Na sexta-feira, 21 de agosto, bitcoin passou de US$79 mil e fechou a maior semana em dois anos, com valorização entre 24% e 28% ao lado de ether. No mesmo dia, Ray Dalio publicou no LinkedIn um texto afirmando que os Estados Unidos podem entrar em uma crise de dívida soberana em três anos, para mais ou para menos dois.
Os dois fatos não se cruzaram por acaso. Eles têm a mesma origem, e essa origem não está em cripto. Está no mercado de títulos americano.
Na semana passada, o juro do Treasury de 30 anos bateu 5,337%, o maior nível desde 2007. O Japão, maior credor estrangeiro dos Estados Unidos, vinha vendendo títulos americanos para repatriar recursos e sustentar o iene. Foi nesse cenário que o secretário do Tesouro, Scott Bessent, anunciou na quarta-feira, 19 de agosto, que dobraria o limite das operações de recompra de títulos longos, de US$2 bilhões para US$4 bilhões por operação.
O mercado leu como alívio. O juro longo cedeu e o dinheiro voltou a procurar risco.
O que veio depois em cripto foi mecânico antes de ser fundamental. Havia semanas de posições vendidas acumuladas apostando na queda do bitcoin. Quando o preço virou, essas posições foram liquidadas à força, o que na prática significa comprar de volta no prejuízo. Essa compra obrigatória empurra o preço, que liquida mais posições, que empurram mais o preço.
Em 24 horas, segundo o CoinGlass, US$1,74 bilhão em posições vendidas foram liquidados, o segundo maior episódio já registrado, atrás apenas de 10 de outubro de 2025.
O Bitcoin saiu de uma faixa abaixo de US$65 mil e chegou a US$79 mil em três pregões.
Dalio olhou o mesmo anúncio do Tesouro e enxergou outra coisa. No texto, ele apresenta a recompra como um de três eventos convergentes, ao lado da venda japonesa e da alta dos juros longos, e conta que muita gente perguntou se aquilo era consistente com o modelo que ele descreveu em “How Countries Go Broke”. A resposta dele: “The answer is yes.” E faz questão de registrar que Bessent tem “only limited capacity” para comprar esses títulos.
No arcabouço dele, o começo do estágio final do grande ciclo de dívida tem marcadores definidos: juros longos subindo e liderando a curva, a moeda perdendo valor especialmente contra o ouro, e o Tesouro encurtando prazos por falta de demanda por dívida longa. Os números que ele usa para os Estados Unidos são estes: receita anual de US$5,5 trilhões, despesa de US$7,5 trilhões, US$1 trilhão só de juros (cerca de 20% da arrecadação) e mais US$10 trilhões de principal vencendo.
Aqui está o que me parece mais relevante nessa história. O mercado comemorou o anúncio como estímulo. Dalio leu o mesmo anúncio como sintoma. As duas leituras são opostas e as duas terminam no mesmo ativo.
Quem compra bitcoin pela primeira tese está comprando um ciclo de liquidez que se resolve em meses. Quem compra pela segunda está comprando uma tese de erosão monetária que se resolve em anos. São prazos incompatíveis, e confundir um com o outro é o erro mais caro que vejo investidor brasileiro cometer nesse mercado.
Há um dado que ajuda a separar as duas coisas: quem comprou depois que o squeeze acabou.
Na semana encerrada em 22 de agosto, os ETFs à vista de bitcoin e ether nos Estados Unidos captaram US$2,6 bilhões líquidos, sendo US$1,9 bilhão em bitcoin e US$697,2 milhões em ether. É a maior captação semanal de 2026 e perde apenas para a semana encerrada em 10 de outubro de 2025. O volume negociado nesses fundos mais que triplicou, de cerca de US$8,8 bilhões para US$29 bilhões.
Alavancagem e alocação se comportam de maneiras diferentes. A primeira desmonta na primeira reversão. A segunda passou pelo comitê e tem mandato.
Nada disso deveria ser lido como confirmação de tese. Três fatos incomodam.
O primeiro é que, mesmo depois da maior semana em dois anos, bitcoin segue cerca de 38% abaixo dos US$126 mil de outubro de 2025. O movimento foi grande em percentual e modesto em recuperação.
O segundo é que o mercado precifica alta de juros na reunião do Federal Reserve de setembro, não corte. Quem está atribuindo essa valorização a afrouxamento monetário escolheu o vetor errado.
O terceiro é que o CLARITY Act, citado como catalisador em boa parte da cobertura, não foi votado. O que está marcado para 15 de setembro é uma votação processual, não a aprovação da lei.
E há uma distorção circulando que vale corrigir, porque ela muda a decisão de quem lê. As manchetes desta semana dizem que Dalio recomendou de 10% a 15% em ouro e bitcoin. Não foi isso que ele escreveu. O texto diz “overweighting gold and a bit of Bitcoin” e, na frase seguinte, atribui a faixa de 10% a 15% exclusivamente ao ouro. Bitcoin aparece duas vezes no artigo inteiro, sempre como coadjuvante. Historicamente ele fala de 1% a 2%.
A informação relevante ali nunca foi o percentual. É o fato de bitcoin ter entrado, num texto sobre risco soberano assinado pelo fundador da Bridgewater, na mesma frase que o ouro.
Ancorar decisão de carteira em manchete sobre o que um gestor famoso disse é o caminho mais rápido para comprar a tese certa no prazo errado. O texto do Dalio está público e leva quinze minutos.
Os dados de captação dos ETFs saem todos os dias. A diferença entre o investidor que atravessa um ciclo desses e o que é atravessado por ele costuma estar aí, não no timing.
*Coluna escrita por André Franco, especialista em criptomoedas, com mais de anos de experiência. Tem passagem como sócio na Empiricus e no Mercado Bitcoin. Na sua carreira ajudou um fundo cripto sair do zero a 500 milhões de reais sobre gestão. Atualmente ele lidera a Boost Research, uma casa de análise especializada em atender clientes de alta renda no setor de criptomoedas.
















