A Petrobras não assumiu participação relevante na Braskem depois que a crise financeira já estava instalada. Durante os anos em que a alavancagem da petroquímica aumentou, a estatal já era uma das principais acionistas da companhia e participava formalmente de sua governança.
Pelo acordo de acionistas que vigorava entre Petrobras e Novonor, a antiga controladora tinha direito a indicar seis integrantes do Conselho de Administração da Braskem, enquanto a Petrobras podia indicar quatro membros e seus respectivos suplentes enquanto mantivesse ao menos 30% do capital votante. A estatal também tinha o direito de indicar o vice-presidente do conselho.
Isso não significa que a Petrobras tenha provocado a crise da Braskem nem que responda automaticamente pelas decisões tomadas pela administração da petroquímica. Mas coloca uma questão de governança no centro da atual reestruturação: o que os representantes indicados pela Petrobras sabiam sobre a deterioração financeira da Braskem e quais medidas defenderam enquanto a dívida e a alavancagem cresciam?
Qual era o poder da Petrobras dentro da Braskem?
Até a mudança do controle em 2026, a estrutura da Braskem concentrava a maior parte das ações com direito a voto nas mãos de Novonor e Petrobras.
A Petrobras detém 36,15% do capital total da Braskem e 47,03% do capital votante. Antes da entrada do Shine I, a Novonor possuía 50,1% das ações com direito a voto e tinha maioria no Conselho de Administração.
O acordo de acionistas estabelecia a seguinte divisão no conselho:
| Acionista | Indicações previstas |
|---|---|
| Novonor | 6 conselheiros |
| Petrobras | 4 conselheiros |
| Vice-presidente do CA | Indicação ligada à Petrobras |
A Novonor mantinha a primazia do controle, inclusive com o direito de indicar o presidente do Conselho de Administração. Ainda assim, documentos societários da Braskem mostram que várias decisões submetidas aos acionistas ou ao conselho exigiam consenso entre Novonor e Petrobras, com exceções previstas no próprio acordo.
Portanto, a Petrobras não era uma acionista sem participação na governança.
Enquanto isso, a alavancagem disparava
A trajetória financeira da Braskem mudou rapidamente depois do pico favorável do ciclo petroquímico.
No fim de 2021, a companhia tinha alavancagem corporativa de 0,94 vez. Em setembro de 2023, o indicador chegou a 12,21 vezes. No encerramento daquele ano, havia recuado para 8,12 vezes.
A deterioração voltou a ganhar força posteriormente.
No fim de 2025, a Braskem reportou alavancagem de 14,74 vezes, com dívida líquida ajustada de US$ 7,5 bilhões. Em março de 2026, o indicador chegou a 18,18 vezes.
A escalada ocorreu em um período marcado pelo prolongado ciclo de baixa da indústria petroquímica, redução de spreads, consumo de caixa, gastos relacionados a Alagoas e dificuldades na subsidiária mexicana Braskem Idesa.
Quando a crise entrou formalmente na agenda financeira?
Em setembro de 2025, a própria Braskem contratou assessores financeiros e jurídicos para avaliar alternativas destinadas a reorganizar sua estrutura de capital.
No mês seguinte, a empresa sacou integralmente uma linha de crédito stand-by de US$ 1 bilhão, medida que afirmou estar alinhada à gestão conservadora de caixa.
Em novembro, a Braskem Idesa deixou de pagar juros previstos para bonds com vencimento em 2029.
Os ratings também passaram por sucessivos cortes. Atualmente, a página de Relações com Investidores da Braskem registra rating D pela S&P e RD pela Fitch, classificações associadas a default e restricted default.
A sequência amplia a relevância das decisões tomadas pelos órgãos de governança naquele período.
O que os conselheiros indicados pela Petrobras fizeram?
A participação da Petrobras no Conselho de Administração coloca a atuação de seus representantes no centro da análise sobre a deterioração financeira da Braskem. A estatal tinha acesso às discussões estratégicas da companhia justamente no período em que a alavancagem aumentava e os riscos financeiros ganhavam peso.
O ponto, portanto, não é atribuir à Petrobras responsabilidade direta pela crise, mas entender como seus representantes atuaram diante dos sinais que se acumulavam. Atas, votos e manifestações do conselho podem revelar quando a situação de liquidez passou a preocupar a administração, quais alternativas foram discutidas e se houve divergências sobre decisões relevantes.
Entre os pontos que precisam ser esclarecidos estão os alertas apresentados sobre o aumento da dívida, os riscos associados à Braskem Idesa e aos desembolsos relacionados a Alagoas, além das premissas utilizadas para aprovar novos investimentos em um momento de maior pressão sobre o caixa.
Também é necessário saber se conselheiros indicados pela Petrobras questionaram essas decisões, apresentaram alternativas ou registraram votos contrários.
A existência de representantes da estatal no conselho não significa que a Petrobras pudesse, sozinha, impedir a deterioração da companhia. Mas mostra que ela acompanhou a crise a partir de dentro da estrutura de governança e torna relevante esclarecer qual foi sua atuação enquanto os indicadores financeiros pioravam.
Petrobras e Braskem agora dividem o controle
A estrutura mudou em 2026. Com a transferência da participação da Novonor ao Shine I, Petrobras e o fundo assinaram um novo acordo que estabeleceu controle compartilhado da Braskem.
O acordo passou a vigorar em 3 de junho e prevê representação igualitária entre as partes no Conselho de Administração e necessidade de consenso nas principais deliberações. A Petrobras manteve seus 36,15% do capital total e 47,03% das ações com direito a voto.
A atual presidente do Conselho de Administração da Braskem é Magda Chambriard, presidente da Petrobras e indicada pela estatal. O vice-presidente, Hélio Baptista Novaes, foi indicado pelo Shine I e é sócio do grupo IG4.
A própria Braskem descreveu a nova fase como uma combinação da experiência da IG4 em reestruturações com uma participação mais ativa da Petrobras.
Recuperação coloca a Petrobras diante de uma nova decisão
Em 24 de agosto, a Braskem apresentou pedido de recuperação extrajudicial para reorganizar aproximadamente US$ 10,9 bilhões em obrigações financeiras.
O plano foi protocolado com adesão inicial equivalente a 39,6% dos créditos abrangidos. A companhia terá 90 dias para buscar o apoio necessário para avançar com a homologação.
A proposta admite, entre outras possibilidades, capitalização de parte da dívida e eventual suporte de liquidez dos principais acionistas, caso seja necessário.
Isso muda a pergunta dirigida à Petrobras.
A discussão deixa de ser apenas sobre o que aconteceu durante a deterioração financeira da Braskem e passa a incluir quanto a estatal está disposta a comprometer daqui para frente.
A Petrobras é uma sociedade de economia mista controlada pela União. Portanto, qualquer decisão de ampliar sua exposição econômica à Braskem terá repercussão não apenas empresarial, mas também sobre a alocação de capital de uma companhia controlada pelo governo federal.
O ponto central não é afirmar que a Petrobras construiu a crise.
É reconhecer que ela estava dentro da governança enquanto a crise se desenvolvia e que agora participa diretamente das decisões que definirão quem assumirá o custo da reestruturação.














