Com US$ 353 trilhões em dívidas e US$ 29 trilhões de emissões em 2026, juros em alta testam governos, empresas e o boom da inteligência artificial.
As grandes crises financeiras raramente começam por causa de um único número. Elas surgem quando dívidas, preços dos ativos e expectativas de lucro foram construídos para um mundo que deixou de existir.
Durante anos, governos, empresas e famílias se acostumaram ao dinheiro barato. Dívidas antigas eram substituídas por novas, muitas vezes com juros menores. Empresas financiavam projetos de retorno distante. Governos ampliaram gastos sem sentir imediatamente o peso dos encargos. Investidores aceitavam pagar preços elevados por lucros que talvez só aparecem muitos anos depois.
Esse mecanismo funcionava enquanto o custo do dinheiro permanecia baixo.
O problema é que os juros de longo prazo estão subindo justamente quando o mundo precisa refinanciar uma montanha de obrigações e financiar a maior corrida tecnológica das últimas décadas.
Uma dívida de US$ 353 trilhões
Segundo o Instituto de Finanças Internacionais, a dívida mundial chegou a quase US$ 353 trilhões no primeiro trimestre de 2026, aproximadamente 305% do PIB global. Esse estoque inclui compromissos de governos, empresas, famílias e instituições financeiras.
O tamanho da dívida, isoladamente, não torna uma crise inevitável. As obrigações são normalmente renovadas, alongadas ou substituídas por novas emissões.
O problema aparece quando essa rolagem precisa ser feita a juros mais altos.
Para os governos, a sustentabilidade depende da relação entre juros, crescimento, arrecadação e resultado fiscal. Para as empresas, o retorno dos investimentos superar o custo do financiamento. Para as famílias, a renda acompanhar prestações e encargos.
Quando essas relações se deterioram ao mesmo tempo, a dívida deixa de ser apenas um instrumento de financiamento e passa a funcionar como um freio sobre a economia.
O muro de refinanciamento de 2026
A OCDE calcula que governos e empresas deverão captar cerca de US$ 29 trilhões nos mercados de títulos em 2026. É um recorde, 17% acima de 2024 e o dobro do volume registrado dez anos atrás.
O número inclui refinanciamentos e novas necessidades de recursos. Mas o componente de rolagem é enorme: 78% das emissões previstas pelos governos da OCDE serão utilizadas para substituir dívidas existentes.
Papéis contratados quando o dinheiro era mais barato estão sendo trocados por obrigações com juros mais elevados.
A conta não chega de uma vez. Ela entra gradualmente nos orçamentos públicos, nas despesas financeiras das empresas, no crédito imobiliário, nos financiamentos ao consumidor e nas decisões de investimento.
É uma espécie de reajuste silencioso de toda a economia mundial.
O sinal dado pelo Tesouro americano
O mercado de títulos dos Estados Unidos ofereceu recentemente um sinal importante.
A taxa dos papéis do Tesouro americano com vencimento em 30 anos chegou a 5,34%, o maior nível desde 2007. A taxa de dez anos, referência para financiamentos e avaliação de ativos no mundo inteiro, encerrou a semana próxima de 4,74%.
Diante da pressão, o Tesouro dos Estados Unidos anunciou que dobrará, de US$ 2 bilhões para pelo menos US$ 4 bilhões por operação, as recompras de títulos de longo prazo destinadas a melhorar a liquidez do mercado.
Não foi um resgate nem um controle direto dos juros. Mas o momento do anúncio mostrou preocupação com o custo e o funcionamento do mercado de dívida.
As taxas caíram inicialmente, mas voltaram a subir. O título de 30 anos terminou a semana próximo de 5,28%, ainda perto das máximas recentes.
Esse movimento importa porque o título americano é a referência do preço do dinheiro mundial. Quando sua remuneração sobe, ações, imóveis, empresas, projetos de infraestrutura e dívidas de países emergentes passam a competir com um ativo considerado de baixo risco que começou a pagar mais.
O Oriente Médio reacende a inflação
A pressão sobre os juros não decorre apenas do endividamento. O conflito no Oriente Médio acrescentou um novo choque de oferta à economia mundial.
As restrições no Estreito de Ormuz atingiram o transporte de petróleo e elevaram os preços da energia. O próprio Federal Reserve reconheceu que os preços de energia medidos pelo índice PCE subiram 24% nos 12 meses encerrados em maio, em grande parte devido ao conflito.
O petróleo mais caro aumenta custos de transporte, fertilizantes, alimentos e produção industrial. Alimenta a inflação e reduz o espaço para os bancos centrais cortarem juros. Se o choque persistir, o mercado pode começar a considerar até novas elevações das taxas americanas.
Há também uma consequência política. Donald Trump voltou à Casa Branca apresentando-se como um presidente capaz de encerrar guerras, mas o conflito com o Irã se prolongou.
Pesquisa Reuters/Ipsos mostrou sua aprovação em 33%, a menor de seus dois mandatos, enquanto 64% desaprovam seu governo e 80% acreditam que a guerra será prolongada.
A geopolítica deixou de ser apenas um risco militar. Tornou-se também um problema inflacionário, fiscal e financeiro.
A inteligência artificial e a promessa de lucros
Nesse ambiente de endividamento elevado surgiu a maior aposta financeira da atualidade: a inteligência artificial.
Não há dúvida de que a IA pode aumentar a produtividade, reduzir custos e transformar setores inteiros. O erro seria negar a importância da tecnologia.
Mas uma revolução tecnológica pode ser verdadeira e, ainda assim, produzir uma bolha financeira.
A OCDE estima que nove grandes empresas de tecnologia deverão investir US$ 4,1 trilhões entre 2026 e 2030. Parte expressiva desse dinheiro será destinada a data centers, chips, energia, redes e sistemas de refrigeração.
A dimensão das expectativas pode ser medida pela Nvidia. A fabricante de chips vale atualmente cerca de US$ 5,24 trilhões na bolsa, praticamente o PIB anual projetado da Alemanha, de US$ 5,45 trilhões, e acima das economias do Japão e da Índia. Em seu pico recente, a companhia chegou a valer mais que o PIB alemão.
Valor de mercado e PIB são medidas diferentes — um representa o preço de uma empresa na bolsa; o outro, tudo o que um país produz durante um ano. Ainda assim, a comparação revela o tamanho extraordinário das expectativas incorporadas aos preços das empresas ligadas à inteligência artificial.
As nove gigantes analisadas pela OCDE emitiram US$ 122 bilhões em títulos apenas em 2025, mais de três vezes a média histórica. Poderão recorrer a aproximadamente US$ 1,2 trilhão em novas dívidas para financiar sua expansão até 2030.
O risco não está na existência da inteligência artificial. Está na diferença entre o volume investido e o lucro que esses ativos precisarão produzir.
Data centers exigem investimentos gigantescos, consomem energia e podem envelhecer rapidamente diante da evolução dos chips e dos modelos. Ao mesmo tempo, parte do financiamento está migrando para fundos de crédito privado e estruturas menos transparentes.
A tecnologia promete ganhos de produtividade. Mas os preços atuais incorporam expectativas extraordinárias de crescimento, receita e lucro durante vários anos.
Essa rentabilidade pode aparecer. O que não se pode afirmar é que aparecerá para todas as empresas, projetos e data centers atualmente financiados.
Produzir mais não garante consumir mais
Existe ainda uma contradição econômica importante.
A inteligência artificial aumenta a capacidade de produção, mas também transforma empregos. O FMI estima que aproximadamente 40% das ocupações mundiais poderão ser afetadas pela tecnologia, o que não significa necessariamente extinção, mas mudanças em tarefas, remuneração e contratação.
Se os ganhos de produtividade forem distribuídos por meio de salários maiores, novos empregos, preços menores e novos produtos, a IA poderá ampliar o crescimento e o consumo.
Mas, se esses ganhos ficarem excessivamente concentrados enquanto empregos e rendimentos são comprimidos, a demanda poderá crescer menos do que a capacidade produtiva.
Empresas podem produzir mais e gastar menos com mão de obra. Entretanto, alguém precisa comprar aquilo que a economia passa a produzir.
É nesse ponto que produtividade, emprego, distribuição de renda e retorno financeiro se encontram.
Como começa uma desalavancagem
Uma eventual correção não precisa começar com falências. Pode começar com uma revisão de expectativas.
Juros mais altos reduzem o valor presente dos lucros futuros. Ações caem. Títulos antigos perdem valor. Garantias ficam menores. Credores passam a exigir mais proteção. Empresas adiam investimentos. Fundos vendem ativos para reduzir riscos.
O processo pode ganhar velocidade:
- juros maiores encarecem a rolagem das dívidas;
- menor rentabilidade derruba avaliações;
- preços menores reduzem garantias;
- credores endurecem as condições;
- empresas cortam investimentos e empregos;
- o crédito diminui e a economia desacelera.
Isso é desalavancagem: a tentativa simultânea de reduzir dívidas, riscos e posições financeiras. Quando muitos fazem isso ao mesmo tempo, até ativos de boa qualidade podem ser vendidos.
Não há evidência suficiente para decretar uma nova crise de 2008. Muitas grandes empresas ainda apresentam caixa elevado, boa cobertura de juros e baixos índices projetados de inadimplência.
Mas os spreads de crédito permanecem próximos de mínimas históricas, mesmo diante de guerras, endividamento recorde e necessidades inéditas de financiamento. Essa tranquilidade pode indicar solidez, ou complacência.
O impacto sobre o Brasil e o agronegócio
O Brasil não ficaria isolado de uma correção internacional.
O choque chegaria pelo câmbio, pelos juros futuros, pela saída de capital, pelo custo do crédito e pelos preços das commodities. Uma desaceleração mundial poderia reduzir a demanda por alimentos, energia e matérias-primas.
Para o produtor rural, haveria uma combinação delicada: maior volatilidade do dólar, insumos importados mais caros, crédito restrito e possível pressão sobre os preços das commodities.
Mesmo quando a receita está ligada ao dólar, o endividamento, os custos financeiros e parte das despesas continuam pressionando a margem dentro do Brasil.
O alerta não é de pânico
O mundo não está condenado a uma crise financeira. Governos podem ajustar suas contas, empresas podem transformar investimentos em produtividade e a inteligência artificial pode criar riqueza suficiente para justificar parte relevante das apostas atuais.
Mas o mercado trabalha hoje com uma combinação perigosa: dívida recorde, refinanciamento gigantesco, juros longos em alta, guerra pressionando a inflação e investimentos tecnológicos que dependem de lucros futuros extraordinários.
O risco não está em um único desses fatores. Está em todos eles ocorrerem ao mesmo tempo.
A pergunta não é se a inteligência artificial mudará o mundo. Ela já está mudando. A pergunta é quanto dessa transformação produzirá caixa suficiente para remunerar o capital investido, num mundo que voltou a cobrar caro pelo dinheiro.
Quando o custo da dívida cresce mais rapidamente do que a renda, a arrecadação e os lucros, a conta não desaparece.
Ela apenas muda de mãos, até chegar a alguém que não consegue mais financiá-la.
*Coluna escrita por, Miguel Daoud, comentarista de economia e política na BM&C News. Administrador de Empresas, com especialização autodidata em Economia e Política, construiu uma trajetória consolidada no mercado financeiro e no agronegócio brasileiro.
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