Na noite de 24 de julho, no jantar da Associação de Correspondentes da Casa Branca, Donald Trump encerrou o discurso colocando um boné vermelho com os dizeres “Trump 2028” e anunciando, “em primeira mão”, a intenção de disputar um quarto mandato. A Constituição proíbe. A plateia — a mesma imprensa que ele despreza — riu sem muita convicção.
Venho avisando há meses, que Trump não pretende sair. E que ele não vai anunciar isso: vai testar. O boné é exatamente isso — um teste, feito na frente do público mais hostil disponível, para medir a reação sem pagar o preço de um compromisso formal. Quem trata o episódio como piada está lendo o lance errado.
Mas há uma pergunta anterior que quase ninguém faz: por que ele quer ficar? Chame o VAR. A jogada precisa ser revista quadro a quadro.
O placar
O relatório patrimonial obrigatório – Public Financial Disclosure Report ou OGE Form 278e — é um documento oficial de transparência financeira exigido de altos funcionários do poder executivo do governo dos Estados Unidos – entregue por Trump ao Office of Government Ethics em 30 de junho com 927 páginas — registra receita de ao menos US$ 2,24 bilhões em 2025. Segundo análise do New York Times, eram ao menos US$ 622 milhões em 2024. A Forbes estima o patrimônio pessoal em US$ 6,5 bilhões em março de 2026, contra cerca de US$ 2,3 bilhões antes da eleição. Não é crescimento: é mudança de escala.
O motor foi o cripto. Uma investigação do Financial Times apurou mais de US$ 1 bilhão em lucro pré-tributário da família no setor em um ano — número que Eric Trump comentou dizendo que provavelmente era maior. O documento oficial lista cerca de US$ 636 milhões em royalties da memecoin $TRUMP e cerca de US$ 590 milhões vindos da World Liberty Financial. O detalhe relevante: essa receita foi construída enquanto o próprio governo desmontava o aparato regulatório sobre criptoativos. A firma de análise Nansen calcula que quase 989 mil compradores da $TRUMP acumulavam perdas de US$ 3,81 bilhões até o fim de junho. O emissor ganha na taxa de transação — sobe ou desce.
As jogadas que o VAR pega
Guerra do Irã.
O Wall Street Journal revelou que a Aryam Investment 1, ligada a Sheikh Tahnoon bin Zayed, conselheiro de segurança nacional dos Emirados, fechou em 16 de janeiro de 2025 — quatro dias antes da posse — a compra de 49% da World Liberty Financial. Cerca de US$ 187 milhões teriam ido a entidades da família Trump e US$ 31 milhões a entidades ligadas a Steve Witkoff, hoje enviado especial para o Oriente Médio. Em paralelo, a Trump Organization declarou US$ 38 milhões em licenciamentos no Golfo em 2025 (Dar Al Arkan, US$ 21,9 milhões; Damac, US$ 12,5 milhões), e a Forbes calcula que o licenciamento internacional cresceu 900%. Jared Kushner, que negocia Gaza como enviado, administra na Affinity Partners US$ 2 bilhões do fundo soberano saudita — e o New York Times mostrou em março que ele captava novos recursos junto aos mesmos governos com quem negociava.
O Financial Times apurou que ao menos quatro empresas do portfólio da 1789 Capital — casa onde Donald Trump Jr. é sócio — ganharam contratos do governo em 2025, somando mais de US$ 735 milhões. O caso mais visível é a Vulcan Elements, startup de ímãs de terras raras com cerca de 30 funcionários, que recebeu empréstimo de US$ 620 milhões do Pentágono três meses depois do aporte da 1789; a ProPublica documentou intervenção da Casa Branca no processo. O Washington Post publicou em 13 de julho um mapa do portfólio de defesa dos dois filhos. A guerra do Irã, iniciada em 28 de fevereiro, redesenhou as prioridades de compra do Pentágono na mesma direção.
As tarifas
Aqui a mecânica é mais fina. A Nvidia e a AMD aceitaram repassar 15% da receita de vendas de chips à China em troca de licenças de exportação — o que o Financial Times revelou e vários economistas classificaram como um imposto de exportação inconstitucional. Sobre o salão de baile da Casa Branca, o Washington Post registrou que os doadores conhecidos somam US$ 279 bilhões em contratos federais; o New York Times apurou que a ArcelorMittal doou aço estrangeiro e, dias depois, saiu uma proclamação abrindo espaço para reduções tarifárias no setor.
O VAR também anula gol
Rigor exige registrar o outro lado. Nem tudo subiu: a Bloomberg calcula que a aposta de Eric Trump na American Bitcoin apagou cerca de US$ 600 milhões da fortuna familiar; a $TRUMP caiu mais de 90% do pico; a Trump Media perdeu US$ 1,3 bilhão de valor. Parte relevante do patrimônio é papel, não caixa.
Mais importante: nada disso foi julgado. A Casa Branca sustenta que os ativos estão em uma trust administrado pelos filhos e que “não há conflitos de interesse”. E há um ponto jurídico incômodo para os críticos — o estatuto federal de conflito de interesses não se aplica ao presidente. As cartas do Congresso citadas acima partem, quase todas, da minoria democrata: são instrumentos políticos, não conclusões judiciais. Correlação temporal não é prova de causalidade.
O que isso significa para nós
Feita a revisão, minha leitura é esta: o terceiro mandato não é só ego e vaidade. É continuidade de fluxo de caixa. Sair da Casa Branca significa perder acesso, perder o poder de decidir quem paga tarifa e quem é isento, e reabrir uma exposição jurídica que hoje está suspensa. O boné não é piada nem delírio — é gestão de risco.
E isso importa diretamente para o Brasil. Desde 22 de julho convivemos com a sobretaxa de 25% da Seção 301, somada a 12,5%, atingindo 23,1% da nossa pauta exportadora para os EUA. Negociar isso exige entender a função de decisão do outro lado da mesa. A evidência acumulada sugere que essa função tem uma linha de comissão — e que quem não a enxerga negocia no escuro.
Será que o VAR do congresso americano consegue anular o “Trump 2028” ou validar um gol fora das regras? Vamos perguntar a seleção que se acostumou com isso.
*Carlos Honorato é economista, PhD e mestre em Administração, especialista em estratégia, cenários econômicos e Scenario Planning. É CEO da OUTPOD e professor da FIA Business School e do Albert Einstein.
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