O Federal Reserve manteve a taxa de juros dos Estados Unidos no intervalo entre 3,5% e 3,75% na reunião de julho, em decisão anunciada na quarta-feira (29). O resultado veio em linha com a expectativa predominante do mercado, mas revelou uma divisão dentro do Comitê Federal de Mercado Aberto, o Fomc.
Dos 12 integrantes do colegiado, três votaram por um aumento de 0,25 ponto percentual. O comunicado que acompanhou a decisão não apresentou mudanças relevantes em relação ao documento anterior.
Para Andressa Durão, economista do ASA, o principal destaque da reunião foi a entrevista coletiva do presidente do Fed, Kevin Warsh. Segundo a especialista, Warsh adotou uma comunicação menos consistente do que em sua primeira coletiva no comando da autoridade monetária.
Na avaliação da economista, as declarações do presidente do Fed transferiram parte da responsabilidade pela condução das condições financeiras para o próprio mercado.
Mercado fez o aperto pelo Fed
Durante a coletiva, Warsh afirmou que o aperto das condições financeiras observado entre as duas últimas reuniões trouxe algum conforto ao banco central americano.
O presidente do Fed reconheceu que a instituição não havia feito “muita coisa” nos últimos 42 dias, mas afirmou que os mercados haviam se movimentado de maneira significativa durante o período.
Para Andressa, a declaração sugere que a reação dos preços dos ativos, das taxas de mercado e das condições de crédito reduziu a urgência de uma atuação direta do banco central.
“Warsh acabou transferindo a responsabilidade pela condução das condições financeiras para o próprio mercado”, afirma a economista.
A leitura é que o Fed considera o aperto promovido pelos agentes financeiros como parte do processo de contenção da atividade econômica e da inflação, mesmo sem uma elevação formal dos juros.
Menos orientação do Fed
Warsh também relacionou a rapidez da reação dos mercados à redução do chamado forward guidance, mecanismo por meio do qual o banco central oferece indicações sobre os possíveis rumos futuros da política monetária.
Segundo o presidente do Fed, a menor interferência da autoridade monetária permite que os preços dos ativos respondam de maneira mais direta aos dados econômicos.
Com menos orientação antecipada, as taxas de juros dos títulos públicos, o dólar, as bolsas de valores e outros ativos passam a reagir com maior intensidade às divulgações de inflação, emprego e atividade.
A mudança representa um afastamento da comunicação adotada pelo Fed em períodos anteriores, quando o banco central procurava preparar o mercado para suas próximas decisões.
Warsh reduz protagonismo da taxa de juros
Outro ponto destacado pela análise do ASA foi a maneira como Warsh apresentou os instrumentos utilizados pelo Fed para cumprir seus objetivos de estabilidade de preços e máximo emprego.
O presidente da instituição afirmou que a manutenção das expectativas de inflação ancoradas e a demonstração de responsabilidade no cumprimento da meta são tão importantes quanto os instrumentos tradicionais de política monetária.
Entre esses instrumentos está justamente a taxa básica de juros, considerada o principal mecanismo utilizado pelos bancos centrais para estimular ou desacelerar a economia.
Para Andressa, a declaração reduziu, de certa forma, o protagonismo da taxa de juros na condução da política monetária americana.
A economista avalia que Warsh sugeriu que a melhora das expectativas de inflação e o aperto das condições financeiras poderiam diminuir a necessidade de uma atuação direta do Fed.
Comunicação foi interpretada como dovish
Embora Warsh tenha afirmado que o banco central não está recuando de suas responsabilidades e que não hesitará em agir quando considerar necessário, a economista do ASA classificou a mensagem transmitida na coletiva como mais branda.
No vocabulário do mercado financeiro, uma comunicação dovish indica menor disposição para elevar os juros ou maior tolerância com uma política monetária menos restritiva.
“Diante desse contexto, o presidente do Fed não demonstrou disposição para efetivamente elevar as taxas de juros”, avalia Andressa.
A percepção contrasta com a divisão demonstrada na votação do Fomc. Os três votos por uma alta de 0,25 ponto percentual indicam que uma parcela do comitê considera necessário ampliar o aperto monetário para conter os riscos inflacionários.
Fed ainda busca diagnóstico sobre a economia
Warsh afirmou que o Fed deverá aperfeiçoar, nos próximos meses, sua avaliação sobre os choques que afetam a economia americana.
A autoridade monetária enfrenta um cenário marcado por sinais contraditórios. Enquanto alguns indicadores apontam desaceleração da inflação, a volatilidade dos preços da energia e as tensões geopolíticas mantêm os riscos inflacionários no radar.
O presidente do Fed também indicou que os próprios preços de mercado poderão contribuir para o diagnóstico da instituição sobre a intensidade desses choques e seus efeitos sobre a atividade econômica e a inflação.
Essa postura reforça a estratégia de reduzir as indicações antecipadas sobre os próximos passos e tomar decisões com base na evolução dos dados.
ASA prevê duas altas a partir de setembro
Apesar da sinalização mais branda transmitida por Warsh, o ASA mantém a expectativa de que o Federal Reserve precisará voltar a elevar os juros.
A projeção da instituição considera duas altas consecutivas de 0,25 ponto percentual, com o primeiro movimento ocorrendo na reunião de setembro.
Caso o cenário se confirme, a taxa básica americana subiria inicialmente para o intervalo entre 3,75% e 4% e, posteriormente, para a faixa entre 4% e 4,25%.
A previsão está relacionada à possibilidade de permanência das pressões inflacionárias e à necessidade de o Fed reforçar o controle sobre as expectativas de preços.
As próximas divulgações de inflação, atividade econômica e mercado de trabalho serão determinantes para indicar se o banco central seguirá a posição mais cautelosa apresentada por Warsh ou se atenderá à pressão dos integrantes do Fomc que já defendem a retomada do ciclo de alta dos juros.














