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Braskem pede recuperação extrajudicial e expõe a doença da indústria brasileira

Miguel DaoudPor Miguel Daoud
24/08/2026

A crise da petroquímica reúne erros próprios, passivos bilionários e um ambiente de juros altos, dependência externa e perda industrial.

A Braskem protocolou nesta segunda-feira, dia 24, um pedido de recuperação extrajudicial para renegociar aproximadamente R$ 54 bilhões em dívidas.

A medida não representa falência e tampouco interrompe as operações da companhia. Busca dar proteção temporária contra cobranças enquanto a empresa tenta construir um acordo com seus principais credores.

Ainda assim, a gravidade do sinal não pode ser diminuída. A maior petroquímica da América Latina chegou ao limite de sua estrutura financeira.

A recuperação extrajudicial da Braskem é uma conta particular, mas também um alarme nacional.

Ela mostra o que acontece quando erros empresariais, passivos bilionários e uma crise setorial encontram um país de juros elevados, crédito restrito e baixa competitividade industrial.

Não existe uma única causa

Seria equivocado atribuir a crise apenas ao chamado custo Brasil. A Braskem carrega responsabilidades próprias.

Em 2016, a companhia admitiu participação em um esquema de pagamento de propinas e firmou acordos com autoridades do Brasil, dos Estados Unidos e da Suíça, comprometendo-se a pagar cerca de US$ 957 milhões em multas e devolução de recursos.

As investigações não provocaram a crise atual, mas expuseram problemas de governança, abalaram a reputação da empresa e contribuíram para anos de incerteza em torno de seu controle acionário. Os acordos foram consequência das irregularidades reconhecidas pela própria companhia.

Depois veio o desastre provocado pela exploração de sal-gema em Maceió. Até junho de 2026, a Braskem havia reconhecido cerca de R$ 18,2 bilhões em provisões relacionadas ao caso.

Além do impacto financeiro, existe uma responsabilidade humana, ambiental e urbana que jamais pode ser tratada como simples problema contábil. O balanço da empresa ainda registra aproximadamente R$ 3,2 bilhões em provisões para obrigações futuras.

A recuperação, portanto, não pode servir para apagar responsabilidades nem transferir prejuízos privados para a sociedade.

Uma empresa lucrativa também pode ficar sem caixa

O caso da Braskem revela uma diferença fundamental entre lucro e capacidade de pagamento.

No segundo trimestre de 2026, a companhia registrou lucro líquido de R$ 3,3 bilhões.

Mesmo assim, encerrou junho com dívida corporativa bruta de US$ 10,3 bilhões, dívida líquida ajustada de US$ 9,5 bilhões e alavancagem equivalente a 6,74 vezes o seu resultado operacional.

Ou seja: um trimestre favorável não consegue reparar anos de endividamento, consumo de caixa e deterioração financeira.

A guerra no Oriente Médio aumentou em 27% a referência internacional da nafta em relação ao trimestre anterior, pressionando os custos.

Ao mesmo tempo, as interrupções de oferta elevaram os preços dos produtos petroquímicos e ampliaram temporariamente as margens da empresa.

O conflito não criou o buraco financeiro da Braskem. Apenas acrescentou volatilidade a um balanço que já estava fragilizado.

Fábricas paradas, importações chegando

O drama da Braskem também precisa ser visto dentro da realidade da indústria química brasileira.

O Brasil importa aproximadamente metade dos produtos químicos que consome e acumula déficit comercial superior a US$ 50 bilhões por ano.

Em 2025, os importados chegaram a atender 49% do mercado nacional. Enquanto isso, parte expressiva das fábricas brasileiras permaneceu ociosa.

No início de 2026 houve uma recuperação da produção, mas ela ainda não reverteu a tendência estrutural: nos 12 meses encerrados em março, a produção química havia recuado 7% e as vendas internas, 8,2%.

Os dados da Abiquim mostram um país que possui fábricas, tecnologia e mercado consumidor, mas perde espaço dentro do próprio território.

O problema não é apenas falta de capacidade produtiva. É algo mais contraditório: temos capacidade instalada parada enquanto as importações abastecem o consumo.

Produtores dos Estados Unidos operam com gás natural e etano muito mais baratos. Empresas asiáticas ganham escala, apoio estatal e condições agressivas de exportação.

No Brasil, a indústria enfrenta matérias-primas caras, energia, tributação complexa, logística deficiente, insegurança regulatória e custo elevado de financiamento.

O resultado é conhecido: o Brasil exporta matérias-primas, importa produtos de maior valor agregado e depois se surpreende quando suas próprias fábricas pedem socorro.

Da indústria ao varejo — e ao campo

No varejo, o problema aparece na outra ponta. Famílias endividadas e crédito caro reduzem o consumo, enquanto as empresas precisam financiar estoques, fornecedores e vendas parceladas.

Na indústria, que exige investimentos de longo prazo e muito capital de giro, o efeito dos juros é ainda mais profundo.

A Selic está em 14% ao ano.

Esse custo não explica sozinho a crise da Braskem, cuja dívida é majoritariamente denominada em moeda estrangeira, mas deteriora o ambiente econômico, encarece toda a cadeia e dificulta a recuperação de empresas já alavancadas.

O agronegócio sente a mesma pressão.

No primeiro trimestre de 2026, foram registrados 474 pedidos de recuperação judicial envolvendo produtores e empresas da cadeia agropecuária — crescimento de 21,9% em relação ao mesmo período de 2025.

Crédito seletivo, custos elevados e margens menores estão atingindo até o setor mais competitivo da economia brasileira.

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Um alerta, não um cheque em branco

A Braskem é estratégica para embalagens, construção civil, indústria automobilística, saúde e agronegócio.

Mas ser estratégico não significa ter direito a um salvamento sem condições. Qualquer participação dos acionistas, especialmente da Petrobras, precisa exigir transparência, governança, responsabilidade ambiental e proteção ao patrimônio público.

Ao mesmo tempo, o Brasil precisa decidir se pretende continuar sendo apenas exportador de produtos básicos ou se deseja preservar uma indústria capaz de transformar matéria-prima em tecnologia, empregos e renda.

A recuperação extrajudicial pode reorganizar a dívida da Braskem. Mas somente uma política consistente de competitividade, energia, infraestrutura, crédito e segurança jurídica poderá enfrentar a doença maior.

A Braskem precisa recuperar seu balanço.

O Brasil precisa recuperar sua capacidade de produzir.

*Coluna escrita por, Miguel Daoud, comentarista de economia e política na BM&C News. Administrador de Empresas, com especialização autodidata em Economia e Política, construiu uma trajetória consolidada no mercado financeiro e no agronegócio brasileiro.

*As opiniões transmitidas pelo colunista são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a opinião da BM&C News.

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Foto: Canva Pro

Tags: braskemdívida corporativaindústria químicarecuperação extrajudicialsetor petroquímico

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