avaliações sobre risco fiscal e institucional do país, elementos que influenciam o custo de financiamento soberano e corporativo.
No plano externo, o analista menciona “guerra entre Irã, Estados Unidos e Israel”. Documentos da ONU descrevem, na verdade, conflitos armados na região envolvendo Israel, grupos na Faixa de Gaza e outras frentes regionais, além de tensões com o Irã e participação dos EUA, sem declaração formal de guerra tripartite.
O que interessa para a Bolsa é o canal econômico: tensões no Oriente Médio podem sustentar petróleo mais caro, o que beneficia produtoras de óleo e gás, mas também pressiona inflação global, juros e custos para empresas intensivas em energia.
A discussão da escala 6×1 muda algo para a Bolsa agora?
No trecho final do vídeo, Bertotti cita o debate sobre a escala 6×1 como um fator de preocupação para empresários, por potencial aumento de custos trabalhistas. A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) prevê jornada máxima de 8 horas diárias e 44 semanais, admitindo escalas diferenciadas, como 6 dias de trabalho por 1 de descanso, desde que respeitados os limites de jornada e repouso semanal.
Qualquer mudança concreta na regra exige processo legislativo (Câmara, Senado e sanção presidencial) ou decisão de cortes superiores, com publicação no Diário Oficial da União.
Até que exista norma aprovada e detalhada, o impacto sobre custos das empresas e resultados corporativos permanece potencial, não mensurável em bloco. Esse é um ponto em que o discurso de risco muitas vezes se antecipa aos dados concretos.
Como o investidor pode acompanhar o que os “gringos” estão vendo na Bolsa?
Para transformar o debate do vídeo em monitoramento prático, o investidor pode seguir um roteiro simples usando apenas dados oficiais:
1. Fluxo estrangeiro na B3
Acessar a consulta de fluxo de investidores da B3 e acompanhar entradas e saídas diárias do investidor estrangeiro no mercado à vista.
2. Inflação e juros
Ver, no site do IBGE, os releases mensais do IPCA-15 e IPCA.[^ipca15] Em seguida, acompanhar comunicados, atas e o Relatório de Inflação do Copom no Banco Central para entender como esses números afetam a Selic.
3. Resultados corporativos
Consultar ITRs e demonstrações financeiras de empresas listadas, disponíveis na CVM e na B3, para checar endividamento, Ebit/Ebitda, lucro e capex.
4. Risco fiscal e político
Ler relatórios do Tesouro Nacional e estatísticas fiscais do Banco Central, além de comunicados recentes das agências de rating sobre o Brasil.
5. Cenário global: IA, petróleo e geopolítica
Acompanhar resultados da NVIDIA e de outras techs em seus sites de RI, relatórios de mercado de petróleo de IEA/OPEP e documentos da ONU sobre tensões no Oriente Médio.
6. Regras trabalhistas
Verificar propostas e normas sobre jornada de trabalho (como 6×1) em portais oficiais do governo, Congresso e Justiça, priorizando o texto da CLT e o Diário Oficial
A combinação desses dados permite avaliar se o mercado está mais pressionado por fatores globais (IA, petróleo, apetite por risco) ou domésticos (inflação, Selic, fiscal, regulação trabalhista) antes de tomar qualquer decisão. O conteúdo de Bertotti funciona como leitura de mercado, mas as decisões devem se apoiar sempre em números verificáveis das fontes oficiais citadas.
Assista ao vídeo abaixo:















